Quem é o dono da “piscina nazista”?

O professor, proprietário da piscina que virou notícia no mundo, também batizou o filho de Adolf, exaltou os militares da "contrarevolução" de 1964, chegou a afirmar que os negros eram coitados - pois ficaram “desempregados” com o fim da escravidão - e chorou, ao...

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O professor, proprietário da piscina que virou notícia no mundo, também batizou o filho de Adolf, exaltou os militares da “contrarrevolução” de 1964, chegou a afirmar que os negros eram coitados – pois ficaram “desempregados” com o fim da escravidão – e chorou, ao receber a saudação nazista em uma festa de formatura de seus alunos

Por Vinicius Gomes

Em entrevista, no dia 31 de março, Wander Pugliese rejeitou golpe militar: "foi uma contrarevolução" (Reprodução)
Em entrevista, no dia 31 de março desse ano, Wander Pugliese rejeitou o golpe militar de 1964: “foi uma contrarrevolução” (Reprodução)

Na semana passada, durante uma ação da Polícia Civil de Santa Catarina, descobriu-se uma “homenagem” ao nazismo: uma suástica estampava o fundo de uma piscina. Em pouco tempo, a fotografia com a imagem da piscina chegou aos jornais e às redes sociais. Mas, se em grande parte do país, assim como no exterior (EUA, Reino Unido, Israel), a revelação foi chocante, isso pouco surpreendeu as pessoas que já conheciam Wandecyr Antônio Pugliese. O professor de história é o proprietário da residência localizada na cidade de Pomerode, no interior de Santa Catarina, e admirador confesso da ideologia nazista.

Vinte anos atrás, Pugliese já havia sido notícia pelo Brasil, quando em uma reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, em fevereiro de 1994, ele mostrou sua coleção de objetos históricos relacionados ao nazismo. Entre o material – que seria confiscado anos depois a pedido do Ministério Público Federal – estavam livros, quadros, revistas, fotografias, cartões postais, gravuras do exército alemão, objetos com a cruz suástica, além de uma camiseta estampada com a figura de Adolf Hitler. Por volta dessa época, ele foi ligado a outra denúncia de propagação de ideias racistas por conta de um revisionista do holocausto chamado Siegfried Ellwanger Castan, o qual tem em Pugliese um dos seus maiores admiradores – tanto que é a principal indicação bibliográfica do professor a seus alunos.

Em matéria para o Zero Hora, a jornalista Clara Glock entrevistou Pugliese, que previu que, em 15 anos, levantariam uma estátua para Hitler na Europa e afirmou que os negros eram coitados, pois “ficaram desempregados no dia 13 de maio”, referindo-se à data em 1888, quando foi assinada a Lei Áurea.

Outro ponto polêmico de Pugliese, também conhecido por seus alunos, é o que se refere aos militares da ditadura brasileira. Em 31 de março desse ano, nos 50 anos do golpe militar, ele afirmou na Rádio Nereu Ramos, de Blumenau, que os eventos de 1964 não foram de golpe e, sim, “uma contrarrevolução” (ouça aqui). A reportagem de Fórum buscou entrar em contato com o professor, mas sem sucesso.

Quem é o professor Wander?

Revisionista do holocausto, admirador de Hitler, militares brasileiros e do falecido Enéas Carneiro, Wandercy Antônio Pugliese há anos é professor na rede privada de educação do estado de Santa Catarina e a descoberta da suástica em sua piscina de nada surpreendeu aqueles que foram seus alunos.

“A fama dele é relativamente grande na cidade de Blumenau. Principalmente pelo fato de ele ter lecionado no [Colégio] Energia durante anos. O discurso dele fez a sua fama”, afirma Ricardo Duwe, que, apesar de não ter sido aluno de “Wander”, como é chamado, teve irmão e amigos próximos que foram.  “A postura dele sempre foi muito combativa, principalmente por ele se colocar enquanto um revisionista do holocausto”, destaca.

Outros ex-alunos de Pugliese também se lembram desse posicionamento. “A atuação dele era, sobretudo, para a gente questionar a existência do holocausto. Ficava lá falando das pensões que os judeus recebem, chamando isso tudo de ‘indústria do holocausto’, e nunca em um sentido pedagógico, sempre atravessado por ódio. Era impressionante”, relembra Fabiano Garcia, que teve aula com Pugliese em 2005, no Colégio Santa Rosa de Lima, na cidade de Lages, também interior de Santa Catarina.

Larissa Beppler, que foi aluna dele no Energia de Blumenau,  em 2002, lembra que, em sala de aula, Pugliese contestava o holocausto e dizia que a história do nazismo era mentirosa, pois Hitler “não era o monstro que pintavam e que ele fez muito pelo seu povo”.

Segundo Duwe, o professor citava constantemente essa vertente historiográfica que buscava “revisitar” o holocausto. “[O professor] negava veementemente que seis milhões de judeus tenham morrido na guerra, que as câmaras de gás possuíam outras finalidades e que, em casos extremamente raros, eram usadas para extermínio”, relembra Duwe. Ele cita ainda uma frase clássica de Pugliese: “A História é contada sempre pelos vencedores”, já que o professor atribuía a história da Segunda Guerra Mundial aos EUA e aos “judeus banqueiros”, sendo que a versão dos nazistas nunca havia sido privilegiada.

Matéria de 1995 da jornalista Clara Glock, pelo Zero Hora, do Rio Grande da Sul (Reprodução)
Matéria de 1995 da jornalista Clara Glock, pelo Zero Hora, do Rio Grande da Sul (Reprodução)

Beppler afirma que o professor era bastante querido por seus alunos, todos o adoravam, e como ela não chegou a encarar o discurso de Pugliese como apologia ao nazismo – nem mesmo quando ele próprio contou que seu filho se chamava Adolf, ou quando teve problemas com a justiça por conta dos objetos nazistas: “Na minha cabeça de 17 anos, o que ele fazia não era apologia. Tudo que ele dizia era muito bem argumentado, ele buscava fatos para justificar, sabe? Eu nem sonhava que ele poderia estar errado. Na minha cabeça da época, e minha colega tem hoje a mesma impressão, era uma coisa dele, um gosto pessoal. Não era apologia”.

Garcia conta que, à época, se impressionou com a facilidade que o professor tinha em elogiar o nacional socialismo alemão: “E então um dia, ao fundo da sala, numa roda, eu perguntei se ele realmente acreditava naquilo, se ele era adepto [ao nazismo], e ele respondeu que sim”.

O ex-aluno conta que, ao final do ano, ele e um colega foram à diretoria para questionar a negação ao holocausto, mas então Pugliese apareceu logo em seguida. A diretora recomendou aos alunos que conversassem com o professor, que, por sua vez, usou o material didático – com fotos e tudo mais – para dizer que eram “montagens” e que não podiam ser acreditadas.

Questionado sobre o quanto enxergava que esse discurso poderia influenciar alunos adolescentes, Garcia afirma que ele pode ser impactante: “[O discurso] tem uma força incrível porque a retórica do professor era muito boa. Era realmente convincente porque, afinal, era algo que ele acreditava. Então, se você para e pensa numa turma com jovens naquela faixa etária – onde o que você mais quer é se revoltar contra alguma coisa, contra o sistema, por exemplo – esse discurso encaixa de uma maneira terrível porque propaga o ódio e te dá a falsa sensação de solucionar alguma coisa. E, então, muita gente que passou pelas aulas dele começou a acreditar que os problemas do mundo estavam ligados aos judeus, aos negros etc.”, argumenta.

Para Beppler, a fala de Pugliese era, de fato, perigosa. “Por mais sutil que seja – porque ele não sai falando: amem Hitler, matem negros, sejam racistas, nem nada disso –, ele apenas alivia a barra de Hitler. Hoje, eu entendo como apologia, sim, mas é algo bem sutil para um adolescente se dar conta. Especialmente vindo de um cara que todos adoram”, conta.

No entanto, Beppler, hoje empresária e com 29 anos, tem uma lembrança amarga sobre esse período: “Na noite da minha formatura, a turma inteira se levantou para saudá-lo com um gesto nazista. Sim, fizemos o Heil Hitler. Morro de vergonha só de lembrar. Mas não porque éramos nazistas e, sim, para homenageá-lo. Como ele relativizou muito a questão do nazismo e de Hitler, nós não percebíamos a gravidade daquele gesto. A ideia era se despedir com algo que o agradasse. Ele até chorou”.



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11 comments

  1. Rennan Vasselai Responder

    Fui aluno do Wander no colegio Energia de Balneario Camboriu, onde sempre combati os discursos pro nazismo dele. Na epoca fui reclamar com a diretora do colegio porem a mesma me disse que nao poderia fazer nada devido ao fato que ele alem de ser professor, tambem era um dos socios de algumas unidades da rede em outras cidades do estado.

    A saudacao nazista sempre foi acolhida por diversos alunos, ano atras ano, em cada formatura, pois de fato ele consegue ter argumentos fortes contra jovens de 15 a 17 anos.

    As aulas de historia dele sempre eram detupartadas em varios assuntos, nao somente sobre o nazismo e o mesmo nunca utilizava nenhum livro na sala de aula durante suas clases.

    Ele tem direito de defender qualquer ideal, mas nao aceito o fato de uma rede de ensino aceitar contratar tal tipo de docente.

  2. jean diniz Responder

    Lugar mais propício à disseminação não há neste país. Visitei Pomerode recentemente e observei que a cultura alemã é intensa, com todas as suas qualidades e mazelas…talvez esse professor precisa-se conhecer campos de concentração e conscientizar se do numero de mortos decorrentes da guerra provocada pelo deus que tanto adora.

  3. John J. Responder

    Esse elemento e o tal Bolsonaro deveriam se abraçar e se afogarem na piscina nazista. LIXO DA HUMANIDADE.

  4. DROPE Responder

    Realmente o Nazismo e a sua Solução Final não foram nada engraçado. Mas e a Foice / Martelo dos Comunistas (maiores assassinos da história com mais de 125 milhões de assassinatos), que vemos em várias camisetas dos barbudinhos desmiolados do Brasil? Para a implantação de sua DITADURA mataram mais de 7 milhões de pessoas DE FOME só na Ilguslávia. Procurem por HOLODOMOR e verão. Mais mortes que todos os campos de concentração nazistas em um único país! Não devia ser proibida tbm?

    1. Barbudinho Mudo Responder

      Infelizmente ninguem irá responder seu post. Os barbudinhos desmiolados do Brasil, pseudo cientistas politicos, só cagam no tabuleiro e saem voando.

    2. João Novaes Responder

      Drope, há uma clara diferença aí. Ninguém que eu conheça que se diga de esquerda, ou progressista, socialista, ou comunista (e todos são coisas diferentes) apoia os crimes contra a humanidade realizados por esses governos autoritários. Mas não fique por aí. Os regimes capitalistas cometem milhões de assassinatos todos os dias e nem por isso deveriam ser censurados.A diferença é que nem comunismo nem capitalismo tem em seu cerne uma orientação política que preveja o extermínio de outros povos. As várias vertentes do comunismo são essencialmente econômicas e preveem sistemas com menos injustiça social e melhoria de vida a todos. O capitalismo, ao seu modo, prevê que você possa prosperar. Ninguém prevê extermínio de ninguém. Já esse princípio é inerente ao nazismo.

      1. DROPE Responder

        Caro João, digo do Comunismo da URSS cujo regime soviético de Lenin/Stalin exterminou e/ou ASSASSINOU SÓ NA UCRÂNIA MAIS DE 7 MILHÕES e é denominada HOLODOMOR (que quer dizer de forma rápida “matar através de fome e privações”). Pesquise sobre o tema e verá que é o que os nazistas fizeram no Gueto de Varsóvia, mas imposto em uma nação inteira. Claro, esse é apenas um dos extermínios feitos pelos comunistas da Foice e Martelo que, pelos cálculos dos estudiosos desta área, chegam a 25.000.000 de pessoas.
        Dos chineses, cujo líder um assassino sanguinário da estrela amarela de nome Mao Tse-tung, estimasse 75.000.000 DE ASSASSINATOS entre os contrários ao regime. Hoje é a maior fábrica de escravos do mundo, com “colaboradores” pagos com R$ 0,35 por dia de trabalho.
        E até dos “pequenos” como o Comunismo Cubano. Matou alguns milhares, entre eles 10.000 dentro do campo de futebol de Havana no “paredon”, supervisionado pelo não menos assassino Che, que inclusive fez discurso na UNO dizendo que mataria mais. Até hoje, mais de 50 anos depois da “revolução”, mantém seu povo preso a ilha e presos políticos na cadeia.

        São desta laia que eu falo!

    3. João Novaes Responder

      Drope, há uma clara diferença aí. Ninguém que eu conheça que se diga de esquerda, ou progressista, socialista, ou comunista (e todos são coisas diferentes) apoia os crimes contra a humanidade realizados por esses governos autoritários. Mas não fique por aí. Os regimes capitalistas cometem milhões de assassinatos todos os dias e nem por isso deveriam ser censurados.A diferença é que nem comunismo nem capitalismo tem em seu cerne uma orientação política que preveja o extermínio de outros povos. As várias vertentes do comunismo são essencialmente econômicas e preveem sistemas com menos injustiça social e melhoria de vida a todos. O capitalismo, ao seu modo, prevê que você possa prosperar. Ninguém prevê extermínio de ninguém. Já esse princípio é inerente ao nazismo.

  5. Drope Responder

    Realmente o Nazismo e a sua Solução Final não foram nada engraçado. Mas engraçado.Muuuuuitos professores rasteiros das faculdades brasileiras vivem defendendo o petismo e os petistas, canalhas pós graduados. E a Foice / Martelo dos Comunistas (maiores assassinos da história com mais de 125 milhões de assassinatos), que vemos em várias camisetas dos barbudinhos desmiolados do Brasil? Para a implantação de sua DITADURA mataram mais de 7 milhões de pessoas DE FOME só na Ilguslávia. Procurem por HOLODOMOR e verão. Mais mortes que todos os campos de concentração nazistas em apenas um único país! Não devia ser proibida tbm?

  6. Renato Moura Responder

    Tive aula com o Wander no Curso e Colégio Energia em Blumenau/SC.
    Sim, havia discursos que favoreciam a posição nazistas de fato. Não excluo o pensamento que ele era um bom professor, pois era mesmo de fato apesar de seu ponto de vista contraditório.
    Realmente falava que o nazismo não existiu, lembro claramente as várias vezes que ele argumentou isso com tanta clareza.
    O pior foi quando um indíviduo na sala de aula questionou se o filho dele, Adolf, fosse gay e a resposta foi chocante: “daria uma surra até ele se acertar”.
    Enfim, é impressionante como uma instituição de ensino do padrão Energia, uma das maiores, mais conceituadas e mais caras de SC, não faz absolutamente nada contra isso… vai ver porque a escola é nazista disfarçada.

  7. Henrique Responder

    Tive aula com ele no Energia de Joinville em 2001. Outros professores chamavam ele de nazista, mas era sempre em tom de deboche. Em diversas aulas ele explicava problemas da política e fazia a turma pensar. Lembro muito bem quando ele explicou do caso Collor: “se era tão corrupto, porque não foi condenado”? E explicou que apesar de despreparado, Collor tentava a sua maneira enfrentar a péssima classe política existente no país. Pelo menos na minha turma, nunca vi ele defender nazismo. Como falei, isto era deboche e quem mais tirava com ele era um professor baiano de química, mas sempre num clima legal. Para mim, era um ótimo professor.


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