A hora e a vez da CULTURA

Impaciência, ódio, intolerância, revolta…, estas adjetivações estarão cada vez mais presentes nas análises sobre a conjuntura política e social do Brasil. Há um sentimento de mal estar no ar, algo um tanto quanto difuso,...

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Impaciência, ódio, intolerância, revolta…, estas adjetivações estarão cada vez mais presentes nas análises sobre a conjuntura política e social do Brasil. Há um sentimento de mal estar no ar, algo um tanto quanto difuso, mas que se expressa de modo bastante tangível, desde em cenas da vida cotidiana até em concentrações públicas. Primeiro, as manifestações de junho de 2013 e seus desdobramentos; depois, a polarização e as agressões na campanha eleitoral, muitas fomentadas por inspiração marqueteira, mas que se plasmaram em parte da sociedade e que podem desdobrar-se em uma nova espiral de revolta, intolerância, ódio, impaciência… E com consequências imprevisíveis.

O que teria gerado este comportamento social?

O país vem de um processo de continuidade democrática de trinta anos (o mais longo da história brasileira), com ampla liberdade de organização e expressão; vinte anos de estabilidade econômica, com inflação baixa (mesmo ultrapassando o centro da meta de inflação, o índice anual de 6,5% é muitas vezes inferior a índices mensais de inflação durante os anos 80 e início dos 90), o menor índice de desemprego da história e aumento real (70%) do salário mínimo; afora o intenso processo de proteção social, permitindo que, ao longo da primeira década do século XXI, mais de 30 milhões de pessoas fossem incorporadas à chamada “nova classe média” e outros tantos saíssem da situação de miséria ou pobreza extrema, via programas sociais e aumento real do salário mínimo; também houve uma relativa expansão dos serviços públicos, com acesso quase universal à saúde e ensino fundamental, incluindo consistente ampliação ao acesso à educação superior (7 milhões de matrículas) e um amplo programa de moradia popular (mais de 3 milhões de moradias entregues pelo “Minha Casa, minha vida” e outras 3 milhões contratadas). Ainda assim estamos assistindo ao agravamento do sentimento de impaciência, ódio, intolerância, revolta…

Por que será?

Primeiro, porque, se houve uma ampliação quantitativa no acesso a bens e serviços públicos, acompanhada de relativa estabilidade econômica e redução de desigualdades, estes processos não foram acompanhados de ganhos qualitativos. A saúde e educação, apesar de quase universalizados, seguem com qualidade precária e o acesso a empregos de qualidade é cada vez menor; o próprio processo de superação da pobreza extrema também se revela pouco sustentável. Um segundo fator é a contradição entre o oferecimento de serviços públicos de baixa qualidade (e, em alguns casos, inexistente, como o fato de 52% da população não dispor de acesso à rede de esgoto) e o absurdo dreno de recursos públicos pela corrupção ou ineficiência na gestão do Estado, resultante da apropriação privada do bem público, via conivência e acordos de poder com oligarquias econômicas e políticas (a chamada “governabilidade”). Há um terceiro fator: a distância cada vez maior entre as Instituições de Estado e a representação cidadã. A estes 3 fatores, cabe acrescentar a reduzida presença de políticas culturais em sentido abrangente (em suas dimensões de expressão simbólica, criação artística, cidadania, cultivo de valores e comportamentos, reconhecimento de identidades e fortalecimento da diversidade, exercícios de alteridade e de novas formas de perceber a economia a partir de valores culturais) e com alcance amplo. Sem dúvida, há fatores objetivos (demanda por mais e melhores serviços públicos e meios de acesso a bens de consumo, percepção da distância entre Instituições e Sociedade e mal uso de recursos públicos) e subjetivos (sentimento de mal estar, imediatismo, impaciência, incapacidade em perceber e coexistir com o “outro”, acirramento de antagonismos, baixa intensidade democrática e no exercício de uma cultura cidadã) que colocam a sociedade brasileira em um pré-ambiente de esgarçamento social e político.

Se agregarmos a este ambiente uma situação de instabilidade econômica (deterioração das contas públicas, estagnação na atividade produtiva, necessidade de elevação nos juros públicos e reajustes em tarifas estratégicas -combustíveis, energia- e escassez e possibilidade de racionamento no fornecimento de água e energia) e política (divisão eleitoral entre situação e oposição na ordem de 52% a 48%, agravamento de antagonismos partidários e sociais, baixa qualidade na representação parlamentar e possibilidade de envolvimento de dezenas de quadros partidários e empresariais em um escândalo de corrupção com dimensões bilionárias, como no caso da operação Lava-Jato), o Brasil vivenciará uma combinação explosiva para 2015, ou até mesmo para antes do início do novo governo.

Em um contexto histórico como este, percebe-se o quanto a Cultura faz falta. Aqui me refiro à construção de Políticas Públicas de Cultura com sentido emancipador. Lamentavelmente, no campo das políticas governamentais, a Cultura ainda é vista como bem supérfluo, um simples adorno ou sinônimo de refinamento para poucos. No início do governo Lula, houve espaço para a experimentação e a ousadia, seja em discursos e diretrizes, ou em ações concretas, com relativa escala, através do programa CULTURA VIVA e dos Pontos de Cultura; porém, nos últimos 4 anos aconteceu uma interrupção neste processo, resultando em retrocessos, tanto conceituais como de ação prática. Houvesse continuidade e aprofundamento de políticas anteriores, talvez o país estivesse vivendo outro ambiente de Cultura Política e Cidadã. Se combinarmos este desmonte de nascentes políticas culturais avançadas (e que necessitavam de cuidado, continuidade e aperfeiçoamento) com a ênfase em políticas públicas que confundem inclusão social com mero acesso a bens materiais e consumo, teremos por resultado uma redução e vulgarização da vida cidadã. Evidente que as pessoas precisam ter acesso a recursos para se alimentarem bem, terem boa morada, bom emprego e acesso a bens de conforto. Porém, quando isto acontece de forma dissociada de uma educação de qualidade e de uma ação cultural transformadora, a própria capacidade de interpretação do mundo por parte dos indivíduos e grupos sociais vai se limitando e estes vão perdendo cada vez mais a sua condição de cidadãos para transformarem-se em meros consumidores. Como as grandes características do consumismo são exatamente o hedonismo, o individualismo, o imediatismo e a sensação de constante insaciedade, a impaciência e a intolerância tornam-se cada vez mais frequentes no agir político e social das massas. Aliado à impossibilidade de que todos se sintam saciados no desejo de consumo (sejam bens privados ou serviços públicos), a revolta e o ódio emergem.

Junto a estes componentes de ordem subjetiva, há que levar em conta dois outros aspectos cada vez mais presentes na ordem econômica, social e política do Brasil: a iniquidade e a corrupção e o patrimonialismo em níveis cada vez mais escancarados. Quanto à desigualdade social, os mais pobres até tem ascendido em suas condições de vida; contudo, os muito ricos estão acumulando ainda mais riqueza. Como a ostentação de riqueza é cada vez mais festejada (inclusive entre as camadas mais pobres, via movimentos comportamentais como os “rolézinhos em shoppings” e o “funk ostentação”), a sensação entre o desejo de “ter” bens e não dispor de meios (materiais ou simbólicos) para acessa-los gera um sentimento de frustração cada vez maior, ocasionando em mais ódio e impaciência. Em relação à corrupção e patrimonialismo (que, infelizmente, os conluios entre governos, partidos -quase todos- e grupos econômicos tem se esmerado em dar motivos para uma sensação de que eles crescem cada vez mais), o sentimento de indignação entre ter que conviver com uma baixa (baixíssima) qualidade nos serviços públicos (notadamente na saúde, transporte, educação e saneamento) e assistir a um desvio escancarado destes recursos para mãos privadas, resulta em um misto de frustração e revolta. Como as instituições não dão conta do estancamento desde dreno de recursos públicos na velocidade necessária, impaciência, ódio e revolta vão sendo, ao mesmo tempo, represadas e liberadas, até que um dia explodam.

Como historiador de formação, estudioso da Cultura e trabalhando com políticas culturais há quase 40 anos, diria que é chegado o o momento de se perceber a construção de políticas públicas de Cultura como estratégicas para a própria sanidade social do BRASIL. E quiçá abrindo caminho para um salto civilizacional no país. Para tanto quero apresentar medidas, programas e ações efetivas de modo a contribuir para reverter este quadro de mal-estar (ou mais que isso) social enquanto ainda há tempo.

Mas antes é preciso inserir estas contribuições no contexto de diálogo proposto pela presidenta eleita, sobretudo a partir de uma perspectiva popular, democrática, progressista e sob os princípios da Cultura de Paz. O ideal é que o PT e o governo federal promovam um sincero e efetivo processo de diálogo com forças políticas, pensadores independentes e movimentos populares e progressistas que foram se distanciando (ou sendo afastados) do campo político que governa o país desde 2003. Cabe ressaltar que foram exatamente estas forças que tiveram um papel decisivo no segundo turno das eleições presidenciais, evitando um retrocesso ainda maior nos rumos políticos e econômicos do país. A despeito de um “quase” movimento popular para evitar o retrocesso, estas forças seguem com suas pautas ainda desprezadas ou fracamente implementadas pelo atual governo. Há que rever imediatamente as políticas ambiental, energética e cultural, além do atendimento às demandas da Reforma Agrária e Agricultura Familiar e agroecológica, dos direitos dos povos indígenas, quilombolas e tradicionais, bem como no combate à homofobia e efetivação de direitos LGBT. Seria uma correção de rumo pontual, em áreas específicas, cujas forças sociais foram bastante alijadas na implantação de políticas públicas, sobretudo nos últimos quatro anos. Isto já representaria um aceno, uma recomposição de forças, dando um caráter mais progressista ao novo governo. Tal recomposição asseguraria um fôlego para a redefinição de políticas em outras áreas estruturantes, seja na economia, serviços públicos, comunicação democrática e reforma do Estado (a começar pela Reforma Política). Outra medida urgente é a convocação de uma Constituinte Exclusiva para a Reforma Política, impedindo o abuso do poder econômico na campanha para eleição dos constituintes e assegurando o direito a candidaturas avulsas.

Segunda Parte. Desafios para uma gestão Cultural Transformadora

Primeira medida. Corrigir o enfraquecimento sofrido pelo Ministério da Cultura nos últimos quatro anos. Esta correção de rumo precisa ser, ao mesmo tempo, simbólica e efetiva. Há que retomar a capacidade de invenção e ousadia na formulação de pautas culturais em diálogo democrático com a sociedade, destravando políticas como Direito Autoral, Redução de Desigualdades (regional, social, estética e diversidade) no Fomento à Cultura com a revisão da lei Rouanet, Incentivo à Cultura Digital e Conhecimentos Livres, a democratização do Audiovisual, o fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura (no mínimo com recursos equivalentes à renúncia fiscal), a efetivação do Sistema Nacional de Cultura. E há que assegurar meios para a execução de políticas públicas avançadas e com amplo alcance. Isto se traduz em garantir um quadro de carreira para a gestão do MinC e a aprovação da PEC da Cultura (antes PEC 150, agora 421), assegurando um aumento escalonado no orçamento da Cultura (na ordem de 0,5% ao ano até alcançar o patamar mínimo de 2% – atualmente está em 0,11%).

Segunda medida. Interromper o desmonte do programa CULTURA VIVA e dos Pontos de Cultura, retomando seus princípios e conceitos originais. Esta política pública, concebida originalmente no Brasil, é reconhecida e respeitada em todo mundo, com mais de uma centena de teses de doutorado e dissertações de mestrado defendidas em universidades no Brasil e no exterior, sendo que diversos países aplicam o CULTURA VIVA como política pública. O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que o programa ganhava respeitabilidade no exterior, ele foi sendo desmontado no Brasil. Até 2009, a rede contava com mais de 3.000 Pontos de Cultura do Brasil, chegando a beneficiar quase 9 milhões de pessoas, em 1.100 municípios; e tudo isto com um investimento estatal de apenas R$ 5 mil/mês por Ponto de Cultura, gerando 11 postos de trabalho (metade voluntários) e beneficiando diretamente 300 pessoas em atividades regulares (grupos de teatro, dança, coletivos de audiovisual, círculos de leitura, cultura digital, etc) e 3.000 em atividades esporádicas, segundo pesquisa do IPEA. Afora um conjunto de Ações em torno dos Pontos de Cultura (Cultura Digital, Cultura e Saúde, Economia Viva, Griôs e mestres da cultura tradicional, Pontinhos para a cultura lúdica e infantil, Pontos de Memória, Pontos de Leitura, Interações Estéticas, entre outras) e a realização das TEIAS dos Pontos de Cultura, permitindo que toda a diversidade brasileira se encontrasse em um mesmo espaço de encantamento, reflexão, trocas e organização. Como único ponto positivo nos últimos 4 anos, houve a aprovação da lei CULTURA VIVA em 2014, mas há que assegurar o seu cumprimento, permitindo que a prestação de contas seja simplificada (não mais por procedimentos burocráticos e sim por atingir os efetivos resultados culturais previstos previamente) e reajustando o valor repassado aos Pontos de Cultura (que está congelado desde 2004 em R$ 5 mil/mês). Com a retomada da CULTURA VIVA todo o campo da Identidade, Diversidade e Cidadania Cultural poderia ser atendido com um investimento anual global de R$ 500 milhões, valor que pode ser absorvido até mesmo nos marcos atuais no orçamento do MinC.

Terceira Medida. Efetivar o direito ao Vale Cultura. A aplicação da lei foi muito positiva, porém, passados dois anos, sua aplicação segue restrita (apenas 250 mil trabalhadores recebem o Vale Cultura, totalizando recursos anuais na ordem de R$ 150 milhões – apenas 10% do total aplicado na lei Rouanet). Além do mérito de incorporar o acesso a bens e expressões da Arte e da Cultura na cesta básica do trabalhador brasileiro, o Vale Cultura inverte a lógica de financiamento, que se dá não mais pelo patrocínio de poucas empresas, mas pelo consumo pulverizado das pessoas. Com acesso mais distribuído aos recursos, será possível perenizar companhias artísticas em cidades de médio e pequeno porte, em bairros de periferia, bem como a abertura e manutenção de equipamentos culturais como teatros, cinemas, escolas de arte. Mas para que o Vale Cultura seja amplificado é preciso uma ação coordenada entre governo/empresas/trabalhadores. Outra iniciativa fundamental é estender o direito ao Vale Cultura (atualmente previsto apenas para trabalhadores da iniciativa privada, com até 5 salários mínimos) para os 2 milhões de professores da Rede Pública de Ensino, o que trará grande efeito multiplicador nas salas de aula.

Apenas retomar políticas não basta, há que avançar e inovar. Novas Políticas, Programas e Ações.

Primeiro. Transferir o combate ao analfabetismo do Ministério da Educação para o Ministério da Cultura. Entre todas as políticas sociais, o combate ao analfabetismo talvez tenha sido aquela em que os governos brasileiros mais fracassaram. Não é possível admitir que, na segunda década do século XXI, o Brasil continue com 14 milhões de pessoas adultas sem condições de ler, escrever ou interpretar um texto, o que equivale a 8,7% da população com mais de 15 anos. Exceto o Paraguai, este é o maior índice de analfabetismo na América do Sul. O analfabetismo tem que ser encarado como fato cultural e sua redução expressiva só vai acontecer se for através da Cultura, retomando os princípios norteadores da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, desenvolvido exatamente a partir da Cultura, com o Movimento de Cultura Popular (MCP) e os Círculos de Cultura (uma das Inspirações para os Pontos de Cultura). Para além de beneficiar milhões de pessoas com a alfabetização, uma ampla política pública em torno desta questão, trará benefícios para toda a sociedade ao colocar a Educação e a Cultura como os principais valores de nosso país, a serem defendidos em um grande movimento social. Esta é a questão. Se tratarmos o combate ao analfabetismo a partir da Cultura será possível reduzir o índice de 8,7% para 2% em 4 anos de governo (talvez menos tempo) e com o mesmo aporte orçamentário. Para os próximos quatro anos esta deveria ser a meta mais nobre: transformar o Brasil em território livre do analfabetismo.

Segundo. Agentes de Cultura Cidadã. Se Cultura é cultivo das pessoas, por que não cultivar nossas virtudes em exercícios de Cultura Cidadã? O mundo considera absolutamente natural que jovens recrutas dediquem um ano de sua vida para a formação militar, para a guerra. Por que não dedicarmos igual período para a paz? Para trabalhos comunitários e relações de afeto e encantamento com o “outro”, para conhecer o que é diferente, para criar. Esta é a ideia, formar jovens entre 16 e 24 anos em processos criativos, trabalhando em comunitárias de cultura, educação ambiental, recreação e lazer. Durante um ano estes jovens teriam tempo para formação e outro para trabalhos comunitários (total de 25 horas semanais), atuando como monitores em Escolas abertas aos finais de Semana, em Pontos de Cultura, Museus, Centros Culturais, Parques, Ruas de Lazer, Estúdios de Cultura Digital… E para enriquecer ainda mais a experiência, neste programa também estariam inseridos os Griôs e mestres da Cultura Popular, além de desempregados de longa duração, com mais de 50 anos (e com dificuldades para serem reinseridos no mercado de trabalho, mas com muita experiência de vida) e aposentados, que também poderiam trabalhar como Agentes de Cultura Cidadã, junto com os jovens, desempenhando funções como agentes de leitura, brinquedeiros, contadores de histórias, monitores em museus e tudo mais que possa ser pensado e criado pela cultura (e a cultura tudo pode). Os jovens receberiam uma bolsa em torno de 60% do salário mínimo e os mais velhos, um salário mínimo. Uma meta de 500 mil por ano é bastante factível e o retorno para o país, em termos de convivência cidadã, pacificação e formação cultural seria fantástico, mudando a mentalidade de um povo em poucos anos de efetivo exercício de Cultura Cidadã.

Terceiro. Melhorar Equipamentos Culturais que já existem e construir novos a partir da recuperação de edifícios históricos ou com construções inovadoras e comunitárias. A proposta é inverter a prioridade que se dá hoje aos chamados CEUs das Artes (antes, Praças do PAC), centrinhos culturais acanhados, com pouca possibilidade de uso artístico (há 3 modelos de auditórios, com capacidade entre 48 e 120 pessoas, pé direito baixo e sem a menor condição para abrigar um boa obra de arte, apenas reforçando preconceitos em relação à produção artística dos mais pobres). O atual projeto dos CEUs das Artes é caro (entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões por unidade) e com pouco efeito prático, sendo que praticamente nenhum foi inaugurado até o momento. Enquanto isso, há diversos teatros e equipamentos culturais espalhados pelo país, praticamente sem uso, que poderiam muito bem ser remodelados e incrementados e com um aporte de recursos bem menor, além da possibilidade de construções novas, feitas com inventividade local, com custo muito menor, conforme vi em diversos Pontos de Cultura, incluindo em assentamentos rurais (teatros e espaços culturais muito bem modelados, bonitos e aconchegantes a um custo entre R$ 80 mil e R$ 200 mil). Uma boa gestão da Cultura deveria concluir aqueles projetos já contratados e redirecionar os recursos (são algumas centenas de milhões por ano) para um ganho de escala muito maior em termos de constituição de uma efetiva infraestrutura para a Cultura, permitindo a realização de circuitos culturais e a democratização aos meios de formação, produção e difusão cultural e artística.

Quarto. Comunicação é Cultura, a TV Brasil e emissoras públicas de rádio deveriam passar para o âmbito do MinC. Após mais de seis anos de constituição, a TV Brasil ainda não consolidou nem programação televisiva de referência, nem audiência nem abrangência de cobertura de sinal. Mais que isto, a TV Pública (e as rádios) deveria estar articulando toda a pulsação cultural do povo brasileiro, promovendo festivais de música, experimentação dramatúrgica, filmes em coprodução, principalmente documentários, difundidos em larga escala (muito além do bem sucedido DocTV). Na Europa, as TVs Públicas tem papel vital, contam com grande audiência, respeitabilidade; boa parte da produção cinematográfica dos países europeus é realizada em conjunto com estas emissoras (praticamente 60% dos filmes produzidos no Brasil sequer alcançam as telas de cinema). No Brasil também pode e deve ser assim. Uma meta modesta a conquistar: 5% da audiência televisiva em 4 anos. Além dos Pontos de Mídia Livre (conforme experiência realizada pelo programa CULTURA VIVA e interrompida nos últimos 4 anos), ampliando as possibilidades de uma comunicação democrática e diversa e que poderiam atuar em conjunto com a TV Pública.

Quinto. Educação é Cultura, Cultura é Educação. No final do século XX, o professor Milton Santos já alertava para os perigos de uma educação reducionista e instrumental, no que poderia gerar Deficientes Cívicos. E gerou. Educação é um meio de transmissão de Cultura, é a estrutura no qual o fluxo (a Cultura) perpassa. Se a Educação é o corpo, a Cultura é a alma. E quando estas se distanciam, ambas se empobrecem. Um corpo sem alma, uma alma sem corpo. Reaproximar alma e corpo é o grande desafio para a construção de políticas públicas educacionais e culturais com sentido transformador. Houve iniciativas nos últimos 4 anos, o Mais Cultura nas Escolas e a volta do Ensino de Música; mas ainda é pouco, pois a escala e meios são bastante reduzidos (o Mais Cultura nas Escolas prevê uma transferência anual de R$ 10 mil para atividades culturais em escolas com centenas, ou até milhares de alunos; e poucas escolas efetivaram o Ensino de Música). Cabe uma virada completa, tomar museus com centenas (milhares!) de crianças e jovens em visitas educativas, idas a teatros, bibliotecas, centros culturais, atividades em Pontos de Cultura e estúdios multimídia, grupos de teatro estudantil, de dança, de música, Festivais de Arte, rodas de leitura, circo! A Venezuela é hoje o maior celeiro de músicos eruditos do mundo, são mil orquestras para 300 mil jovens. No Brasil também poderia ser assim. Cultura é mil, uma boa meta para começar, mil orquestras jovens, mil circo-escola, mil corpos de dança, mil festivais… Há estrutura instalada, há criatividade e gente disposta; há, inclusive, referências no passado, como os Parques Infantis de Mário de Andrade, a ideia da Escola-Parque de Anísio Teixeira, os Coros de Villa-Lobos, os festivais de teatro do estudante de Pascoal Carlos Magno. É só começar.

Sexto. Museu do Povo Brasileiro. Um Museu estilhaçado, distribuído por todo país, coletando nossa memória, referências, identidades, diversidade. Um Museu em processo, feito por especialistas e por toda gente, por todo povo. Um esforço coletivo para conhecer o Brasil, interpretar o Brasil, inventar o Brasil. Resgatando desde as nossas memórias imemoriais, nosso passado mais profundo, nossas mesclas, misturas, a gente de todo canto que chegou para esta terra, o Brasil dos Viajantes, os esforços em entender o Brasil a partir do pensamento, de nossos músicos, poetas, escritores e artistas, o olhar do povo. Um Museu Nacional (há um terreno na esplanada dos ministérios, ao lado do teatro nacional, que seria perfeito para a sede central de um Museu parecido com o Museu de Antropologia do México), articulado com Museus Estaduais e Municipais, com Pontos de Memória em escolas e comunidades; com acervo físico e virtual, exposições permanentes e temporárias, circulando pelo país adentro (e afora). A realização do sonho de Darcy Ribeiro, um Museu do Povo, um povo que precisa urgentemente se reconhecer e se reencontrar consigo mesmo.

Por último (e que deve estar presente em todas as ações). Arte. É inegável que o Ministério da Cultura sob o governo Lula avançou muito na abrangência do conceito de cultura, incorporando as dimensões simbólica, cidadã e econômica, também é fato que foram dados efetivos passos na formulação e implementação de políticas públicas nos campos da Identidade, Diversidade e Cidadania Cultural. Paradoxalmente, porém, faltou avançar no mais importante (exatamente porque deve se articular com todas as demais dimensões da cultura), a Arte, a nossa habilidade intrínseca em reconhecer a realidade e transforma-la ao infinito. Só com a Arte é possível transpor realidades, “sonhar sonhos impossíveis” (e realiza-los), abstrair para além das estrelas (e voar, “mesmo com as asas quebradas”); experimentar sensações e sentimentos que talvez nunca tivéssemos condições de conhecer no tempo de uma vida, sentir o “outro”, sentir com o “outro”, vivenciar a alteridade, enfim. Estou convencido de que sem um amplo exercício e prática da alteridade nossa civilização caminhará para a barbárie. Daí a importância da Arte, pois sem Arte não há alteridade. As políticas da FUNARTE, convenhamos, são de dimensão acanhada, os editais, de alcance reduzido, a própria formulação de políticas para Artes, pois ainda há muito por fazer e pensar. Tanto que nem dá para relacionar neste parágrafo. Algumas pistas: Ateliers e Estúdios coordenados por artistas profissionais e instalados em comunidades, pequenos municípios e periferias (a exemplo do JAMAC – Jardim Miriam Arte Clube, com Mônica Nador), promovendo encontros entre mundos; um amplo programa de trocas, residências artísticas e circulação (a exemplo do ART FEDERAL, programa para circulação de artistas durante a depressão americana, sob o governo Roosevelt – vale assistir ao filme “O Poder vai dançar” para ter uma ideia); programas para orquestras e corpos artísticos estáveis, manutenção de teatro de grupo; aquisição e registro de obras de arte; livros a serem distribuídos à mão cheia; Festivais, como aqueles que nos revelaram Chico, Caetano, Gil, Elis… (quais serão os jovens talentos que nossa geração vai revelar para o futuro?) Arte, em toda parte e para toda gente.

Aqui termino. São reflexões e sugestões oferecidas ao meu país e ao povo que tanto amo. Estão em formato livre, como um software livre, quem quiser que as tome, execute, modifique, faça remix, ou guarde para pensar depois. Foram pensadas para aplicação em nível nacional, mas também podem ser adaptadas em estados e municípios. Basta querer. E também compreender o tempo em que vivemos, mas compreender a partir de uma escuta sensível e profunda, pois nos tempos de hoje, isto se faz cada vez mais necessário, antes que olhemos cada vez mais para o abismo até nos transformarmos no abismo. Não sei se haverá tempo, espero que sim. Por isso escrevi.



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