Campanha presidencial: nem toda crítica é ataque

Críticas que têm sido feitas a Marina que se dão no plano pessoal ou relativas a sua fé religiosa são deploráveis. Mas as propostas de governo dela podem e devem ser debatidas, criticadas ou defendidas. E as de Dilma e Aécio também

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Críticas que têm sido feitas a Marina que se dão no plano pessoal ou relativas a sua fé religiosa são deploráveis. Mas as propostas de governo dela podem e devem ser debatidas, criticadas ou defendidas. E as de Dilma e Aécio também

Por Wagner Iglecias, no Jornal GGN

O horário eleitoral desta 5ª feira trouxe uma novidade importante: a candidata Marina Silva na defensiva. Ela posicionou-se em relação a políticas públicas tipicamente petistas, construídas ao longo dos governos Lula e Dilma: Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e Pré-Sal. Prometeu manter os dois primeiros e disse que vai direcionar o dinheiro do Pré-Sal para saúde e educação, e não para a corrupção. Nem poderia ser diferente, até porque já foi aprovada lei neste sentido. Tratou ainda de outro tema que lhe tem sido espinhoso nesta corrida eleitoral: a autonomia do Banco Central. Marina afirmou que sua proposta de BC independente refere-se ao fato de que com ela “nenhum partido ou político vai usar o sistema bancário para se beneficiar”. Cabe perguntar se há tantos políticos assim beneficiando-se de uma agência super insulada como o BC e, mais especificamente, do seu ultra restrito Comitê de Política Monetária (Copom), que define uma das políticas mais estratégicas do país, o preço do dinheiro na economia. A qual tem consequencias nos níveis de consumo, investimento privado, inflação, arrecadação, emprego e também no nível de lucro dos credores da dívida pública. Ou seja, em toda a economia.

Os temas que Marina tratou neste seu programa de TV são exatamente os que têm provocado mais dissabores a sua campanha. O BC com Dilma, convenhamos, é semi-independente. E os bancos e demais credores da dívida pública ganharam muito dinheiro com os governos petistas. Marina propõe, em seu programa de governo, tornar a instituição independente. O que tende a beneficiar ainda mais a eles, os credores. Já os marinistas têm demonstrado grande irritação com as críticas que têm sido dirigidas à proposta. Sim, o discurso do PT hoje rejeita o que classifica como aventura e bate bumbo em palavras de ordem como estabilidade, continuidade e segurança. Algo irreconhecível se comparado a campanhas petistas do século passado. Por outro lado, porém, político algum está acima do bem e do mal. Nem mesmo Marina Silva. Qual o problema em se levar a discussão da independência do BC para o horário eleitoral, para os debates na tv e para as ruas?

Em 1989 a campanha de Fernando Collor dizia que Lula faria o sequestro da poupança se fosse eleito. Quem fez foi Collor. Lula faria? Não se sabe, talvez fizesse, nunca saberemos. Mas efetivamente não estava escrito no programa de governo de Lula naquele ano que ele faria o enxugamento da liquidez, visando o combate à inflação, por meio do represamento dos ativos financeiros da população. Já Marina colocou em seu programa de governo que quer o BC independente. E se isso ocorrer haverá consequencias concretas na vida da população. Por que não se pode tocar neste assunto, então? E por que não se pode defender ou criticar a proposta de Marina? Ela está acima do bem e do mal? Não, definitivamente não está. Nem ela, nem Dilma, nem Aécio nem qualquer outro. Obviamente críticas que têm sido feitas a Marina que se dão no plano pessoal ou relativas a sua fé religiosa são deploráveis. Mas as propostas de governo dela podem e devem ser debatidas, criticadas ou defendidas. E as de Dilma e Aécio também. E isso, o debate sobre propostas, definitivamente não é ataque. É do jogo e é da democracia. Porém o marinismo parece vitimizar-se diante de qualquer senão que lhe é dirigido pelos adversários, jogando no mesmo balaio as críticas ao programa de governo e à candidata. Como estratégia eleitoral faz sentido. Mas o que agrega ao debate público?

A lógica da criminalização da política e dos políticos, por sua vez, não começou agora, vem já de muito tempo. Lula tem sido achincalhado por opositores há anos ou mesmo décadas. Bêbado, analfabeto e “nunca trabalhou” são alguns dos impropérios mais suaves que lhe foram dirigidos inúmeras vezes. Tem sido chamado há anos de apedeuta por um blogueiro de direita e chegou mesmo a figurar como anta no título de um livro de outro blogueiro da mesma linhagem. De Dilma fala-se até de sua sexualidade (como de resto de qualquer mulher que se “atreva” a fazer política neste país). Aécio, Serra e Alckmin também foram ou têm sido vítimas de desqualificações pessoais, cada qual a seu modo. Alguém esperava que com Marina seria diferente? Durante muito tempo a prática da desqualificação de opositores ocorreu em nossos sistema político e o que se viu foi o silêncio de muita gente séria, que achou tudo normal enquanto os alvos fossem os adversários.

A discussão das propostas dos candidatos é não somente saudável como desejável. Já acusações levianas dirigidas ao campo pessoal tornam o debate público cada vez mais envenenado. Marina, se se sente atacada no plano pessoal, deve rebater as críticas. Mas se tem suas propostas de país questionadas, deve debater as alternativas. Quem quiser acreditar em purismo dos seus e em maldade dos adversários, que acredite. Mas que as coisas são bem mais complexas do que esse bem contra o mal que virou essa campanha, com certeza são.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. 



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