Cultura a unir os povos

Acabo de escrever este artigo para uma revista acadêmica, apresentando o “estado da arte” da construção da Cultura Viva pela América Latina, tarefa a que tenho de dedicado desde 2011. Segue o texto:  ...

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Acabo de escrever este artigo para uma revista acadêmica, apresentando o “estado da arte” da construção da Cultura Viva pela América Latina, tarefa a que tenho de dedicado desde 2011. Segue o texto:

 

Unquillo, província de Córdoba, 21 de novembro de 2014. Uma marcha, centenas de pessoas de toda Argentina (e convidados de outros países), palhaços, malabaristas, artistas de teatro, músicos, dançarinos, agentes culturais, midialivristas… Mais um encontro da Cultura Viva em mais um país, pontos de cultura espalhados da fronteira com a Bolívia até a Patagônia, do Chaco a Buenos Aires. A bandeira: por uma Cultura Viva Comunitária a ser definida em lei tendo assegurado um orçamento mínimo nacional de 0,1% para grupos culturais comunitários. Foi o primeiro congresso nacional da Cultura Viva na Argentina, mas a busca por esta política pública tem avançado no país desde antes de 2010, ano em que também pude participar de uma marcha com aproximadamente 500 pessoas, na cidade de Buenos Ayres, rumo à Casa Rosada, sede do governo do país. Naquele momento conversamos com senadores e deputados, e foi apresentada uma lei nacional para a Cultura Viva, ainda não votada no parlamento, ainda assim, a política pública prosperou e o governo federal já conta com um programa que subsidia centenas de Puntos de Cultura pelo país, e já começa a fazer Círculos de Cultura (Pontões, com função de atuarem como capacitadores, articuladores e difusores na rede de Pontos); outras províncias e cidades também estão assumindo esta política e até a Capital Federal, o que é uma surpresa, pois em um país tão polarizado na disputa partidária, é muito raro forças políticas distintas (o governo da Capital é de oposição ao governo federal) adotarem a mesma política pública. Mas com o conceito da Cultura Viva houve a união de propósitos.

Cidade da Guatemala, agosto de 2011. Uma marcha, uma comparsa, como eles chamam por lá, centenas de pessoas tomando as ruas da capital do país, também em defesa da Cultura Viva. Pessoas caminhando em pernas de pau gigantescas, demonstrando uma habilidade ancestral que tem origem na cultura Maya, grupos de crianças, jovens, fanfarras, artistas de teatro, circo, dança…, ativistas de direitos humanos defendendo a vida (afinal, a Guatemala está em segundo lugar com maior índice de homicídios por habitantes no mundo – 80 por 100.000 – além de ser marcada por constantes genocídios contra as populações indígenas). Neste país, o diálogo com o governo é mais difícil, mas há toda uma engenharia social, construída de baixo para cima por organizações da sociedade civil em redes de colaboração, em que a cultura é o cimento, desde Médicos de pés descalços, resgatando a medicina Maya até a Caja Lúdica, uma ONG de gente idealista a afetuosa, no caso desta marcha, foram eles que articularam o movimento social da cultura diversa da Guatemala.

Iquitos, selva amazônica peruana, dezembro de 2012. Favela de Belém, 30.000 pessoas vivendo em uma favela de palafitas, às margens do rio Amazonas, nenhum saneamento básico, altos índices de violência, poucas perspectivas para a população sem trabalho (quase todos) e quase nenhuma presença do Estado; mas lá há um Punto de Cultura, La Restinga. Sofisticados artistas, nascidos em Iquitos, ou que lá decidiram viver, fazem intercâmbio com artistas de todo Perú, e do mundo também, trabalham com recursos audiovisuais, animação sociocultural, arte urbana, e sempre tendo por foco o desenvolvimento integral da infância, adolescência e juventude, promovendo participação cidadã e sustentabilidade local a partir da cultura. Inventam sempre! Quando os visitei, haviam criado balsas para o cultivo de hortaliças no Amazonas, no período em que a cheia do rio toma conta de tudo e as pessoas mal conseguem sair de suas casas; e isto acontece durante meses. Com as balsas/canteiros de hortaliças, as pessoas podem ter acesso a alimentos saudáveis em um momento tão difícil de suas vidas. Solidariedade, arte, cultura e invenção, é o que fazem. Coincidência, na mesma semana em que acontecia o I Congresso Nacional dos Puntos de Cultura da Argentina, a Amazônia peruana, com os departamentos de Loreto, San Martín, Amazonas e Ucayali, também realizava seu primeiro encontro, agora já com 16 Puntos de Cultura e mais dez em processo de reconhecimento. Mais um exemplo de ampliação e articulação de uma rede de autonomia e protagonismo sociocultural, em que a identidade se realiza na diversidade.

Colômbia, Medellín, Bogotá, Cali, Pasto, Villa de Leyva, Valle del Cauca…, muitas datas, muitas vezes, muitas viagens. Um povo em processo de paz, se reinventado pela cultura. Na primeira vez que fui à Colômbia (maio de 2011), mesmo sendo historiador preparado para evitar anacronismos e estereótipos, confesso que um estigma me acompanhava, pois imaginava um povo impaciente, agressivo, que só conseguia resolver seus conflitos na base da violência (afinal, eles tem por lá a guerrilha que há mais tempo segue em atividade contínua no mundo; afora os narcotraficantes e os paramilitares, além de uma desigualdade social que só se iguala à brasileira). Surpresa! Encontrei um povo gentil, inovador e festeiro. E descobri as raízes desta gentileza de ser ao visitar o Museo del Oro, em Bogotá, uma ourivesaria delicada, retratando cenas do cotidiano de um povo milenar; entre centenas, milhares de peças de ouro, nenhuma delas com cena de guerra ou violência, o que vi foram flores, macacos, pássaros, singelezas e delicadezas; o oposto da arte grega ou romana, o oposto da arte dos conquistadores da terra de El Dorado. Ainda assim, diante de tantas mazelas, iniquidades e desencontros, o moderno povo colombiano se maltratou e continua se maltratando. Mas como fui, vi, conheci, senti e vivi (e com diversas voltas), tenho confiança que vão superar tudo isso. Já estão superando. Medellín, cidade antes conhecida como a capital do narcotráfico, sede do cartel de Pablo Escobar, onde até 2002 havia 7.000 assassinatos por ano. Articulando movimentos cívicos, coletivos artísticos, empresários compromissados com sua comunidade e intelectuais, Medellin se transformou pela Cultura e desde 2012 é considerada pela ONU como a cidade mais inovadora do mundo, título que antes era de Barcelona. Um detalhe, assim que o partido municipal Compromisso Ciudadano venceu as eleições em 2002 e tomou a decisão de elevar o orçamento municipal para Cultura Cidadã (como eles gostam de nominar/conceituar a secretaria de cultura) de 0,7% para 5%,foi desencadeado um criativo processo de reaproximação entre Estado e Sociedade, gerando invenções em série, desde banheiros públicos limpos e decorados com mosaicos artísticos até grandes Bibliotecas-Parque, instaladas nos morros e comunas da cidade, em que crianças, jovens, adultos e idosos passam o dia por lá, de tão agradáveis e convidativas que são as bibliotecas de Medellín (em Bogotá também). Também investiram em Museus, muitos Museus, entre sofisticados, tradicionais, pequenos e grandes, o Museo de Antióquia é coirmão da Pinacoteca de São Paulo e tantos outros Museus europeus, na Praça em frente, outro Museu a céu aberto, com esculturas de Botero (que é paisano, a gente do departamento de Antióquia, em que Medellín é capital), pouco mais adiante, outra Praça, no centro financeiro e comercial da cidade, em que as pessoas são convidadas a tirar os sapatos, arregaçar as calças e caminhar em pequenos cursos d´água com pedregulhos e seixos, também caminham na areia branca, sentam na grama, sorriem. E saem com as energias recarregadas para seguir o dia em paz. Foi exatamente esta a intenção de quando planejaram a Praça e o roteiro cultural a céu aberto. Há também um grande Museu de Ciências, mais centros culturais em favelas, Museus Comunitários, Museu da Memória contando a história dos desplaçados (a Colômbia tem milhões de pessoas que vivem nas cidades por terem sido expulsas de suas terras, seja por terratenientes ou como efeito da guerra civil), caminhos de mosaicos em cerâmica, grafitis, tudo subindo e descendo morros. E unindo a cidade. Ao final do século XX, o Estado alcançava apenas 30/40% do território da cidade, as demais partes eram controladas ou por Narcotraficantes, ou grupos guerrilheiros (como FARC, ELN) ou paramilitares e ninguém entrava ou saía sem a ordem deles. Ainda há muito por fazer para integrar plenamente a cidade, mas a “cidade da eterna primavera” (como os locais gostam de intitular sua cidade que, por estar em um vale entre montanhas, tem uma temperatura estável e agradável durante todo o ano) começa a repartir a primavera como um direito de todos. E para quem gosta de números: em 2002 houve 7.000 assassinatos em um ano (em uma cidade com 2,5 milhões de habitantes), em 2012, 700.

Qual a relação disto tudo com a Cultura Viva e os Pontos de Cultura? Afinal, tudo que eles fizeram foi por conta própria e eles tem muito a ensinar para mundo, e ensinam, tanto que Medellín é considerada um dos principais laboratórios de inovações urbanas do mundo.  Mas este povo gentil e inovador também sabe que só se progride e avança quando há troca real e equilibrada entre os mundos, quando um aprende com o outro. Tão logo souberam da teoria, conceitos e aplicação da política pública da Cultura Viva, foram logo assumindo para si e lá foi aprovada a primeira lei municipal da Cultura Viva Comunitária na América Latina (em 2011), anteciparam-se ao Brasil, diga-se. Eles compreenderam que era a política que lhes faltava para unir os pontos entre política de Estado e o protagonismo e inventividade dos cidadãos. Sim, é necessário que o Estado faça para a Sociedade, mantenha bons equipamentos públicos, serviços de qualidade, mas é necessário também que o Estado faça com a Sociedade. A notícia mais recente é de que o governo municipal lançara mais um edital para seleção de Pontos de Cultura. Já foram inúmeras iniciativas e tudo começou a partir de um Punto de Cultura que já era Ponto muito antes de conhecerem esta política, um Punto, em uma Casa Amarilla, com sala de teatro comunitário, simples, mas bem instalado, refeitório para artistas e colaboradores, sala de ensaios, de multimídia; um Punto na Comuna 3, dos morros de Medellín, como nas favelas do Brasil, um Punto de Nuestra Gente, este é o nome deles, nuestra gente, como nós, estejamos no Brasil ou em qualquer lugar do mundo.

Pura Vida, a terra do Bem Viver, Costa Rica, terra do coração civil, lugar do povo mais corajoso do mundo, pois há sessenta anos decidiram viver sem a necessidade de exercito, marinha ou aeronáutica, bastando-lhes uma polícia para segurança dos cidadãos. E com o dinheiro economizado investiram tudo em educação, meio ambiente e cultura (nos anos setenta o orçamento nacional para a cultura era de 5% do total do país, depois, com o neoliberalismo, a cultura perdeu participação orçamentária, mas a marca fica). Maio de 2014, VI Congresso IberoAmericano de Cultura, organizado pela SEGIB (Secretaria Geral dos Estados Iberoamericanos, englobando América Latina mais Portugal e Espanha), tema: Cultura Viva Comunitária. Um Congresso de Estados, de governos, com ministros de diversos países e, em função do tema, discutindo juntos com grupos de Cultura Viva Comunitária de toda América Latina. Estado e Sociedade em um só congresso, com um só tema. Entre as várias resoluções, a criação de um Fundo IberCultura Viva, para financiamento de grupos comunitários de cultura e intercâmbio entre eles. O Fundo começa com aportes pequenos dos países (entre US$ 20 mil a US$ 300 mil, a depender do tamanho da economia), mas já reflete uma inflexão no processo de construção de acordos internacionais e aplicação de políticas, pois este acordo foi construído de baixo para cima. Entre debates, reuniões e apresentações artísticas, também houve uma marcha cultural pela cidade de San José, com a beleza e a diversidade das Américas tomando as ruas da cidade, incluindo a presença do ministro da cultura da Costa Rica, um músico entre o popular e o erudito, acompanhando os grupos com seu badoleón.

Assalto poético a La Paz, I Congresso Latinoamericano da Cultura Viva Comunitária, maio de 2013. Mil e duzentas pessoas de toda América Latina, 17 países presentes, do México à Terra Mapuche, no sul do Chile; os argentinos (300) foram em caravana de ônibus e caminhões/teatro, levaram 3 dias para chegar e dizer: El pueblo hace Cultura! La Paz, a capital no topo do mundo, a maior cidade indígena do planeta, fora tomada pela cultura, antes do congresso, é claro; lá os grupos culturais misturaram-se com as cholas, índios e índias, antes discriminados, agora tinham seu presidente indígena, muitas marchas, coloridas, combativas, plurinacionais. Tudo feito com muito pouco recurso financeiro, resultado da coragem e da determinação de quem faz e vive a Cultura Viva. E que começou m ano antes, por um recorrido por Bolívia, da capital a Sucre, Cochabamba, Lago Titicaca, El Alto, Santa Cruz de La Sierra, as trilhas de Che e o caminho Guarani, que ligava o Atlântico às terras Incas, em Samaipacha. No caminho, a travessia dos Andes, as imensas geleiras na montanha, sendo destiladas gota a gota, em uma contínua sinfonia, até se transformarem nos grandes rios da Amazônia, do Pantanal e da Prata. Foi no Altiplano que se celebrou a unidade latinoamericana pela Cultura Viva Comunitária.

Há que dizer também do Chile e sua enorme extensão e diversidade de sua gente, do deserto do Atacama às geleiras do sul; o Uruguai e seu povo que escolheu um presidente gentil, modesto e altruísta; o Equador da Pachamama, que incorpora em sua constituição os valores do Sumak Kawsay (Bem Viver, em quéchua), em que há que saber escutar, saber compartir, saber viver em complementariedade, saber alimentar-se e festejar, saber comunicar-se, saber trabalhar, aprendendo a crescer e caminhar em um trabalho que tem que ser felicidade e festa, como em Macunaíma, de Mário de Andrade; a Venezuela guerreira, com os jovens do software livre; o Panamá que agora abraça a Cultura Viva e já tem os seus primeiros Puntos; a Nicarágua, de um povo que “ni se vende, ni si rende”; a Honduras que tanto necessita da Cultura Viva (pois, além de tudo é o pais com maior índice de mortes por habitantes no mundo), mas que seus grupos de cultura comunitária ainda enfrentam tantas dificuldades; Belize e a língua crioula; o México, insurgente, rebelde, em que a idéia da Cultura Viva já se propaga, mas ainda falta muito, ainda mais um país tão grande e diverso, mas é exatamente no México que a Cultura Viva, neste momento, mais faria a diferença, faria a diferença “porque los queremos vivos!”, os 43 jovens chacinados em Iguala, revelando os horrores de uma sociedade dividida entre tradições comunitárias, o passado revolucionário, o porvir e o que aí está, tão longe e tão perto do céu e do inferno. Há também que seguir pelo Caribe, pelos Estados Unidos e Canadá, até o Alasca, depois atravessa-lo e seguir rota inversa, até chegarmos à savana africana, que foi onde tudo começou.

Há que falar do Brasil. São dez anos desta política pública, entre teoria, conceitos, construção, gestão. Uma idéia simples: Potenciar o que já existe. E fazer isso com encantamento e magia; aí já não é tão simples, seria se os governantes e gestores, acostumados a mandar e pensar com suas cabeças de planilha e formas quadradas, se dispusessem a escutar, mas isto é difícil. No Brasil de 2004 houve condições simbólicas e políticas que permitiram esta experimentação, com isso, entre a idealização em 2004, com a primeira chamada pública, e 2009, foi possível chegar a mais de 3.000 Pontos de Cultura, em 1.100 municípios, atendendo a mais de 8 milhões de pessoas em atividades esporádicas, 900 mil em atividades regulares (participação em grupos artísticos, oficinas, coletivos de audiovisual, cineclubes – 300 por Ponto) e 33.000 pessoas em trabalho comunitário, metade remunerados, metade voluntários (dados IPEA). E tudo isto a um custo anual para o governo de R$ 60 mil (R$ 5 mil/mês) por Ponto de Cultura, valor este que já está defasado e merecia ser reajustado. Conto este processo e histórias no livro PONTO DE CULTURA – o Brasil de baixo para cima (Ed. Anita Garibaldi, 2009; também em edições em espanhol e inglês e disponível para download gratuito), não sendo o caso de entrar em detalhes. Mas, em resumo: Ponto de Cultura = Potência + Afeto; Encantamento + Trabalho; Tradição + Invenção; Autonomia + Protagonismo comunitário, gerando empoderamento sociocultural. Ponto de Cultura funciona como uma micro-rede, atuando no território (físico ou virtual), junto às comunidades e nas mais diferentes formas de expressão, linguagens artísticas ou grupos identitários; ou seja, ele é a realização da identidade na diversidade, ou a busca da singularidade na multidão. Mas os Pontos de Cultura só conseguem se realizar plenamente quando se articulam em rede, de tal modo que podem ser expressos em uma equação matemática: (Ponto de Cultura = autonomia + protagonismo elevado à potência das redes). Com quanto mais redes o Ponto de Cultura se articula, mais empoderado ele estará, tanto do ponto de vista social, econômico e político, como nos aspectos criativos e artísticos. Se o Ponto de Cultura é a Micro-Rede, a Cultura Viva é a Macro-Rede, interligando Pontos, ampliando sua sustentabilidade e dando sentido às ações comunitárias antes circunscritas ás comunidades, além de instigar um conjunto de outras ações, antes não imaginadas no âmbito local (Griôs e mestres da cultura tradicional, Pontinhos de Cultura para a cultura lúdica e infantil, Cultura e Saúde, Economia Viva, Interações Estéticas, Pontos de Memória, Pontos de Leitura, Agentes Jovens de Cultura Cidadã…), de modo que um Ponto aprenda com outro e de forma horizontal; também é a fusão entre: Cultura + Natureza = Cultura Viva. Enfim, um conceito matemático (inspirado no matemático grego, Arquimedes: “dá-me um ponto de apoio e uma alavanca e eu moverei o mundo”) aplicado a uma política pública. Talvez por isso mesmo, pela simplicidade e abstração da teoria, tenha encontrado tanta possibilidade de crescimento e compreensão, independente das diferenças entre culturas, governos, povos e países. O paradoxo é que esta teoria, conjunto de conceitos e metodologia de gestão, originalmente pensada e sistematizada no Brasil, enquanto florescia pela América Latina e agora por outros continentes, a partir de 2011 passou a ser combatida, perseguida e assediada pelo governo brasileiro, e só não foi plenamente desmontada porque uma grande quantidade de Pontos de Cultura já haviam se empoderado de suas idéias, conceitos e utopia. Com isso, em 2014 foi aprovada a lei Cultura Viva assegurando, quiçá, sua perenização institucional enquanto política pública.

Por fim, El Salvador. Ao citar a presença da Cultura Viva Comunitária em diferentes níveis de compreensão e implantação da política na América Latina (exceto as Guianas – Guiana, Suriname e Guiana Francesa-, mas por que não no futuro?), deixei El Salvador por último, não por acaso. Entre 25 e 28 de outubro de 2015 será lá que vai acontecer o II Congresso Latinoamericano da Cultura Viva. El Salvador é o futuro, mas o passado também, um sendero (lamparina) a iluminar esperanças. País pequeno, com pouco mais de 20.000 quilômetros quadrados e super habitado (mais de 300 habitantes por quilometro), que já teve uma relativa boa indústria e economia, mas que fora desestruturada pela guerra civil e o neoliberalismo, fazendo com que a opção de trabalho para um terço de seus cidadãos tivesse que ser a migração para os Estados Unidos. Pois este país chiquito e valente também é a esperança, foi assim quando se sublevaram contra a opressão oligárquica e também contra o imperialismo. Também o foi quando encontraram o caminho da paz, ao final do século XX e também o é quando assumem o conceito do Bem Viver como base para seu progresso futuro. Eu próprio, quando jovem universitário, me encantei e me mobilizei por uma terra onde jamais estive. Depois pude ver com meus próprios olhos, conhecendo o resultado de tanto esforço e sacrifício daquele povo. Terra de Farabundo Martí, de cardeal Romero (San Romero!), de Martín-Baró, padre jesuíta, psicanalista social, assassinado na guerra civil, que em suas reflexões sobre a psicologia social da guerra e os processos de socialização pensados desde centroamérica, propugnava exatamente o mesmo que a Cultura Viva propugna: “hay que potenciar las virtudes del pueblo!” Todos à El Salvador, portanto. E viva a Cultura Viva a unir os povos!

Célio Turino Historiador, escritor e gestor de políticas públicas. Servidor público há 37 anos, exerceu diversas funções, entre elas, secretário da Cidadania Cultural no Ministério da Cultura, quando foi responsável pela idealização e implantação do programa Cultura Viva e dos Pontos de Cultura. Autor e organização de vários livros, entre eles, NA TRILHA DE MACUNAÍMA – ócio e trabalho na cidade (Ed. SENAC, 2005) e PONTO DE CULTURA, o Brasil de baixo para cima (Ed. Anita Garibaldi, 2009; em inglês, pela Gulbenkian, England, 2013; em espanhol pela editora RGC libros, Arg, 2014, também disponível para download gratuito). Atualmente se dedica à difusão da Cultura Viva pelo mundo.



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