Ary Fontoura e a arte do senso comum

Em sua página oficial no Facebook, ator global publicou pedido para que a presidenta Dilma Rousseff (PT) renuncie ao PT, despertando manifestações que fazem apologia ao crime e que incentivam o assassinato dela e...

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Em sua página oficial no Facebook, ator global publicou pedido para que a presidenta Dilma Rousseff (PT) renuncie ao PT, despertando manifestações que fazem apologia ao crime e que incentivam o assassinato dela e do ex-presidente Lula

Por Marco Piva

Não é de hoje que artistas mostram suas preferências políticas e, a partir de sua condição pública, dizem coisas mais sérias e ajudam, bem como podem escorregar e não passarem de ventríloquos do senso comum. Parece ser este o caso de Ary Fontoura que pediu, em postagem nas redes sociais, a renúncia de Dilma Roussef. Apesar de deixar claro a que tipo de renúncia se referia, o que faz no final do texto, o ator global desfia uma série de jargões que não fariam feio na boca do mais despolitizado dos brasileiros em conversa de botequim.

Como explicar, então, que uma pessoa com longa vida profissional e a vivência do teatro, local de excelência para o exercício da cultura, faça o papel de reprodutor inocente de frases comuns? Vejamos algumas delas.

(…) renuncie à falta de vergonha e aos salários elevados de muitos parlamentares (…) renuncie ao apadrinhamento político, aos parasitas, ao nepotismo; renuncie aos juros altos, aos impostos elevados, à volta da CPMF; renuncie à falta de planejamento, à economia estagnada; renuncie ao assistencialismo social eleitoreiro; renuncie à falta de saúde pública, de educação, de segurança (Unidade de Polícia Pacificadora não é orgulho para ninguém); renuncie ao desemprego; renuncie à miséria, à pobreza e à fome; renuncie aos companheiros políticos do passado, a velha forma de governar e, se necessário, renuncie ao PT”.

Ao juntar alhos com bugalhos, em nome de uma suposta indignação que teria atingido “200 milhões de brasileiros” pelo quais diz falar, Ary Fontoura perde a grande chance de colocar os pingos nos “is”. O pedido de “renúncia” à falta de vergonha e aos salários elevados de parlamentares, bem como aos parasitas, ao nepotismo e à velha forma de governar, caberiam bem numa ampla e profunda reforma política, expressão que não sai da boca do ator em nenhum momento. Esse tipo de reclamação óbvia continua quando pede a “renúncia” aos juros altos, aos impostos elevados, à volta da CPMF, combinando com a “renúncia” à falta de planejamento, à economia estagnada. Mais uma vez, nenhuma palavra, sequer um miado, sobre a estrutura econômica vigente no Brasil há décadas, há séculos, e que para ser enfrentada exige exatamente um tipo de governo que ele não quer, embora nos anos de chumbo tenha flertado com a rebeldia de esquerda.

Merecem destaques as “renúncias” ao assistencialismo social eleitoreiro (bolsa-família, é claro), ao desemprego (onde ele vê isso, não sei), à miséria, à pobreza e à fome. Certamente seu olhar não passa do morro do Corcovado ou da ilha da fantasia Projac, onde aluga, como qualquer trabalhador, sua mais-valia às Organizações Globo, o maior conglomerado de comunicação brasileiro e que amealhou bilhões em verbas federais de publicidade entre 2000 e 2013. Cabe aqui, literalmente, a frase que se tornou popular nos discursos do ex-presidente Lula: nunca antes na história desse país se combateu tanto a miséria, a fome, a pobreza e o desemprego. Mas, isso não consta na indignação seletiva de Fontoura.

O “grand finale” vem do seu pedido à Dilma para que renuncie “aos companheiros políticos do passado, a velha forma de governar e, se necessário, renuncie ao PT” e “se permita que a sua história futura seja coerente com o seu passado”. Muito interessante. Dê banho na criança, jogue ela fora junto com a água suja e você terá um ser limpinho e cheiroso. Ou seja, passe uma esponja em tudo o que você acreditou e acredita que esta é a melhor forma de construir o futuro. Claro que ele se refere ao futuro na narrativa da mídia conservadora, da oposição golpista e dos interesses internacionais que não suportam uma soberania brasileira ativa e altiva.

O governo do PT é o pior governo que já passou pelo Brasil. Resta saber para quem. Essa é a pergunta que deixo para Ary Fontoura que, se preferir, pode até interpretar no palco a sua resposta. A liberdade de expressão está garantida na Constituição. Falta agora assegurar a pluralidade de informação. Uma carta com esse pedido especial o ator global poderia enviar para a família Marinho.

Foto: Reprodução Facebook Ary Fontoura



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3 comments

  1. mineiro Responder

    como pode ter gente imbecil dessa forma. um ator que ate gosto , falar asneiras dessa forma. nao tem cambimento uma pessoa do porte desse cidadao , que eu acreditava ser bem informado , falar besteiras dessa forma. ou ta sendo pressionado coisa que eu nao acredito ou é mais reacionario mostrando a cara , que é lamentavel. mas ta cheio deles por ai afora servindo o patrao na hora que a firma o solicita.

  2. luiz Responder

    Esse senhor eu admiro sua arte nos palcos e na TV, porem ele como pessoa não pois nasci em 64 e lembro de algo desse tempo, era suado para artistas em geral , porque ele nao fala sobre as empreiteiras que financiam as campanhas e escravizam o povo nas licitações?

  3. Francisco Responder

    Tem tontos de todo lado. Dizer que Ary Fontoura falou asneiras, bem, talvez, mas negar o poço de corrupção em que está metido este governo é uma estupidez maior ainda. O que foi feito de bom por este governo não é mais um do que a obrigação. Eles foram eleitos e recebem gordos salários é pra isso mesmo. Agora isso não lhes dá o direito de agirem como donos do Brasil e fazerem todo tipo de Atrocidades e montarem essas quadrilhas para se manterem a todo custo no poder.


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