São Paulo: filme queimado

Pesquisa Datafolha publicada nesta 2a. feira revela que a imagem dos paulistanos perante os demais brasileiros não anda lá muito boa, e piorou nos últimos dez anos. Hoje 39% dos entrevistados (todos de fora da cidade de São Paulo) concordam com a afirmação de...

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Pesquisa Datafolha publicada nesta 2a. feira revela que a imagem dos paulistanos perante os demais brasileiros não anda lá muito boa, e piorou nos últimos dez anos. Hoje 39% dos entrevistados (todos de fora da cidade de São Paulo) concordam com a afirmação de que “os paulistanos se julgam melhores do que os outros brasileiros”

Por Wagner Iglecias*

Pesquisa Datafolha publicada nesta 2a. feira revela que a imagem dos paulistanos perante os demais brasileiros não anda lá muito boa, e piorou nos últimos dez anos. Hoje 39% dos entrevistados (todos de fora da cidade de São Paulo) concordam com a afirmação de que “os paulistanos se julgam melhores do que os outros brasileiros”. Há onze anos atrás, em 2003, a mesma pesquisa apontava apenas 30%. Também naquela época 48% dos entrevistados discordavam totalmente da afirmação de que “os outros brasileiros têm inveja dos paulistanos”. Hoje discordam totalmente daquela frase 54%. Ainda naquela ocasião 48% dos pesquisados achavam que São Paulo é a locomotiva da nação. Hoje esse número caiu para 43%.

Fato é que embora seja ainda o principal pólo econômico do país, acabou aquela imagem de que só São Paulo é que gera empregos e proporciona boa qualidade de vida às pessoas, com acesso a conforto e a bens materiais. Isso ficou no passado. Até os anos 1970 a “geopolítica” brasileira era meio bipolar, com São Paulo e Rio rivalizando entre si a liderança do país. Mas desde então a capital paulista passou a concentrar as sedes das multinacionais com operações no país, as sedes dos bancos e o próprio mercado financeiro, com a fusão das bolsas de SP e Rio. Essa dianteira de São Paulo aliás coincidiu com o esvaziamento da economia carioca, que vinha em passos lentos desde a criação de Brasília e aprofundou-se da década de 1970 em diante.

Mas se nos anos 1980 e 1990 São Paulo reinou sozinha, como pólo dinâmico da economia brasileira, a partir deste século nossa “geopolítica” nacional parece caminhar para uma multipolaridade. Novos centros econômicos, ainda que não tão grandes e fortes como São Paulo, vão aos poucos se consolidando. São lugares onde se geram negócios e empregos e onde é possível ter mais qualidade de vida que em São Paulo. Refiro-me, por exemplo, a cidades do Sul do país, como Florianópolis, Curitiba e do interior do Paraná. Ou mesmo a cidades do interior paulista, como Campinas, Jundiai e Ribeirão Preto. Ou ainda às capitais da fronteira do agronegócio, como Campo Grande, Goiânia e Cuiabá e às grandes cidades nordestinas como Fortaleza, Recife e Salvador. Todas elas, aliás, beneficiárias de mudanças significativas que nossa economia vem experimentando nos últimos anos.

E por falar em qualidade de vida, ela sempre foi muito ruim para a maioria dos paulistanos. Ou dos brasileiros que optaram por viver em São Paulo. Do “povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas” de que nos falava Caetano Veloso ainda na década de 1960, até hoje em dia, o que se observa é a queda generalizada da qualidade de vida em São Paulo. Com a vitória do nosso modelo de cidade, baseado no automóvel e na lógica do mercado imobiliário, São Paulo ficou ruim não só para o pobre, mas pra todo mundo. Uma cidade à beira do caos e da inviabilidade, infelizmente. São Paulo, aliás, paga um preço a mais nisso e na imagem que o restante do país faz dela: a cidade produz grande parte do jornalismo televisivo consumido Brasil afora. Que se pense naquela senhora que vive numa pequena cidade do interior de Minas ou naquele senhor que caminha no calçadão da Praia de Iracema, em Fortaleza, assistindo a esses programas de fim de tarde que mostram a todo o país os mega congestionamentos da Marginal Tietê ou as enchentes que, após meia hora de chuva, colocam a maior cidade do país em estado de atenção. São pessoas que provavelmente jamais sonharão em viver na capital paulista.

É importante ressaltar, por outro lado, que São Paulo é de longe o maior pólo de serviços de alta qualidade no país: capital gastronômica do mundo (ok, há controvérsias, e muitas), cidade que concentra os melhores hospitais, melhores laboratórios, melhores restaurantes, melhores teatros e cinemas. Tudo isso tem um pouco de verdade, mas a pergunta que fica é: afinal, quem frequenta esses melhores hospitais, melhores restaurantes, melhores teatros? Apenas uma parcela relativamente pequena dos paulistanos. E isso para não se falar do cinema, que é um capítulo a parte. Porque o cinema de arte em SP é consumido apenas pelo pessoal que circula no circuito Vila Madalena / Baixo Augusta. Já a massa de paulistanos que vai ao cinema assiste mesmo aos blackbusters da indústria norte-americana. Esses que passam em shopping center, e que são exibidos tanto em SP quanto em Manaus, Porto Alegre ou Aracaju. Ou seja, se na economia talvez já não sejamos mais a locomotiva da nação, tampouco a oferta diferenciada de serviços torna São Paulo assim tão superior a outras regiões do país.

Por fim, a arrogância dos paulistanos, a que se referem na pesquisa quase metade dos entrevistados, acabou tendo, em certa medida, uma reverberação na postura política de boa parte da cidade, especialmente na última eleição. São Paulo talvez tenha ficado presa ao tal passado de locomotiva da nação, algo já sem sentido num tempo em que outras regiões do país ganham dinamismo econômico e prosperam. Não a toa muita gente em São Paulo passou a dar recentemente demonstrações curiosas de apego a tempos em que a cidade e mesmo o estado eram o núcleo político da vida brasileira. Refiro-me a exemplos como a defesa do movimento anti-verguista de 1932 e do golpe militar de 1964. Talvez isto tenha relação com o fato de que São Paulo constituiu-se, nos últimos anos, como a principal fortaleza anti-petista do país. Ser anti-petista hoje, claro, passa por toda a indignação em relação às denúncias de corrupção envolvendo aquele partido. Mas passa muito também por ser contra o processo de modernização que o PT promoveu assim que chegou ao poder. E esse processo, ainda que timidamente, é um processo que distribui a riqueza tanto entre as classes sociais quanto entre as regiões do país. Natural que onde exista o maior contingente de classe média tradicional em nossa sociedade, formada décadas atrás, se erga o maior foco de apego ao passado e de resistência às mudanças.

A repulsa às transformações é tão forte que em São Paulo parcela expressiva da população se coloca contra a criação de ciclofaixas e faixas exclusivas de ônibus. Numa cidade onde a cultura do carro e das soluções privadas e individuais para os problemas coletivos é tão forte, um prefeito petista que adota medidas simples para melhorar o trânsito é odiado por seus opositores e elogiado por seus apoiadores como alguém que estaria a promover uma “virada civilizatória” (!!!). Qualquer grande metrópole do mundo desenvolvido possui ciclofaixas e faixas exclusivas de ônibus há décadas. A polêmica toda gerada em torno das medidas de Fernando Haddad nos dá uma ideia do nosso atraso. Não é a toa que os demais brasileiros olhem hoje para São Paulo já sem o encantamento de outros tempos.

Foto de capa: Wikicommons

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.



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