Kotscho: “Governo Dilma quebra dois tabus”

O jornalista Ricardo Kotscho faz uma análise sobre os fatos ocorridos durante essa semana, que considera “histórica". Entre eles, destaca a quebra de dois tabus: o relatório da Comissão da Verdade e as prisões da operação Lava Jato.

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O jornalista Ricardo Kotscho faz uma análise sobre os fatos ocorridos durante essa semana, que considera “histórica”. Entre eles, destaca a quebra de dois tabus: o relatório da Comissão da Verdade e as prisões da operação Lava Jato

Por Redação

Na opinião do jornalista Ricardo Kotscho, a presidenta Dilma Rousseff quebrou dois tabus nesta semana, considerada “histórica”. Um deles diz respeito às prisões da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, e o outro à entrega do relatório final da Comissão da Verdade, que investigou crimes ocorridos durante a ditadura militar no Brasil. A afirmação foi feita em seu blog, na última sexta-feira (12).

Confira, abaixo, o texto na íntegra:

Hora da verdade: governo Dilma quebra dois tabus

Tínhamos, até outro dia, dois tabus inamovíveis:

* Nunca saberemos quem cometeu os crimes de lesa-humanidade durante a ditadura militar porque os generais não vão deixar mexer neste assunto.

* A turma do colarinho branco, que pode pagar bons advogados, nunca irá para a cadeia.

Nesta semana histórica que está chegando ao fim, o governo da presidente Dilma Rousseff quebrou os dois tabus de uma vez. Quem me chamou a atenção para este fato foi a carta de um leitor _ e, cada vez com maior frequência, as seções de leitores dos jornalões me servem de pauta, mais do que o noticiário. Na Folha desta sexta-feira, o Claudio Janowitzer, do Rio de Janeiro, escreveu:

“A divulgação do extenso relatório da Comissão Nacional da Verdade deve ser saudada por todos os brasileiros. Finalmente são trazidos à tona atos escabrosos que foram encobertos por mentiras e dissimulações. A apuração da verdade é sempre benvinda e esperemos também que esta mesma busca ajude o Brasil a sair do atoleiro de podridões financeiras que estão sendo reveladas pela operação Lava Jato. Jamais seremos um país justo e forte se negarmos isso”.

Em tudo que li até agora sobre o relatório final da Comissão Nacional da Verdade e as ações da Operação Lava Jato, Janowitzer foi o único a juntar estas duas pontas, que podem significar o início do fim da impunidade em que viviam os poderosos deste país, civis ou militares, de colarinho branco ou fardados, desde a vinda de D. João 6º ao Brasil.

Um dia apenas depois da CNV nominar os 377 responsáveis por torturas praticadas pelo regime militar, o Ministério Público Federal denunciou criminalmente 36 pessoas, sendo 24 delas ligadas a seis das maiores empreiteiras do país envolvidas no escândalo da Petrobras, e determinou o ressarcimento de mais de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos.

Nunca antes, como diria o Lula, isto havia acontecido na nossa história. Claro que não foi Dilma sozinha, como pessoa física, quem derrubou de uma penada estes dois antigos tabus, mas foi o seu governo quem criou a CNV, dando-lhe plena autonomia para atuar, e garantiu ao Ministério Público, ao Judiciário e à Polícia Federal a mesma autonomia para investigar quem quisesse, em absoluto respeito à independência entre os poderes, algo antes não muito comum em nossa vida republicana.

“Começamos a romper com a impunidade de poderosos grupos que têm se articulado contra o interesse do país há muitos anos”, anunciou o procurador Deltan Dallagnol, um dos responsáveis pelas investigações da Operação Lava Jato. “As investigações não param por aqui”.

É a primeira vez que não apenas corruptos são denunciados, mas também os corruptores, até aqui sempre preservados nos casos de corrupção que há séculos abalam e sangram as instituições nacionais.

Com todos os problemas que enfrenta na política, na economia e na montagem do seu novo ministério, finalmente a presidente Dilma Rousseff tem todos os motivos do mundo para comemorar estas duas vitórias, que poderão representar um divisor de águas na vida brasileira para que, daqui para a frente, todos sejam, de fato, como determina a Constituição, iguais perante a lei.

Pode ser o fim do “sabe com quem está falando?” e do “leve vantagem em tudo”. Em uma semana, o país mudou. Pelo menos, perdeu o medo de enfrentar a dura realidade.

Vida que segue.

Foto de capa: Brasil 247

 



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1 comment

  1. Paulo Responder

    Pra além dessa interessante coincidência apontada pelo jornalista, a partir da carta de um leitor da Folha, aponto um outro ponto que entrelaça essas duas questões, de um ponto de vista histórico:

    Esse fio da meada do novelo da corrupção estrutural do país, que começa a ser desenrolado de forma mais forte e profunda, nos leva ao ponto em que o grande capital, notadamente o das grandes empreiteiras, se constituiu e se fortaleceu em suas relações com o Estado. E este ponto encontra-se, justamente, no Regime Militar (que prefiro chamar de ditadura “empresarial-militar”, em vez da expressão já comum na esquerda “civil-militar”).

    Foi lá, nesse regime, que as grandes construtoras se tornaram sócias privilegiadas do poder estatal, e puderam crescer e expandir seus negócios, em “tenebrosas transações” que fizeram da corrupção algo estrutural no país – em benefício tanto dos setores empresariais que se enriqueciam com negócios com o Estado, quanto dos governantes que se fortaleciam ao apoiarem e serem apoiados por essas corporações.

    Sem grandes ilusões na “democracia burguesa” e suas instituições, mas este momento pode ser um momento histórico.


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