“Estamos todos à mercê da violência homofóbica”

Para ativistas, crimes como o que vitimou o jovem João Antônio Donati são reflexo não somente da omissão do poder público mas também de parte da sociedade que não se levanta contra uma realidade de constante ameaça à comunidade LGBT

492 0

Para ativistas, crimes como o que vitimou o jovem João Antônio Donati são reflexo não somente da omissão do poder público mas também de parte da sociedade que não se levanta contra uma realidade de constante ameaça à comunidade LGBT

Por Jarid Arraes

O assassinato de mais um jovem gay está causando comoção e revolta na militância LGBT brasileira: João Antônio Donati, de 18 anos, foi encontrado morto com as pernas e o pescoço quebrados, jogado em um terreno baldio na cidade de Inhumas (GO). Em sua boca havia um papel com os dizeres “vamos acabar com essa praga”. Os ativistas afirmam que o crime foi cometido claramente com tom de ameaça e motivação homofóbicas.

“Claro que a resposta final será dada pela investigação, mas os sinais do ódio por trás do crime e de sua relação com a homossexualidade do menino me parecem bastante evidentes: a hipótese da homofobia assim, no mínimo, tem de ser considerada a mais provável”, afirma João Marinho, jornalista e ativista gay.

Segundo Marinho, os crimes continuam a acontecer por responsabilidade do poder público e pela omissão da população. “Faltam mobilização e políticas públicas. Há falta de mobilização também da população moderada, não fundamentalista, que prefere se calar e acreditar que é um problema longe, do outro, como se aquela vítima não pudesse ser um amigo, filho, pai, parente ou vizinho dela. Gente que essas pessoas amam e, às vezes, nem sabem que é gay”, explica. “Isso tanto se insere num contexto global, em que estamos perdendo a capacidade de nos chocar com a violência, quanto numa realidade em que o poder público não cumpre suas responsabilidades por meio de políticas públicas graças a alianças questionáveis com setores retrógrados, setores estes que preferem negar o óbvio e culpar a vítima em nome de um conceito idealizado e até religioso de ‘família’ que, na prática, exclui boa parte das famílias reais, de carne e osso, existentes no país.”

Há ainda militantes que enxergam o crime como uma reação dos setores conservadores, como explica Majú Giorgi, colunista do IG e uma das integrantes do coletivo Mães Pela Igualdade. “Nós saímos da invisibilidade nessa eleição, é obvio que a discriminação vai aumentar. Temos que estar preparados para isso que nada mais é do que consequência do nosso avanço. Simultaneamente a morte de João, colocaram fogo no Centro de Tradições Gaúchas onde seria realizado um casamento gay. Não podemos tratar os fatos como simples coincidência!”, exclama.

Para Majú Giorgi, o enfrentamento contra a homofobia e a transfobia também precisa partir dos pais e familiares de pessoas LGBT. “Minha luta é para cobrir todo o território nacional com o Movimento Mães pela Igualdade. Que cada cidadezinha deste pais tenha ao menos uma mãe que cobre políticas públicas para a população LGBT e que grite ante a ameaça da homotransfobia. Eu, como mãe, estou estarrecida e me coloco no lugar dessa mãe. Por isso luto, por isso não paro”.

Giorgi conta que seu filho já sofreu uma tentativa de agressão na Avenida Faria Lima, em São Paulo. Essa é a realidade que, em sua ótica, é um risco na capital paulista e também em cidades do interior e de outras regiões brasileiras. “Esse cenário faz parte da realidade dos nossos filhos sim. Eles estão constantemente ameaçados, não interessa se na Rua Augusta no Centro de São Paulo ou na cidadezinha do interior da Bahia ou do Amazonas. Estamos todos à mercê da violência homofóbica! Com certeza essa mãe de Goiás jamais imaginaria o desfecho da história do filho. Então eu imploro que toda a família de LGBTs desse país se levante!”, finaliza.

Foto: Reprodução



No artigo

x