Girls Rock Camp: lugar de menina tocar rock, bebê!

Imagine uma semana inteira dedicada a reunir garotas, ensiná-las a tocar instrumentos musicais, compor músicas de rock e, por fim, culminar com uma apresentação de várias bandas formadas só por meninas. Gostou da ideia?...

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Imagine uma semana inteira dedicada a reunir garotas, ensiná-las a tocar instrumentos musicais, compor músicas de rock e, por fim, culminar com uma apresentação de várias bandas formadas só por meninas. Gostou da ideia? Pois saiba que isso é uma realidade. O “Girls Rock Camp”, como é chamado, acontece aqui no Brasil como parte de uma fantástica iniciativa com o objetivo de empoderar garotas, romper estereótipos e solidificar autoestimas confiantes nas meninas.

Neste ano, as organizadoras do projeto resolveram montar uma campanha no Cartase para arrecadar dinheiro e comprar seus próprios materiais, como instrumentos musicais e microfones. Como grande fã do projeto, eu não poderia deixar de apoiá-las e pedir a colaboração das leitoras e leitores da Fórum. Por isso, convidei duas das incríveis mulheres responsáveis pelo desenrolar do Girls Rock Camp para uma entrevista. Confira abaixo as falas de Flavia Biggs, diretora de projetos e desenvolvimento, e Geisa Grança, diretora operacial e coordenadora de voluntariado desse projeto maravilhoso! Leia na íntegra:

– Como surgiu a ideia do Girls Rock Camp e a iniciativa de trazê-lo para o Brasil?

Flavia Biggs – O projeto nasceu há mais de 10 anos em Portland, nos EUA. O Girls Rock Camp começou com uma estudante de “Women’s studies”, Misty McElroy da PSU – Portland, OR/EUA, em 2001. A ideia era criar um programa que usasse a educação musical pra promover a autoestima e desenvolver habilidades para a vida, um lugar para meninas aprenderem, explorarem e criarem música num ambiente encorajador e inspirador. Sobre a iniciativa de trazer pro Brasil, foi um longo percurso; em 2003 fui em turnê com minha banda para lá e tive a oportunidade de conhecer de perto. Me apaixonei! Pensei: Que coisa maravilhosa! Em 2005, tive a oportunidade de participar como voluntária pela primeira vez como instrutora no “Rock’n’roll Camp For Girls” em Portland. Ao voltar para o Brasil, queria fazer algo do gênero por aqui, mas dentro das possibilidades na época parecia um passo muito grande.

Pensei, então, em um projeto que se assemelhasse à proposta dos Girls Rock Camp, que é empoderar meninas através da música, empoderar no sentido do “poder fazer”, ou seja, fortalecimento de autoestima, formação de laços de solidariedade, desenvolvimento de potenciais. Surgiu aí o “Oficina de Guitarra para Meninas”, atividade que venho desenvolvendo há 7 anos! Esse foi o embrião do Girls Rock Camp.

Em março de 2012, organizava uma mostra de arte e música feminina em Sorocaba, com vários workshops de mulheres para mulheres, muito rico e com várias apresentações de bandas com mulheres. Concomitante a isso, rolava em São Paulo um festival chamado “Emancipar Fest” e me convidaram para fazer a oficina de guitarra para meninas, no mesmo também rolavam oficinas de bateria e baixo… Aí pensei: “É isso! Tá na hora! Demorô!”. Fiz um chamamento em redes sociais a todas as mulheres que conhecia envolvidas com música e movimento sociais de mulheres. E houve uma aceitação gigante! Fiz contato com o “Girls Rock Camp Alliance”, entidade que articula todos os “Girls Rock Camps” ao redor do mundo, comuniquei nossa intenção de fazer o primeiro Girls Rock Camp da América Latina, e fomos super apoiadas! Estamos indo agora para a 3ª Edição!

– O Girls Rock Camp tem o objetivo de ensinar valores feministas para as garotas participantes? Qual é a recepção dos pais das garotas em relação a questões como o Feminismo?

Flavia Biggs – A missão do camp é promover a autoestima, fortalecer laços de solidariedade entre meninas e estimular o protagonismo infanto-juvenil feminino e o empoderamento de meninas utilizando como ferramenta a música. Trabalhamos com meninas com idades entre 7 e 17 anos, o Feminismo está implícito nas atividades, por ser um projeto que valoriza e empodera as mulheres. Não utilizamos nenhum tipo de panfletagem política, mas está lá e os pais sabem. Somos todas instrutoras mulheres que compartilhamos nossos talentos e saberes com essas meninas. Valorizando o ser e fazer das mulheres na música e na vida, os pais que nos procuram querem exatamente essa força.

Geisa França – Em uma semana elas formam uma banda, aprendem um instrumento, criam uma música, um nome e uma identidade pra banda e no sexto dia sobem no palco e se apresentam pra toda a comunidade! A experiência traz esse sentimento de que elas são capazes de ser e fazer tudo o que realmente gostarem e quiserem, basta querer e fazer! E, muito mais, aprendem que podem fazer isso de forma colaborativa com todas as outras mulheres, criando laços de solidariedade. A recepção dos pais é maravilhosa! O que mais recebemos de “feedback” foi o quanto as meninas saem da experiência mais alegres, confiantes, comunicativas e criativas.

– Qual é a importância de um projeto como esse? Vocês conseguem observar resultados e mudanças no comportamento e na autoestima das garotas?

Flavia Biggs – Sim, definitivamente. É visível a transformação que acontece tanto com as meninas quanto com as voluntárias. Recebemos depoimentos o tempo todo, de pais sobre como a experiência fez as meninas melhorarem na escola, fazerem amizades e das voluntárias no sentido de tomarem coragem e acreditarem em si mesmas, na sua força, se livrarem de relacionamentos abusivos, trocarem de carreira profissional, entre outras coisas, o que torna nosso trabalho muito gratificante!

Geisa França – A importância de projetos como esse são gigantescas, pois colocam nas mãos de cada uma das meninas a possibilidade de criarem um mundo mais inclusivo e colaborativo, com suas amigas e companheiras mulheres e seus amigos e companheiros homens. Observamos, cada vez mais felizes, como uma única semana pode ter resultados tão grandes na vida das meninas, nas nossas e nas famílias – entender na prática que é possível realizar uma vontade tem efeitos maravilhosos na autoestima com certeza!

– Para quem ainda não conhece bem o projeto, por que contribuir com a iniciativa?

Flavia Biggs – Para quem não conhece, eu convido a conhecer e a se envolver com este projeto que tem tocado tantas vidas, meninas que estão começando a vida e que futuramente, e até mesmo agora, vão transformando suas comunidades e a sociedade num lugar mais justo e solidário para se viver. Somos uma organização comunitária sem fins lucrativos, não temos financiamento público ou privado de grandes empresas, contamos com trabalho voluntário e doações. Cultivamos um ambiente colaborativo de apoio positivo com a comunidade, objetivando incentivar mudanças sociais e desenvolvimento de potencialidades pela promoção da igualdade de gênero e do desenvolvimento humano.

Geisa França – Acredito que todos e todas que trabalham e acreditam num mundo mais solidário, divertido, criativo e justo apoiam iniciativas que trazem esses elementos, que alimentam e provocam isso. Então, vão se apaixonar por este projeto!

E não esqueça de contribuir, você ainda ganha recompensas pela doação feita: http://www.catarse.me/pt/rockcamp

Foto de capa: Divulgação



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