Uma direita nova, mas nem tanto

Para Adriano Codato, doutor em Ciência Política pela Unicamp e professor de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR), grupos direitistas que têm saído às ruas pode consolidar uma agenda que contemple o “combate mais histérico” aos novos direitos individuais, aos direitos de...

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Para Adriano Codato, doutor em Ciência Política pela Unicamp e professor de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR), grupos direitistas que têm saído às ruas pode consolidar uma agenda que contemple o “combate mais histérico” aos novos direitos individuais, aos direitos de minorias e a questões comportamentais

Por Glauco Faria

O processo eleitoral de 2014 e o acirramento entre posições divergentes desenharam um cenário como há muito não se via no Brasil, com diversos grupos de direita saindo das redes e indo para as ruas protestar. O menu das manifestações é variado, mas inclui desde protestos contra o PT e a presidenta Dilma chegando a pedidos por intervenção militar. Mas o que essa movimentação pode significar para o quadro político nacional?

De acordo com Adriano Codato, doutor em Ciência Política pela Unicamp e professor de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR), uma nova agenda pode surgir com base nessas manifestações, incluindo um combate aos novos direitos individuais, aos direitos de minorias e a questões comportamentais, não representando propriamente uma novidade.

“O que une as várias gerações de direita no Brasil são, a meu ver, quatro temas: o racismo de classe, o fanatismo golpista, o anticomunismo primitivo e a bandeira da (anti)corrupção. Tudo isso estava na UDN, no PDS, no PFL. E agora é amplificado pelos seus novos porta-vozes: os colunistas, apresentadores, humoristas, “intelectuais” que frequentam os jornalões e são replicados incessantemente nas redes sociais”, avalia.

Leia abaixo a íntegra da entrevista, concedida por e-mail.

Fórum – Na sua opinião, os grupos de direita passaram à condição de protagonistas nas últimas eleições?

Adriano Codato – Não. Protagonistas foram PT, PSDB e PSB, ou seja, os grandes partidos da política convencional. Grupos de direita – na sua versão econômica, ou na sua versão política – encontraram um caminho de expressão na Rede/PSB e, depois, no PSDB.

Fórum – O papel do PSDB no processo eleitoral ajudou a dar mais importância para essas figuras mais extremadas

Codato – O PSDB, como todo partido que concorre a votos eleitorais, não pode, numa disputa, se dar ao luxo de escolher eleitores, separá-los entre votos bons e votos maus. O que ocorreu é que, assim como em 2010 com Serra, o PSDB aceitou o papel de porta-voz da extrema-direita brasileira. Suas lideranças políticas ou intelectuais (Fernando Henrique, José Serra, José Arthur Giannotti) não foram aos jornais reprovar o discurso alucinado dessa direita alucinada contra o governo. Tratou-se, a meu ver, de cálculo eleitoral. Se o PSDB irá aceitar esse papel de agora em diante, a ver. De toda forma, parece ter havido uma diluição da marca partidária, que de “social-democrata” corre o risco de ser identificado, pelas esquerdas, como “social-fascista”.

Fórum – Os grupos de direita podem se institucionalizar se abrigando em algum partido (como o PSC) ou formando um novo (como o Partido Militarista Brasileiro)?

Codato – Os grupos de direita estão numa encruzilhada estratégica: repudiam os políticos, os partidos, as instituições representativas em geral mas não podem abrir mão deles para serem ouvidos (é custoso demais desfilar na Avenida Paulista uma vez por semana). Por sua vez, os partidos da direita tradicional estão em decadência: o DEM em extinção e o PP integra alegremente a base do governo odiado por eles. O PSC, apesar do crescimento nos últimos anos, é um partido pequeno, controlado pelos evangélicos obscurantistas. Não sei se a direita católica – a invencível Opus Dei, por exemplo – gostaria dessa vizinhança. Formar um novo partido exige organização, disposição, recursos, programa, políticos. Veja o caso de Marina Silva: sua Rede encalacrou. Por fim, abrigar-se no PSDB pode ser o caminho natural. Resta saber se o PSDB permitirá.

Fórum – Quais as principais bandeiras que podemos identificar nessa direita? Pode-se chamar de “nova direita” ou ela segue a mesma tradição de períodos anteriores da história política brasileira?

Codato – Há coisas novas e coisas velhas. Mas mais velhas que novas. O que une as várias gerações de direita no Brasil são, a meu ver, quatro temas: o racismo de classe, o fanatismo golpista, o anticomunismo primitivo e a bandeira da (anti)corrupção. Tudo isso estava na UDN, no PDS, no PFL. E agora é amplificado pelos seus novos porta-vozes: os colunistas, apresentadores, humoristas, “intelectuais” que frequentam os jornalões e são replicados incessantemente nas redes sociais. Uma nova agenda pode surgir daí que é o combate mais histérico aos novos direitos individuais, aos direitos de minorias, a questões comportamentais. Essa direita é infinita.

Fórum – É algo positivo para a democracia o fato de figuras políticas direitistas estarem “mostrando a cara”?

Codato – Desde que continuem falando em golpe, conclamando os militares, pedindo o impedimento da presidente Dilma, balançando a bandeira do bolivarianismo etc. e que isso não encontre NENHUMA repercussão no mundo político institucional, OK. Teremos o nosso “Tea Party”, secundado pelas grandes empresas de comunicação, suas revistas, seus comentaristas e seus especialistas. Se isso passar à ação, aí não será positivo, de modo algum.

Fórum – Há riscos de uma polarização mais evidente entre esquerda/direita com a expectativa de projetos como o da reforma política e mesmo revisão da Lei da Anistia e desmilitarização das PMs, pontos previstos em resolução política recente do PT?

Codato – Se o novo governo do PT se mover mais de um milímetro para a esquerda, sim. A polarização esquerda e direita será aprofundada e gritada pela imprensa. Creio, todavia, que a polarização fundamental nesse segundo mandato de Dilma se dará entre governo e oposição. A oposição saiu muito revigorada da votação de 2014. Trata-se de um capital eleitoral que o PSDB e seus satélites (DEM, PPS etc.) farão questão de não perder.

Aliás, esse movimento já começou, com o discurso e a ampla cobertura do discurso do Senador Aécio na sua volta ao Senado.

Foto: Reprodução YouTube



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