Epidemia do ebola e mais um capítulo da militarização dos EUA na África

Depois de operações militares em 49 dos 54 países da África - em menos de um ano - o envio de de 3 mil militares para combater o vírus ebola se torna apenas mais uma ação do intervencionismo dos EUA no continente

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Depois de operações militares em 49 dos 54 países da África – em menos de um ano –  o envio de de 3 mil militares para combater o vírus ebola se torna apenas mais uma ação do intervencionismo dos EUA no continente

Por Vinicius Gomes

Separatistas ucranianos pró-Rússia na Europa Oriental. Sunitas radicais do Estado Islâmico no Oriente Médio. “Ditadores” populistas na América Latina ou comunistas norte-coreanos loucos por armas nucleares no Extremo Oriente. Para onde quer que os EUA olhem no mapa-múndi, sempre haverá algum lugar para se levar a “liberdade e a democracia” e algum inimigo para ser combatido e vencido. Chegou a vez do vírus ebola no oeste da África experimentar um pouco daquilo que todos os vilões do mundo merecem: a força militar dos norte-americanos.

Em 16 de setembro, o presidente dos EUA Barack Obama anunciou uma resposta para o contágio epidêmico do vírus ebola por diversos países africanos como Guiné, Serra Leoa e, principalmente, Libéria. Essa resposta envolverá, segundo a própria Casa Branca, forças militares para auxiliarem no “comando e controle”, logísticas, treinamento e apoio na engenharia. No pacote está inclusa também a construção de um quartel-general do Comando da África dos EUA (Africom, sigla em inglês) em Monróvia, capital da Libéria, para coordenar as ações norte-americanas na região e ser o ponto de ligação entre Washington e organizações internacionais envolvidas. O número estimado de militares norte-americanos é de 3 mil pessoas.

Todavia, tal resposta dos EUA torna cada vez mais claro como funciona a mentalidade norte-americana, que cada vez mais enxerga assuntos internacionais por meio da perspectiva militar, e para quem toda crise requer uma resposta nesses moldes. Basta olhar para a resposta de Cuba ao pedido de ajuda da Organização Mundial da Saúde: um estafe de 165 pessoas. Médicos e enfermeiros.

Ações militares dos EUA na África: verde (treinamentos e desembarques táticos em 2013); amarelo (treinamentos e desembarques táticos em 2012); roxo ("cooperações de segurança"); vermelho (parcerias com forças armadas); azul (bases e instalações militares);  marcadores verdes (treinamento de tropas para atuarem em um terceiro país em 2013); marcadores amarelos (treinamento de tropas para atuarem em um terceiro país em 2012)
Ações militares dos EUA na África: verde (treinamentos e desembarques táticos em 2013); amarelo (treinamentos e desembarques táticos em 2012); roxo (“cooperações de segurança”); vermelho (parcerias com forças armadas); azul (bases e instalações militares); marcadores verdes (treinamento de tropas para atuarem em um terceiro país em 2013); marcadores amarelos (treinamento de tropas para atuarem em um terceiro país em 2012)

Seria um equívoco, no entanto, imaginar que os EUA estão utilizando essa nova crise humanitária na África para se instalar militarmente no continente – não por isso estar errado, mas sim pelo fato de isso não ser exatamente uma novidade. De acordo como jornalista Nick Turse, “os militares norte-americanos estão se movendo, cada vez mais, para dentro da África há anos e ninguém parece notar”. Turse é provavelmente o único que tem acompanhado a “invasão” militar secreta dos EUA por todo o continente: “Eles [militares norte-americanos] estão envolvidos na Argélia e em Angola; em Benin, Botswana, Burkina Faso e Burundi; em Camarões e as ilhas do Cabo Verde. E isso é apenas o “ABC” da situação. Se pularmos para o fim do alfabeto, a história será a mesma: Senegal e Seychelles, Togo e Tunísia, Uganda e Zâmbia”, explica Turse, e isso tudo sendo coordenado de Sttutgart, na Alemanha.

A cidade alemã foi escolhida como sede da Africom após os EUA recusarem a oferta do único país que se dispôs a ceder seu território para as forças militares norte-americanas: ironicamente, a Libéria. Em seis anos de existência tem aumentando sua presença no continente de maneira silenciosa e furtiva, através de bases aéreas para drones, alianças com tropas africanas e muitas e muitas operações secretas: ataques aéreos e sequestros de suspeitos de terrorismo, ações com outros países europeus e operações de evacuação em conflitos. Mas, acima de tudo, os EUA conduzem treinamento, financiamento e “aconselhamento” a seus lacaios locais. Uma investigação de Turse, analisou documentos oficiais revelando que os EUA estiveram envolvidos em, pelo menos, 49 dos 54 países da África, entre 2012 e 2013.

Não custa lembra que quando em maio passado o mundo clamou, através da hashtag “Bring Back Our Girls”, por uma intervenção militar dos EUA para o resgate de 300 jovens estudantes sequestradas pelos militantes do Boko Haram, na Nigéria, os soldados dos EUA já estavam por lá desde janeiro. Não é à toa também que a Africom está agora empenhada em combater um “novo califado” na África promovido pelos extremistas do Boko Haram e que, segundo o The Independent, já contam com a benção e conselhos” do Estado Islâmico, no Iraque e na Síria.

As operações dos EUA na Libéria, entretanto, levantam muitas questões, cmo um artigo publicado pelo Foreign Policy in Focus aponta: “A construção de instalações e a execução dos programas serão terceirizados pelos militares? Os centros de tratamento dos EUA serão temporários ou permanentes? Qual é o prazo para os EUA se retirarem do país? E talvez ainda mais importante, o quartel-general na Libéria será usada para operações militares não relacionadas com o Ebola?”.

Apenas o tempo dirá. Não conte com Obama, ou o(a) próximo(a), depois dele para isso.

Foto de Capa: TomDispatch.com



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