Editor de jornal mineiro é censurado por ter “linha política divergente”

João Paulo Cunha pediu demissão depois que diretoria d'O Estado de Minas o proibiu de escrever sobre política em sua coluna semanal

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João Paulo Cunha pediu demissão depois que diretoria d’O Estado de Minas o proibiu de escrever sobre política em sua coluna semanal

Por Anna Beatriz Anjos

Na última terça-feira (16), João Paulo Cunha, ex-editor de Cultura do jornal O Estado de Minas (EM), entregou sua carta de demissão do veículo. O motivo: após 18 anos de serviços prestados, ele alega ter sido censurado pela direção da empresa.

Cunha, além de editor, era responsável pela coluna semanal “Olhar”, publicada no caderno Pensar, que circula todos os sábados. Neste espaço, dedicava-se a escrever sobre temas diversos, desde “arte e espetáculos a questões relacionadas à política”, como ele mesmo definiu. “Este ano, particularmente, por conta da política ter estado em evidência, escrevi mais sobre esse assunto do que em outros momentos”, disse, em entrevista à Fórum.

Após a veiculação de sua última coluna, no dia 6 de dezembro, Cunha foi chamado para uma conversa com a chefia de redação, na qual ouviu que, a partir daquele momento, estava proibido de escrever sobre política. “Me disseram que é porque tenho uma linha política que diverge da linha defendida pelo jornal. Não estavam achando correto que uma pessoa paga pelo jornal escreva numa linha que vai de encontro à linha que o jornal defende”, conta.

Nada foi dito especificamente sobre o último texto, no qual tecia críticas claras à oposição e a Aécio Neves (PSDB), mas ele acredita que o episódio tenha sido a “gota d’água”. “Acho que ele coroou o descontentamento da empresa”, relata. “O que me falaram é que vinham acompanhando meus artigos e que eles não estavam agradando a direção.”

Antes de pedir demissão, o jornalista tentou conversar novamente com a diretoria, que se mostrou irredutível. Por isso, decidiu, por conta própria, deixar a redação onde trabalhou por quase duas décadas. “Interpreto explicitamente como censura, porque, inclusive, não foi uma conversa, na intenção de negociar, trocar ideias, ou argumentar sobre diferentes posições, que considero algo salutar”, explica. “Foi por isso que pedi demissão. É impossível, como jornalista, trabalhar em um lugar onde sua palavra é censurada.”

O Estado de Minas apoiou publicamente a candidatura de Aécio Neves à presidência da República nas últimas eleições. Depois da reeleição de Dilma Rousseff (PT), o tucano, inclusive, gravou um vídeo, destinado a um grupo do WhatsApp, em que aparece ao lado de Geraldo Teixeira da Costa Neto, o “Zeca”, filho de Álvaro Teixeira da Costa, presidente do Diários Associados, grupo proprietário do EM. Nas imagens, Neves agradece o apoio dos participantes do grupo durante o pleito. Importante lembrar que, no início do segundo turno, Zeca chegou também a convocar seus funcionários a irem para as ruas  em amparo a Aécio.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Minas Gerais soltou nota em apoio a Cunha. “A gente espera que seja o último caso de censura praticado nos doze anos de governo do PSDB em Minas. E não é um caso menor, talvez seja o mais significativo, pela importância que têm a trajetória e a capacidade do João Paulo Cunha”, afirma Kerison Lopes, presidente da entidade. “Fica muito claro que foi um caso de censura, na medida em que ele tem uma coluna, um espaço que é dele, e determinam que não pode falar de política. O que é política? Cultura não é política?”.

O documentário “Liberdade, essa palavra” (assista às partes 1 e 2) denunciou que a censura foi uma prática constante nos 12 anos de governos tucanos em Minas Gerais.

Nesta quarta-feira (17), a equipe da editoria de Cultura do EM fez uma homenagem ao jornalista: todos foram vestidos de calças jeans e camiseta branca, trajes com os quais ele costumava andar pelos corredores da redação (ver foto).

A reportagem entrou em contato com o jornal EM, mas não obteve retorno.

Leia abaixo, na íntegra, a coluna de João Paulo Cunha, publicada no último dia 6:

Síndrome de Capitu

O Brasil já tem presidente para os próximos quatro anos, o que está faltando é oposição responsável

Existem duas verdades aparentemente óbvias que, no entanto, não têm ficado suficientemente claras para muita gente: o país mudou e a eleição já acabou. A insistência em dar continuidade ao processo que elegeu Dilma Rousseff poderia ser apenas um luto mal vivido, mas tende a se tornar perversa no campo político. Por outro lado, a recusa em enxergar a nova configuração da sociedade, resultado de seguidas políticas de distribuição de renda e inclusão social, pode gerar um impulso no mínimo grotesco em suas alusões reativas e chamamentos à ditadura.

É preciso ir adiante. A oposição, certamente, saiu fortalecida do resultado eleitoral bastante parelho. Mas corre o risco de jogar fora esse crescimento quantitativo em nome de um comportamento pouco produtivo em termos políticos. Em vez de jogar com seu eleitor fiel, interpreta os votos de acordo com suas conveniências e joga para a plateia pelos meios de comunicação, sem perceber que essa falácia já mostrou ser um paradoxo invencível: tem mais brilho que consistência, mais efeito que substância, mais eco que voz.

A oposição de hoje parece viver, no campo da política, o que Bento Santiago, o Bentinho de Dom Casmurro, de Machado de Assis, viveu em seus tormentos de alma: se perde na fantasia da traição (mesmo que ela tenha sido real). Para lembrar sumariamente o enredo do romance, Bentinho se apaixona por Capitu, desde logo apresentada como portadora de “olhos de ressaca”. São jovens de classes sociais distintas. Um arranjo permite o casamento. Logo Bentinho, já pai e bem posto na vida como advogado, desconfia que está sendo traído pela mulher com o melhor amigo, em quem vê semelhança com o filho. O casal se separa, o filho morre e Bento, sozinho, leva adiante sua sina de ser casmurro e sofrer com a desconfiança até o fim da vida.

Machado de Assis, como sempre, ao falar de seus personagens, está figurando a sociedade de seu tempo. Bentinho não sofre só pela traição, mas porque não entende que o mundo mudou. Não pode aceitar que a sociedade republicana deixou para trás as amarras elitistas do Segundo Reinado e da escravidão. Bento não reconhece a mulher, a sociedade, a história. Não pode aceitar que ela tenha uma vida independente e autônoma. Tudo que ele não compreende o ameaça. Capitu não é apenas a mulher, mas tudo que perdeu em seu mundo de referências que se esvaem. Mais que sexual, a traição é histórica. Homem de outro tempo, só resta a ele tentar convencer ao leitor e a si próprio de seu destino de vítima. E soprar um melancólico saudosismo acerca dos tempos idos, que busca reconstruir em sua casa feita à semelhança do lar da meninice.

O Brasil tem uma recorrente síndrome de Capitu: tudo que a elite não tolera se torna, por meio de um discurso marcado pela força jurídica e da tradição, algo que deve ser rejeitado. Eternos maridos traídos. A tendência de empurrar a política para os tribunais é uma consequência desse descaminho. Assim, tudo que de alguma forma aponta para a mudança e ampliação de direitos é considerado ilegítimo e, em alguns momentos, quase uma afronta que precisa ser questionada e combatida. Foi assim com a visibilidade dada aos novos consumidores populares (que foram criminalizados em rolezinhos ou objeto de ironia em aeroportos), com as cotas raciais para a universidade, com a chegada de médicos estrangeiros para ocupar postos que os brasileiros, psicanaliticamente, denegaram. 

O romance de Machado de Assis tem ainda outro personagem curioso para a sociologia e psicologia do brasileiro, o agregado José Dias. Trata-se de um homem que vive às expensas da família de Bento e que, por isso, não cessa de elogiar quem o acolhe. Típico representante de certa classe média, ele é o bastião dos valores da burguesia da época, da qual só participa de esguelha. Mais burguês que os burgueses, em sua subserviência, ele gasta os superlativos e a vida a invejar e defender os “de cima”, com pânico de ser confundido com os “de baixo”. Epígonos de José Dias, hoje, são os que amam Miami, levam os filhos para ver o Pateta e participam de passeatas pedindo a volta dos militares.

Leviandade 

Mas o que a síndrome de Capitu tem a ver com a política brasileira de hoje? Em primeiro lugar, ela explica por que, em vez de armar uma oposição de verdade, os partidos derrotados tentam inviabilizar a sequência do processo democrático. Em segundo lugar, pela defesa da dupla moral, que desculpa os erros do passado por causa da dimensão dos desvios de hoje, numa reedição do estilo udenista e despolitizador de analisar a conjuntura. Tudo que pode de alguma forma macular a oposição é considerado “sórdido” e “leviano”, numa substituição da política pela moral de circunstância. A corrupção, com sua espantosa abrangência, precisa ser combatida em toda sua dimensão e arco histórico. Nenhum culpado pode ficar de fora, de empresários a políticos de todos os partidos. 

Por fim, a personagem machadiana ajuda a explicar a fixação em torno de determinados temas – no romance, é a traição, na vida política atual, é a inflação –, que são muito mais derivações que propriamente o que de fato interessa. A escolha dos ministros da área econômica mostrou como mesmo um governo popular e eleito democraticamente confirma as intuições de Machado de Assis. A excessiva submissão aos interesses rentistas pode ser um recuo estratégico. Mas é um recuo. Uma capitulação.

Economia não é uma ciência exata e, muito menos, isenta de componente ideológico. Um governo de esquerda precisa de uma política econômica de esquerda. Além do equilíbrio macroeconômico, o mais importante é apontar as estratégias de distribuição de renda e de investimento na área social. O deus Mercado não pode falar mais alto que os filhos de Deus. No complexo tecido que sustenta a governança, a presença das forças populares não pode ser colocada em segundo plano, como vem sendo até agora. A excessiva sujeição ao cálculo do apoio político está na base da grande corrupção que hoje enoja a todos. Por isso a reforma política popular se tornou a agenda prioritária da sociedade.

A oposição, por sua vez – e o senador Aécio Neves, candidato derrotado como seu nome de maior destaque –, tem uma tarefa a cumprir: dar um passo à frente no jogo político, com a grandeza que o momento requer. O que ainda está devendo.

Bentinho perdeu sua vida ao ficar preso a um passado de desconfianças que, de resto, até hoje divide as opiniões. Há grandes projetos que impulsionam uma vida e moldam expectativas de futuro, algo que ganhou o belo nome de utopia. Há, entretanto, obsessões que paralisam pelo rancor e ressentimento. Bentinho, é bom lembrar, nunca mais foi feliz. Foi ele mesmo o criador e a vítima da síndrome que o consumiu.”



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