O petróleo barato é bom para o clima do planeta?

Na batalha contra a extração de petróleo em condições extremas - fracking, águas profundas e Ártico - a queda no preço do barril dos petróleos se tornou uma inesperada aliada para aqueles que querem um planeta habitável nas próximas décadas.

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Na batalha contra a extração de petróleo em condições extremas – fracking, águas profundas e Ártico – a queda no preço do barril dos petróleos se tornou uma inesperada aliada para aqueles que querem um planeta habitável nas próximas décadas

Por Jess Worth, em New Internationalist | Tradução: Vinicius Gomes

Nos últimos seis meses, algo dramático aconteceu no mundo da energia global. O preço do petróleo caiu quase pela metade. Voando alto em 155 dólares o barril (em junho), o preço do petróleo cru caiu para 60 dólares o barril e sem garantia alguma de que não continuará afundando.

As ramificações são muitas e variadas e analistas têm alertado que são notícias terríveis para a indústria dos renováveis, apesar de isso parecer uma reação exagerada.  Ambientalistas não deveriam se desesperar com essas falas. Petróleo barato não significa que mais e mais combustíveis sujos serão extraídos, aumentando a emissão de gases estufa bem quando precisamos cortá-los drasticamente. De fato, petróleo barato significa exatamente o oposto.

Ao passo que as fontes convencionais se tornaram mais escassas nos anos recentes, as maiores empresas petrolíferas colocam todos os ovos em algumas cestas bem caras. De acordo com a Shell, Exxon, BP e o resto da gangue, a maioria do petróleo das próximas décadas virá do alcatrão, do xisto, de águas ultraprofundas e do Ártico. É para essas prospecções que o dinheiro dos acionistas está indo atualmente, mas também é onde muitas das frentes de batalha contra a energia extrema estão agora sendo travadas – uma vez que essas novas fontes de “petróleo não-convencional” são mais destrutivos localmente, mais intensos na emissão de gases, mais propensos a acidentes e mais desastrosos onde tais acidentes ocorrem.

Nós temos de deixar 80% das reservas conhecidas no chão para evitar a aceleração do aquecimento global – a começar por esses projetos de energia extrema. Mas a boa notícia é que todos esses lugares aos quais não deveríamos ir são muito mais caros para extrair do que as fontes convencionais. Areias de alcatrão, perfuração em águas profundas e extração no Ártico – nenhuma dessas exequíveis com o barril do petróleo custando 60 ou 70 dólares. Assim sendo, a recente queda nos preços lançou tais projetos em uma crise, com muitos dos investimentos sendo adiados por sabe-se lá quanto tempo. De fato, a Goldman Sachs alertou nessa semana que 1 trilhão de dólares que seriam direcionados para tais projetos está agora sob ameaça. Coincidentemente, não menciona que esses são projetos os quais o mundo não pode se dar ao luxo de ter quando  se fala globalmente em evitar que a temperatura do planeta suba mais de 2° Celsius.

No Reino Unido, o chanceler George Osborne deu incentivos fiscais que chegam aos bilhões na indústria petrolífera no Mar do Norte, pelos últimos três anos, mas que mesmo assim está entrando em colapso pela queda nos preços. Isso apenas fortalece o argumento de que o tesouro britânico apoia cegamente a indústria do petróleo, apesar dos cortes massivos no orçamento de outras áreas – injustamente prologando a era do combustível fóssil, além de ser um enorme desperdício de dinheiro dos contribuintes, que está sendo alocado em uma indústria quase morta. Se apenas o pensamento lógico por trás desses incentivos fiscais (corte de empregos) fosse aplicado no investimento da indústria dos renováveis, o país não estaria tão atrás do resto da Europa quando o assunto é energia limpa.

Em Alberta, no Canadá, executivos do petróleo estão sem dúvida alguma perdendo muito, enquanto a multibilionária indústria do alcatrão se apresenta cada vez mais como a indústria mais ameaçadora e destrutiva para o meio-ambiente. E quanto ao xisto? De alguma maneira, o boom do petróleo nos EUA foi o gatilho para toda essa crise. O súbito corte no valor global do petróleo criado pelo frenesi do fracking (fratura hidráulica) nos EUA fez com que a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) iniciasse, silenciosamente, guerra de preços, tendo em mente que muitos (não todos) de seus membros ricos em petróleo poderiam suportar o baixo preço do petróleo de uma maneira que os frackers não poderiam.

Agora, como a cara indústria do xisto está também entrando em declínio, o que não é apenas boa notícia para aqueles que querem viver em planeta habitável, mas também oferece um alívio para aqueles vivendo em lugares onde a indústria do fracking é pesada e que veem suas águas, seu ar e sua terra sendo poluída, além de prejudicar sua saúde.

Evidências dessa experiência horrenda fez com que o estado de Nova York banisse o fracking nessa semana. Um potencial desaceleramento dessa indústria pode prover um (muito necessário) espaço para que outros estados norte-americanos façam o mesmo.

Então, tenha em mente: executivos petroleiros estão entrando nessa época festiva com medo em seus corações. Isso deveria ser outra razão para todo o planeta celebrar.

Foto de Capa: Adam Selwood (Creative Commons)



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