“Eu prefiro morrer de pé do que viver de joelhos”

Em entrevista após o último ataque sofrido pela revista Charlie Hebdo em 2011, o editor-chefe Stéphane Charbonnier, morto em atentado nesta quarta-feira, havia afirmado que os extremistas islâmicos que ameaçavam o semanário não impediriam a continuidade de suas publicações satíricas; confira.

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Em entrevista após o último ataque sofrido pela revista Charlie Hebdo em 2011, o editor-chefe Stéphane Charbonnier, morto em atentado nesta quarta-feira, havia afirmado que os extremistas islâmicos que ameaçavam o semanário não impediriam a continuidade de suas publicações satíricas; confira

Por Vinicius Gomes, colaborou Anna Beatriz Anjos

Stéphanie Charb  , diretor do Charlie Hebdo, foi um dos mortos no atentado à redação da revista (Foto: Divulgação)
Stéphane Charbonnier, diretor do Charlie Hebdo, foi um dos mortos no atentado à redação da revista (Foto: Reprodução/BFMTV)

A redação da revista semanal Charlie Hebdo, em Paris, sofreu, nesta quarta-feira (7), um ataque classificado pelo governo francês como “terrorista”. As vítimas fatais somam doze: dez jornalistas e dois policias. Entre elas, estão Stéphane Charbonnier, de 47 anos, diretor da publicação, e Geoges Wolinski, de 70 anos, considerado um dos maiores cartunistas do mundo. Três homens armados participaram do massacre, gritando “Allahu akbar!” (algo como “Alá é grande!”, em português) ao entrar no edifício, de acordo com testemunhas oculares.

A revista, assumidamente de esquerda, satirizava diversas figuras religiosas e políticas, magnatas e líderes militares. Suas capas, estampadas por charges, costumavam chocar e causar controvérsia. Uma delas traz uma deputada francesa de extrema-direita se depilando, deixando um “bigodinho do Hitler”; noutra, o último papa Bento XVI aparece abraçando apaixonadamente um oficial da Guarda Suíça, dizendo “enfim livre!”. A que gerou maior polêmica, divulgada em 2006, mostrava o profeta muçulmano Maomé – cuja imagem não pode ser reproduzida, para algumas vertentes do Islã – é ironicamente retratado em prantos, exclamando “É difícil ser amado por idiotas”, em referência aos fundamentalistas.

Após a republicação da sátira a Maomé – publicada anteriormente em um jornal dinamarquês –, a sede da revista sofreu o primeiro ataque físico: foi atingida por bombas incendiárias em 2011, sem que houvesse feridos. Desde então, o prédio estava sob proteção governamental. À ocasião, Charbonnier – mais conhecido como Charb – afirmou que “preferia morrer de pé do que viver de joelhos” e que nenhuma ameaça os impediria de continuar seu trabalho.

A Charlie Hebdo foi fundada em 1969 e seu nome é uma homenagem a Charlie Brown, personagem de histórias em quadrinho do norte-americano Charles Schulz. Sua primeira fase, que durou até 1982, foi seguida por um hiato de dez anos – em 1992, o semanário voltou à ativa.

As caricaturas de Maomé ganharam as manchetes à época da publicação. Enquanto alguns as encararam como uma provocação desnecessária aos muçulmanos, Charbobonnier defendeu a escolha da revista ao dizer, em uma entrevista concedida em 2012, que havia atuado dentro dos limites da lei que garante a liberdade de expressão.

Carlos Latuff, um dos cartunistas brasileiros mais conhecidos internacionalmente, famoso por seu trabalho em defesa da autodeterminação da Palestina, lembrou o episódio envolvendo o profeta. Para ele, o massacre é realmente uma fatalidade, mas é também a crônica de uma tragédia anunciada. “Porque esse jornal publicou em 2006 uma série de charges de Maomé que causou uma grande controvérsia”, explicou.

Latuff lembra que a redação da Charlie Hebdo já vinha sofrendo ameaças, “mas mesmo assim continuou com a linha de charges de sátiras ao Islã e infelizmente ocorreu essa tragédia”, lamentou. O cartunista acredita que o ataque fortalecerá a extrema-direita francesa, “que tem o discurso anti-Islã e anti-imigração”.

A francesa Marie-Helene Rouche, mestre em Idiomas Estrangeiros pela Universidade de Sorbonne e moradora de Paris, concorda com o brasileiro. “Por ora, o maior sentimento é tristeza, mas sinto que a raiva virá logo. Temo pela violência, mas infelizmente acho que é inevitável”, observa. “Já tivemos problemas de cunho racista desse tipo e isso tornará mais fácil para alguns justificarem sua agressividade contra outras pessoas”.

Rouche relata que entre os franceses, nas redes sociais, a reação conservadora já se esboça, embora o luto ainda impere. Ela conta que, em seu feed do Facebook, já leu mensagens como “matem todos os idiotas usando djealba [vestuário muçulmano utilizado principalmente por mulheres]” e “o Islã deveria ser banido da França, assim como o nazismo está banido desde 1945” – afirmação que traz embutida um contradição.

Abaixo, confira algumas capas polêmicas da Charlie Hebdo (clique para ampliar):

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“Raspei o bigode”, diz, na capa, a política de extrema-direita Marine Le Pen (Foto: Divulgação)
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Na capa mais polêmica, o profeta Maomé afirma: “É difícil ser amado por idiotas” (Foto: Divulgação)
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Depois do primeiro ataque sofrido por sua redação, a revista publicou, em 9 de novembro de 2011, a imagem de um muçulmano e um cartunista se beijando, acompanhada pela frase “O amor é mais forte que o ódio” (Foto: Divulgação)
Em uma das capas de julho de 2013, lia-se: “O Corão é uma merda, não detém as balas”. Na imagem, é possível ver um muçulmano tentando de defender de disparos (Foto: Divulgação)
Em uma das capas de julho de 2013, lia-se: “O Corão é uma merda, não detém as balas”. Na imagem, é possível ver um muçulmano tentando de defender de disparos (Foto: Divulgação)
Ao destacar a morte de Michael Jackson, a revista estampou na capa: "Michael Jackson enfim branco" (Foto: Divulgação)
Ao destacar a morte de Michael Jackson, a revista estampou na capa: “Michael Jackson enfim branco” (Foto: Divulgação)
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Na época em que o papa Bento XVI renunciou ao cargo, a revista o retratou abraçando apaixonadamente um oficial da Guarda Suíça e dizendo “enfim livre!” (Foto: Divulgação)



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