Carta aos meus amigos: Lindberg ou Pezão?

Acima de qualquer objetivo eleitoral, precisamos reconstruir no Rio uma força política progressista e de esquerda. Ela foi dizimada principalmente nos últimos 15 anos em que Garotinho, Cabral e a Globo, cada um a seu modo, contribuíram para sua quase exterminação, sem falar nos...

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Enquanto Pezão é homem de confiança de Cabral, Lindberg é o voto para reconstruir um ambiente novo para a política no Rio

Iniciamos a corrida eleitoral ao governo do Rio com quatro candidaturas em condições de ir ao 2º turno. Garotinho não tem voto entre os meus amigos. Crivella tem pouquíssimos votos e nenhum deles esboça qualquer dúvida sobre a opção que fizeram.

Muitos e muitos amigos estão em dúvida: Pezão ou Lindberg?

Acima de qualquer objetivo eleitoral, precisamos reconstruir no Rio uma força política progressista e de esquerda. Ela foi dizimada principalmente nos últimos 15 anos em que Garotinho, Cabral e a Globo, cada um a seu modo, contribuíram para sua quase exterminação, sem falar nos erros da própria esquerda. Para o Brasil, o Rio já foi vitrine de contestação, de irreverência, de grandes manifestações e de boas opções na política.

O Rio já teve o prazer da irreverência de Leila Diniz e de Darcy Ribeiro. Já teve o Pasquim. Já tivemos Gonzaguinha. Já convivemos com Mario Lago e João Saldanha. Tivemos a militância de Luiz Carlos Prestes. A UFRJ já teve como reitor o Magnífico Aloísio Teixeira. Já tivemos a sede da UNE na Praia do Flamengo. O Rio já teve o Governador Leonel Brizola.

O momento eleitoral é importante para emular a reconstrução de um campo de ideias radicalmente democrático e progressista. É o momento de promover o resgate de um Rio contestador, irreverente. O meu voto tem e sempre terá um forte componente de convicção de ideias e ideais. Aliás, é somente por esse motivo que voto Dilma para presidente. Voto nela mais pelo seu “coração valente” e menos pelo que tem feito na política e com a política econômica. Se me deixasse levar apenas por questões conjunturais tenderia a anular o meu voto para presidente. Mas não! Votarei Dilma.

Sobre o Rio, para começar, quero dizer que Pezão não tem nada a ver com esse Rio progressista, democrático e contestador. Pelo contrário, sempre mostrou que a sua ideologia era o arrivismo. De homem simples, trabalhador e sem ambição, só tem a imagem.

Era associado ao grupo de Garotinho, foi secretário do governo Rosinha. Foi indicado por Garotinho para ser o vice de Cabral. Depois rompeu com Garotinho e passou a ser o principal bajulador de Cabral para se tornar seu herdeiro político e sucessor. Conseguiu. Foi escolhido como sucessor porque é da confiança de Cabral e de seu grupo político composto por parlamentares e empresários que prestam serviço ao governo do Rio.

Hoje, Pezão está associado umbilicalmente com Cabral, Picciani, Paulo Melo e Eduardo Cunha. Esse último será provavelmente o próximo presidente da Câmara dos Deputados e dificultará ao máximo as ações do Governo Dilma. Será homem forte do grupo que aprisionará o Legislativo, o Judiciário e dominará a máquina pública do governo do Rio. Ou alguém imagina que Pezão eleito terá motivos políticos ou ideológicos para enfrentar Picciani, Cunha e Cabral?

Pezão entrou na política para ser político. Não chegou na política porque tinha sido uma liderança sindical ou estudantil, não era um intelectual que fazia o debate de opinião com a sociedade, não foi preso político e nunca foi visto numa grande manifestação popular. Não faz da política o melhor instrumento para a transformação social. Faz da política um espaço de realização pessoal.

Ele promove e participa ativamente de um modo de governar o Rio que embrulha no mesmo pacote interesses patrimonialistas, ganância empresarial, financiamento milionário de campanhas eleitorais e péssima qualidade na oferta dos serviços públicos. Pezão também acena ao seu eleitorado mais conservador que é a favor da redução da maioridade penal. Assim, tem o apoio de Bolsanaro à sua candidatura. Apoio não se recusa, mas se desconfia.

Já dei muitos motivos para não votar em Pezão. E isso já seria motivo para escolher por exclusão o voto em Lindberg. Mas isso, embora válido, é pouco para definir o meu voto.

Analisemos as alianças. O PT do Rio voltou a fazer alianças políticas e ideológicas de qualidade. Sua aliança é com o PV dos ambientalistas progressistas, com o PCdoB de esquerda de Jandira Feghali e com o PSB de Roberto Amaral e José Gomes Temporão. Além disso, Lindberg conta com o apoio do PDT do trabalhismo autêntico de Brizola Neto e também conta com o apoio de algumas personalidades da Rede. O MST, o Mídia Ninja e os movimentos de cultura da periferia também apoiam Lindberg.

Essa é uma aliança de qualidade, progressista, popular e de esquerda, que deveria ser uma referência para orientar o PT em todo o Brasil. É hora de pensar numa estratégia para largar o PMDB. Pezão, por exemplo, não fala sobre suas alianças nem sobre a necessidade da reforma política. Não fala nada sobre o fim do financiamento privado de campanhas eleitorais. Deseja continuar sendo apoiado por empreiteiras contratadas pelo governo do Rio. A máquina da sua campanha, com milhares de placas pelas ruas, com seu comitê na Barra com dezenas de recepcionistas e seguranças é de envergonhar o cidadão de bom senso.

Lindberg responde a questionamentos na justiça sobre a sua gestão em Nova Iguaçu. Infelizmente, isso se tornou comum para todos. Os chamados órgãos de controle e a legislação de hoje dificultam ao extremo àquele que é um ordenador de despesas no setor público. Há alguns amigos que também respondem a processos. Qualquer denúncia se transforma em investigação, em execração pública, por vezes, em processos . . . Quando fui diretor do Ipea, entre 2007 e 2011, gastava 50% do meu tempo tratando com os advogados da Instituição como deveria me proteger e proteger o meu patrimônio – e o resto do tempo pensava como realizar a atividade fim da Instituição. E muitas vezes, confesso, recuei com receio da interpretação de tal ou qual portaria que poderia me dar um processo nas costas… a vida de um gestor público se tornou um inferno no Brasil.

Lindberg não tem processo aberto ou condenação no STF que é a instância de julgamento definitivo de um Senador. E, aliás, esse não deveria ser um quesito de opção de voto em Pezão. Esse sim tem condenação por superfaturamento de ambulâncias quando era prefeito de Piraí – e responde a três processos com acusação de estar envolvido na máfia dos sanguessugas.

Lindberg não é um despreparado. Mas um governador deve estar preparado pra quê? O cargo de governador é cargo político. Não é um cargo para um técnico, um intelectual ou um artista. Alguém para ser um bom governador tem que ser um bom político. Lula conhecia profundamente qual área de seu governo? Somente uma: a política. Um bom político sabe ouvir, aprender, delegar, escolher, decidir, estimular e valorizar. Lindberg tem inteligência política. Não existe pessoa com inteligência genérica. Existem pessoas inteligentes para diferentes áreas da vida. Leonel Messi é inteligente. Chico Buarque é inteligente. Lula é inteligente. Mas nenhum deles é capaz de superar o outro na sua respectiva área.

Lindberg é inteligente na política, mas mais do que isso: ele tem lado. É de esquerda. O voto em Lindberg é o voto para reconstruir um ambiente novo para a política no Rio. É o voto para que possamos respirar, vencer e reorganizar os progressistas e a esquerda no estado. Desde que o PT fez alianças com Garotinho e com o PMDB aqui no Rio, a esquerda e os setores progressistas praticamente desapareceram. E o voto em Pezão é o voto para estreitar as possibilidades de construção de um caminho progressista e contestador para o Estado.

Além disso, Pezão não colocará o Rio no cenário nacional, não é liderança, não tem carisma. Sua espontaneidade é um desastre, como mostram os debates e entrevistas ao vivo. Mas, no seu programa eleitoral de TV é um personagem humilde do interior, que só trabalha e realiza. Não é verdade, não realiza. Não houve reconstrução da região Serrana desde as enchentes de 2011. Pezão não teve pulso para segurar as “raposas” que capturaram os recursos federais que lá chegaram. O dinheiro desapareceu ou foi devolvido ao governo Dilma.

Por último, gostaria de lembrar que o FORA CABRAL foi um movimento estadual e nacional contra uma forma de governar e não apenas pelo afastamento de um governante. Será esta mesma forma de governar que será reproduzida caso Pezão seja eleito – e com efeitos nefastos sobre reorganização de um caminho democrático e progressista para o Rio de Janeiro. Predominará o obscurantismo, a desesperança e a mesmice.

Voto Lindberg!



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1 comment

  1. ZE Responder

    Se vc é de esquerda, pq não vota em Tarcisio Motta, que nunca esteve coligado com o PMDB ???


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