Precisamos falar sobre aborto

Há alguns meses, recebi um e-mail muito marcante. Com 38 anos, casada e mãe de dois filhos, Márcia* (como vou chamá-la aqui) me contava de forma atropelada a experiência traumatizante que estava vivendo. Segundo...

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Há alguns meses, recebi um e-mail muito marcante. Com 38 anos, casada e mãe de dois filhos, Márcia* (como vou chamá-la aqui) me contava de forma atropelada a experiência traumatizante que estava vivendo. Segundo ela, sua intenção era apenas de desabafar, pois compreendia que nada mais poderia ser feito.

Márcia vivia em uma situação bastante complicada; somente ela trabalhava para sustentar a família, já que o marido estava desempregado. Por causa do desemprego, o marido de Márcia passou a beber com mais frequência e chegar embriagado em casa, onde muitas vezes agia com violência. Márcia às vezes conseguia se trancar no banheiro até que o marido caísse no sono, mas temia pela segurança das crianças e já planejava o divórcio. Esse terror continuou por cerca de dois meses e Márcia recebia o apoio da família para se divorciar de vez – mas infelizmente não deu tempo. Numa noite, o marido chegou bêbado em casa e atingiu Márcia na cabeça com uma garrafa de vidro; Márcia ficou tonta, ainda recebeu murros na cabeça e chutes na barriga e nas costas. Acordou algumas horas depois com dores vaginais e percebeu que tinha sido estuprada.

No mesmo dia, Márcia fugiu com os filhos para a casa da mãe. Apesar de ter se esforçado para se manter afastada do ex-marido, algumas semanas depois descobriu que estava grávida. Desesperada, acabou recorrendo a um chá conhecido por ser abortivo. Sua mãe a apoiou e preparou o chá, mas apesar de Márcia ter sentido dores e sangramento, a interrupção da gravidez não se concretizou.

Márcia não quis ir até um hospital com medo de ser presa e conta que pensou em ir a uma delegacia para registrar o estupro, mas na ocasião pensou que não seria levada a sério. “Apanhei por quase dois meses sem procurar ajuda da polícia, não tinha coragem para denunciar e ouvia o tempo inteiro da família dele que nenhum delegado me levaria a sério. Com o estupro não foi diferente, achei que ninguém ia acreditar. Não se escuta falar de maridos que estupram as esposas. Mas depois disso que me aconteceu, acho que essas casos são muito mais comuns do que a gente pensa”, disse em um trecho do e-mail.

Respondi à Márcia explicando o que a legislação diz sobre aborto em casos de estupro e me ofereci para levantar informações sobre a cidade onde Márcia morava, pois ainda é extremamente difícil encontrar um hospital que realize a interrupção da gravidez – mesmo nos casos já legalizados, como era o caso de Márcia. Depois de muitas dificuldades, Márcia encontrou o apoio de um coletivo feminista de sua região, mas por causa da pressão sofrida pelos familiares do ex-marido, acabou desistindo de lutar pelo aborto que era seu direito.

Depois de contar um resumo da vivência sofrida por uma leitora, gostaria de chamar atenção para o enorme problema social evidenciado pela história de Márcia: trata-se do caso de uma mulher violentada e estuprada, que desconhecia seus direitos e temia até mesmo recorrer àqueles que deveriam ser responsáveis por sua proteção. Mesmo com o apoio de sua família, sofreu situações horríveis e foi coagida, até que mudou de planos. Se Márcia decidiu manter a gravidez porque realmente desejou, isso somente ela é capaz de afirmar e saber – e embora estivesse também no seu direito optar por ter um filho, devemos olhar com empatia para tudo o que passou. Márcia era uma mulher madura e já tinha dois filhos quando tentou abortar. Sua mãe, uma senhora de mais de 60 anos, católica praticante, foi a pessoa que preparou o chá abortivo. Só não vê quem não quer: o aborto não carrega estereótipos.

As mulheres buscam fazer o aborto em momentos de desespero, dúvida e insegurança; procuram o procedimento quando não podem assegurar uma vida confortável para uma criança ou quando concluem que um filho, naquele momento, não seria uma boa ideia. Nos países em que podem escolher livremente se serão mães ou não, a decisão é amparada e há suporte para que optem de acordo com o que realmente podem e querem fazer. Nos países em que o aborto é crime, como no Brasil, aquelas que fazem o aborto clandestino estão, acima de tudo, desesperadas. Mesmo sabendo dos riscos de morte, das dores insuportáveis e da chance de serem presas, as mulheres brasileiras ainda assim abortam. Usam alvejantes, chás, objetos pontiagudos e cortantes, ou pagam “clínicas” clandestinas que as despejam em valas quando algo dá errado. Reduzidas ao útero que possuem, as mulheres brasileiras não são donas dos seus corpos e de suas vidas.

É por isso que precisamos avançar nesse debate e nessa legislação. A sociedade brasileira precisa debater a questão do aborto, pautando a discussão em evidências e fatos científicos, sob a ótica das políticas públicas e sabendo que o aborto é uma demanda de saúde pública. Além disso, já passou da hora de compreendermos que cada mulher é soberana sobre seu corpo e cabe somente a ela as decisões relativas ao seu sistema reprodutivo. Com o aborto legalizado e regulamentado, a gravidez indesejada pode ser interrompida dentro dos limites estabelecidos, respeitando o tempo ideal para que aconteça com limpeza e segurança. É possível legalizar o aborto no Brasil com ética e responsabilidade social. Mas, para isso, precisamos falar sobre o aborto.

Se você não tem muita familiaridade com o assunto, deixo abaixo uma lista de textos publicados aqui no Questão de Gênero sobre o tema:

Aborto em ano de eleições, debater para desmistificar

Aborto e machismo no mercado de trabalho

Site reúne depoimentos de mulheres que fizeram abortos

No Brasil, o aborto é crime com pena de morte

Aborto legal e seguro é responsabilidade do Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde se acovarda e as mulheres sentem no útero

93% dos leitores da Fórum querem a descriminalização do aborto

Quatro jovens mulheres afirmam: “Eu faria um aborto!”

 
E se você também acha que o aborto precisa ser debatido com seriedade, ainda dá tempo de manifestar essa opinião demonstrando seu apoio aqui: https://www12.senado.gov.br/ecidadania/visualizacaoideia?id=29984 – basta “assinar” com seu nome completo e e-mail e confirmar seu suporte clicando no link que será enviado para sua caixa de entrada.

E então, vamos falar sobre aborto?

* O nome verdadeiro da leitora foi trocado para preservar sua privacidade. Este texto foi publicado com a sua explícita autorização.

Foto de capa: Reprodução / Facebook



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