Os quatro cavaleiros, de Ross Aschcroft: a política submetida aos bancos

Documentário questiona: como afastar as nuvens de ignorância se as universidades são financiadas pelo sistema bancário que investe nas faculdades de economia e elas continuam a ensinar as... teorias neoliberais?

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Documentário questiona: como afastar as nuvens de ignorância se as universidades são financiadas pelo sistema bancário que investe nas faculdades de economia e elas continuam a ensinar as… teorias neoliberais?

Por Léa Maria Aarão Reis, na Carta Maior

Há um documentário de uma hora e pouco, dinâmico, bem produzido, e leve – não fosse seu tema assunto tão sério – que roda na internet com grandes audiências e ao qual se recomenda assistir, em particular nestas duas semanas antes do primeiro turno das eleições no Brasil.

É perturbador, valiosa referência e fonte de informação global, política, econômica, social e ambiental para o cidadão deste nosso país em que a velha mídia procura de todos os modos desinformar a população (principalmente agora) desvinculando o que se passa internamente, as manobras neoliberais e as idas e vindas da campanha da adversária ao governo da presidente Dilma Rousseff às diretivas óbvias vindas de fora a essas movimentações erráticas, mas que submetem aos mal disfarçados e imensos interesses estratégicos industriais, econômicos e financeiros do governo norte-americano o destino e a continuação do processo de desenvolvimento e de independência do Brasil.

O título, Os quatro cavaleiros. O diretor, Ross Aschcroft, de 36 anos, é um inglês de Liverpool que já trabalhou para a BBC e no teatro. Com The Four Horsemen foi premiado em festivais de cinema de Amsterdã e Teerã e indicado para a mostra da Oxfam Global Justice (Comitê de Oxford de Combate à Fome). Aschcroft integra a conhecida plataforma digital The renegade economist e neste seu primeiro documentário ele entrevista algumas das melhores e mais respeitáveis cabeças que pensam o capitalismo na contramão do sistema estabelecido. Criticando-o por dentro e sem teorizar conspirações nem anunciar apocalipses. Noam Chomsky, Joseph Stiglitz, a jornalista Gilliam Tett, do The Economist, o respeitado economista e professor de Cambridge, o sul-coreano Ha-Joon Chang, outro economista, Michael Hudson são alguns dos entrevistados no doc.

Aschcroft ataca as políticas neoliberais e mostra as causas dessa ideologia que privilegia alguns poucos e pune a grande maioria da população do planeta com a miséria, a desnutrição, a fome e milhares de mortes. Ele faz o link entre terrorismo, aquecimento global e pobreza com o mundo das altas finanças, o chamado corredor Washington-Wall Street no jargão dos economistas americanos.

Crítico severo dos fundamentalistas do livre mercado, Stiglitz comenta numa de suas participações no doc de Aschcroft: “A democracia norte-americana funciona de maneira desnivelada. É uma democracia falha onde se compra favores. Para cada congressista de Washington são contratados e pagos com altos salários cinco agentes lobistas para fazer, junto a eles, o convencimento da não regulação da indústria financeira. Não é por acaso que ela é desregulada. O cidadão pobre, por outro lado, não tem recursos para contratar cinco pessoas para convencer o Congresso a regular o mercado.”

E mais adiante: “O sistema é fruto das contribuições financeiras dos grandes bancos às campanhas políticas e de uma doutrinação ideológica que difunde a ideia de que coisas horríveis acontecerão se os seis maiores bancos americanos forem regulados”. Deste modo é mantida uma oligarquia avançada, plutocrática, no país, e Washington é controlada pelos banqueiros. “E dizem que isto não é uma chantagem…,” ele provoca. (A tal democracia de alta intensidade.)

A certa altura é lembrada a histórica ida de Henry Paulson, ex-executivo do Goldman Sachs e, em seguida, secretário do Tesouro de George W. Bush, desembarcando, desafiador, no Congresso em plena crise de 2008. “Precisamos de 700 milhões de dólares imediatamente. Senão tudo vai desmoronar!” Desembolsem o dinheiro! Senão…

“Os que se encontram no topo das empresas são uma espécie de deuses; ora, os deuses não precisam ser regulados”, diz Stiglitz.

Quando a América começou a mudar? Quando o sonho americano do fim da década dos anos 40 ficou tão distorcido? Com Reagan e Thatcher. Hoje, Wall Street é um cassino muito peculiar sem semelhança qualquer com Las Vegas, nocivo e com repercussões negativas para a sociedade, mostra o filme.

Ironicamente, mostra-se também em Os quatro Cavaleiros que os EUA é o país mais socialista do mundo – para os ricos. Quando os bancos apresentam problemas o governo os resgata e os socorre. “Para os pobres, o regime capitalista: os bancos exploram e cobram principalmente das minorias e dos pobres, o pagamento dos empréstimos de alto risco efetuados.”

A linguagem é dura entre os entrevistados de Aschroft. “A política atual nos Estados Unidos é uma câmara de branqueamento do dinheiro para os ricos. Os diretores do Goldman Sachs exercem influência nos governos”. (A campanha de Barack Obama foi financiada por Sachs, Chase, City, Morgan e também por Microsoft, Time Warner, Google e dezenas de outros grandes grupos corporativos.) “Enquanto democratas e republicanos estiverem comprometidos com as grandes corporações a república não será bem governada”, diz um entrevistado.

Os neoliberais impediram o progresso, arruinaram milhões de cidadãos ao redor do mundo entre os mais desfavorecidos e criaram um sofrimento que não tem limites. Para eles, precisamos estar com os olhos bem abertos, aconselham os participantes de Os quatro cavaleiros.

Desestabilizaram e arruinaram países para em seguida fechar contratos para sua reestruturação através de empréstimos do Banco Mundial e do FMI – valores milionários que acabam indo para as elites locais. (Os tais bons.) Cobiçam regiões onde há petróleo e se tornam “assassinos econômicos,” acusa a jornalista paquistanesa Nadjma Sadeque. “Podemos viver sem os 7.5 milhões de dólares que Obama quer colocar no Paquistão para comprar a erradicação do sentimento antiamericano existente entre nós.”

Uma das reflexões mais importantes do documentário é a análise sobre a geração do baby boom que teria quebrado “o contrato com as gerações seguintes”; os baby boomers esbanjaram a herança que era delas, uma abundância de ideias e uma afluência de bens materiais nunca vistos e se perderam no desejo de consumo desenfreado e no desperdício de dádivas que nos foram dadas – como o desejo fútil da juventude eterna através das cirurgias plásticas”,  registra Noam Chomsky. “Fizemos a pior alocação de abundância de ideias. E o pior é que nossos netos vão enfrentar catástrofes, desnutrição por um lado, obesidade por outro porque vivemos hoje numa letargia e a aceitamos de bom grado!”

Para Chomsky, o resultado é uma aguda apatia política. Em paralelo, um desejo de poder desenfreado, de possuir dinheiro e bens materiais. Viveu-se uma era semelhante à de uma nova Roma, do fim da segunda grande guerra até ao que se achou que era o término da guerra fria. Agora, os sintomas são os da decadência: as atenções desproporcionais dirigidas às celebridades; as novas profissões – como as de chefs de cozinha – cuja novidade é a fabricação de mais estrelas. O desejo permanente da melhor comida, da melhor roupa, da melhor música, do melhor filme, os reality shows – e nunca nos fartamos do que não precisamos.

O sucesso material e o fracasso social. A venda disparada de antidepressivos. O cinema idiota de Hollywood moldando o pensamento do Ocidente. As universidades, as escolas e a mídia que não estimulam a perceber o sistema real. A desinformação. Mas como afastar as nuvens de ignorância se as universidades são financiadas pelo sistema bancário que investe nas faculdades de economia e elas continuam a ensinar as… teorias neoliberais?

Assim, por exemplo, como durante o período da decadência romana eram organizados eventos de gladiadores para distrair o povo, hoje, grandes competições esportivas globais, fortunas pagas aos atletas (como antigamente eram pagas aos gladiadores) e programas de tevê distraem e tiram o foco do que está realmente acontecendo, diz Noam Chomsky. “Crises econômicas e financeiras sempre acompanham o processo de um império em queda.”

Um império dura cerca de 250 anos, ensina The four horsemen em seu prólogo. São dez gerações que vivem nos ciclos dos Pioneiros, das Conquistas, do Comércio, da Afluência, do Intelecto e da Decadência (o pão e o circo).

Sintomas? Familiares. A mesma história ocorreu com romanos, otomanos e espanhóis, mostram os historiadores. Exércitos superdimensionados e desproporcionais; desigualdade crescente; a ostentação de riquezas; a obsessão por sexo; em especial a desvalorização da moeda, a mais notória. E, atualmente, a exaustão dos recursos naturais do planeta.

Como epílogo, Os quatro cavaleiros se refere a Gandhi: “Não existe falta de recursos para a sobrevivência da humanidade; eles são suficientes para todos. Mas não são o bastante para atender à ganância de todos”.

Foto: Divulgação



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