EUA: um olho no comércio com Cuba e outro nas eleições de 2016?

Estariam fatores políticos - em detrimento das oportunidades econômicas - por trás do argumento pela continuidade do embargo, fazendo com que até os mais ardentes anticomunistas temam o capitalismo?

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Estariam fatores políticos – em detrimento das oportunidades econômicas – por trás do argumento pela continuidade do embargo,  fazendo com que até os mais ardentes anticomunistas temam o capitalismo?

Por Vinicius Gomes

Um dos principais temas do segundo filme da clássica trilogia O Poderoso Chefão é a negociação em que o personagem de Al Pacino tenta fazer uma parceria entre a máfia italiana e judia, que possuem diversos negócios em Cuba, principalmente cassinos. E uma das sequências mais simbólicas do filme é quando todos esses capos das famiglias, que estavam festejando o Ano Novo, têm de fugir o mais rápido possível da ilha caribenha, pois os barbudos liderados por Fidel Castro e Che Guevara acabaram de descer a Sierra Maestra e estão prestes a tomar o poder na capital, Havana. O simbolismo da fuga deles no primeiro dia de 1959 tinha um significado: a festa acabou. Nos meses seguintes, a nacionalização de empresas estrangeiras em Cuba e sua aproximação com a União Soviética, nos anos posteriores, fizeram com que os Estados Unidos levantassem um embargo à ilha. A data era 7 de fevereiro de 1962.

O dia de ontem (17) pode ter sido o primeiro passo concreto para o fim de cinquenta e três anos da guerra diplomática e econômica do Golias do norte contra a pequena ilha a 90 minutos de distância da costa norte-americana. Depois de dezoito meses de negociações secretas, promovidas pelo Canadá e encorajadas pelo papa Francisco, os presidentes Barack Obama e Raúl Castro concordaram, em um simples telefonema, colocar de lado essas décadas de hostilidade mútua e iniciar um novo relacionamento entre os dois países – cujas reverberações ainda são tema de especulação. Porém, no que concernem aos EUA, seus principais impactos serão sentidos internamente, tanto na eterna queda-de-braço da administração Obama com o Congresso, quanto nas eleições presidenciais de 2016.

A primeira conquista política de Obama com o anúncio de ontem foi encurralar os principais nomes do Partido Republicano para a contenda em menos de dois anos – coincidentemente ou não, dois vindos da Flórida, um dos estados-chave em qualquer eleição presidencial por conta de seu colégio eleitoral, onde os votos dos exilados cubanos anticastristas têm uma profunda influência nas políticas norte-americanas e sempre foram para aqueles que eram mais incisivos contra o governo de Cuba.

O ex-governador do estado Jeb Bush declarou que “não acha que os EUA devem negociar com um regime repressivo”; o senador Marco Rubio, de origem cubana, disse claramente que o Senado não iria aprovar nenhum embaixador para Havana – uma das promessas de Obama para a normalização com Cuba. A prerrogativa de liberar fundos para a formalização de uma nova embaixada é do legislativo norte-americano, assim como também é a aprovação ou não do fim do embargo a Cuba: em 1996, o presidente democrata Bill Clinton assinou a Lei Helms-Burton que, entre outras coisas, dá ao Congresso a “autoridade para anular uma decisão executiva do cancelamento ao embargo”.

Muitos desses que são contra a normalização das relações com Cuba perderam muito dinheiro quando Castro desceu da Sierra Maestra, incluindo a dinastia Bush. Se Jeb Bush for confirmado como um candidato republicano para as primárias, ele definitivamente tentará garantir os votos dessa comunidade. Por outro lado, existe uma nova geração de cubano-americanos que não possui os mesmos rancores que a velha guarda. Assim sendo, ainda é incerto o quanto o uso da fala grossa terá impacto positivo na coleta de votos – os próximos passos serão essenciais para isso.

As notas da Casa Branca apontam que Cuba é um dos países mais atrasados em necessidades tecnológicas na América Latina, o que abriria uma gama de oportunidades para empresas norte-americanas. Além de reaproximar o comércio com os chamados estados do Golfo: Louisianna, Texas e, claro, Flórida –, que por séculos tiveram relações econômicas com Cuba, até o momento do embargo.

Porém, entre os maiores detratores do fim do embargo, acabam por cair na contradição: se a questão é por não ter relações com regimes totalitários, os EUA deveriam cortar o comércio com a Arábia Saudita e China, por exemplo, que possuem um histórico de execuções. Além disso, o próprio Marco Rubio já explicou a verdadeira intenção em manter o embargo contra Cuba: “O que você tinha era uma situação onde as pessoas vinham de Cuba para Miami, ficavam um ano mais um dia e depois voltavam. E o que isso estava fazendo era ameaçar a sustentabilidade do status especial como exilados políticos, ao invés de apenas imigrantes”.

O que ele basicamente queria dizer com isso é que o embargo é realmente necessário para preservar o status dos cubanos nos EUA como exilados políticos e que qualquer alívio nas restrições entre os dois países os transformaria em apenas imigrantes. “[O embargo] é necessário, senão as corporações norte-americanas irão para Cuba fazer negócios com o governo [de Castro]. Corporações não estão interessadas em democracia, elas estão interessadas em fazer dinheiro, no capitalismo”, disse Rubio.

Realmente, a relação EUA-Cuba é tão peculiar que faz até ardentes anticomunistas temerem o capitalismo.

Foto de capa: Tijolaço



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