“Levantado do Chão” e a saga do Latifúndio que herdamos

“E esta outra gente quem é, solta e miúda, que veio com a terra, embora não esteja registada* na escritura, almas mortas, ou ainda vivas?**” Levantado do Chão, José Saramago...

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“E esta outra gente quem é, solta e miúda, que veio com a terra, embora não esteja registada* na escritura, almas mortas, ou ainda vivas?**”

Levantado do Chão, José Saramago

A história do latifúndio é escrita com suor e sangue de “gente miúda”, desconhecida, desimportante aos olhos de quem conta a história oficial.

É desta gente que fala José Saramago no romance Levantado do Chão, publicado em Portugal em 1980 (o escritor tinha então 58 anos) e editado no Brasil em 82, 96 e 2013. A publicação deste livro lançou finalmente o autor, que escrevia desde a adolescência, a uma posição de destaque no sistema literário português.

O romance conta a saga da família Mau-Tempo (que tem parentesco literário com os Buendía, os Trueba e os Campolargo e Vacariano), iniciada quando Sara da Conceição casa-se com Domingos e dá à luz a João Mau-Tempo, cuja vida acompanharemos até o seu último dia.

São 70 anos de história, desde a queda da Monarquia e a instauração da República até as primeiras ocupações de propriedades rurais no Alentejo ocorridas após a Revolução dos Cravos. Porém, não é a troca de nomes e bandeiras do regime vigente em Portugal que importa a este narrador. Também não é preciso saber um “a” da história portuguesa para entender o funcionamento dessa máquina de moer gente chamada Latifúndio:

“Está terra é assim. A Lamberto Horques disse o rei, Cuidai dela e povoai-a, zelai pelos meus interesses sem vos esquecerdes dos vossos, e isto vos aconselho para conveniência minha, e se assim fizerdes sempre e bem, viveremos todos em paz.”

À palavra do rei – ou da autoridade do Estado, junte-se o conforto da Santa Madre Igreja que exalta as virtudes das almas sofredoras e fecha os olhos para as carências dos corpos famintos e adoecidos pelo trabalho sem descanso. Se a teologia falhar, não faltam a imposição da ordem e a tirania do medo, nobres responsabilidades da guarda e da polícia nacional, o braço armado e assassino do Estado, aqui e lá, ontem e hoje.

Por décadas vive assim, trabalhando de sol a sol para o latifúndio a família Mau-Tempo e todo o proletariado rural do sul do país. A consciência política nasce da exaustão, quando o primeiro trabalhador, depois de uma jornada de quinze horas ou mais, com comida que mal dá para não morrer de fome, com casa que não passa de um ajuntamento de madeira ou tijolos, com filhos que começam a trabalhar assim que podem andar pelas próprias pernas, se pergunta se, afinal, isto é vida que se viva.

Contra a rebeldia de tal pergunta o Estado se apressa em dar uma resposta: durante o regime fascista de Salazar qualquer palavra contra o latifúndio e o direito sagrado da propriedade é repreendida com violência, prisão, tortura. João Mau-Tempo é preso e torturado pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), a mesma que em 1945 prendeu, torturou e assassinou Germano Vidigal, militante do Partido Comunista Português. O uso brutal da violência é ficcionalizado por Saramago, e faz com que Levantado do Chão seja um livro que nos desperta uma dor desconhecida no corpo, um intenso desconforto na consciência e um desassossego sem remédio na alma.

Acompanhando a vida de João Mau-Tempo, o narrador reconstrói com palavras a dor, a fome, o frio e o medo de uma parte do povo português entregue à sua própria sorte e capacidade de resistência e de desejar uma melhor vida. João passa de criança que mal podia segurar a enxada que usava para trabalhar a adulto e pai de família. Por espalhar as ideias socialistas na sua vila alentejana, é preso, interrogado e torturado pela PIDE por meses, até ser libertado com o alívio de não entregar nenhum companheiro durante os interrogatórios.

Gracinda Mau-Tempo, sua filha, casa-se com com Manuel Espada, também trabalhador e militante, e dá à luz Maria Adelaide.

Vão-se acabando os tempos de conformação.

Na alegoria saramaguiana, quando o sangue dos desafortunados Mau-Tempo mistura-se ao dos emblemáticos Espada através do singelo nascimento de Maria Adelaide, de olhos azuis como os do avô João, uma nova voz, persistente e forte, ergue-se no latifúndio.

Essa voz pede que a jornada de trabalho no campo passe a ser de “apenas” oito horas e deixe de ser de sol nascente a sol poente. Essa voz exige que o pagamento por dia de trabalho seja mais do que o bastante para não morrer de fome. Essa voz também chora a morte de José Adelino dos Santos, assassinado em praça pública pela Guarda Nacional da República (GNR) em 1958. Mas os ouvidos do latifúndio estão surdos.

Os proprietários de terra impedem o proletariado de trabalhar, deixando o trigo apodrecer nos campos. O regime em convulsão – que está perdendo território nas regiões da Índia e da China, e perdendo vidas na guerra colonial na África, dá suas últimas mostras de poder. Mas o regime está podre, e em 25 de abril de 1974 vem a Revolução, e, com ela, o fim do medo da repressão policial.

O olhar lúcido de Saramago, porém, não enxerga a Revolução como um dia mágico que pôs fim a todas as opressões. Os donos do latifúndio são os mesmos, estes só perderam o braço armado do poder público, mas ainda o pode contratar pela via privada, bem se sabe que para os feitores e capatazes é que nunca faltou trabalho em terras ibéricas. As técnicas de intimidação também não mudam, de novo o trigo apodrece sem poder ser colhido, e os patrões de propósito não empregam ninguém, para que “essa gente” aprenda a sua lição.

E então, num sítio qualquer do latifúndio, a história lembrar-se-á de dizer qual, os trabalhadores ocuparam uma terra.

Não, a revolução de Saramago não sai do quartel, e sim do campo, de um povo que sente frio e dor e fome há mais tempo do que se pode lembrar, e que um dia diz, basta. Sem medo da polícia, os trabalhadores rurais ocupam os latifúndios do sul do país, e iniciam o que viriam a ser as Unidades Coletivas de Produção.

O romance acaba com a alegria da ocupação do latifúndio em que os Mau-Tempo trabalharam por toda a vida. João morre antes de ver “este dia levantado e principal”, mas Saramago lá o retrata, presente em espírito, assinalando que os mortos também hão de ver a realização das suas utopias.

Com Levantado do Chão nasceu o “estilo saramaguiano”, inspirado na imemorial narração oral, feita de gestos, palavras e pausas, umas longas, outras nem tanto. Saramago mantém apenas a pontuação das pausas: os pontos e as vírgulas, e todo o resto é explicado por palavras, e apenas elas. Para ler Saramago é preciso imaginar uma voz que conta uma história, e ouvir essa voz a disfarçar-se cada vez que é um personagem que fala, como os adultos fazem ao contar histórias para as crianças, como os velhos fazem ao contar casos para os adultos.

A leitura deste romance nos ajuda a entender a mentalidade que está por trás do Latifúndio, que é anterior à invenção do Brasil, (esse até ontem colossal latifúndio além-mar de Portugal), e é importante para entendermos que não, Sra Kátia Abreu, o latifúndio não acabou por aqui.

O latifúndio não é só uma grande propriedade rural, produtiva ou não, pertencente a uma só família. O latifúndio é esse sistema que mói gente para gerar riqueza pra quem não trabalhou a terra. O latifúndio é esse responsável pelo Alentejo ser uma das regiões mais pobres da Europa, é o que motivou a escravidão hedionda de africanos e o assassinato de povos autóctones nas Américas, é o que vai empobrecendo e envenenando a terra, concentrando riqueza, reproduzindo desigualdades e injustiças históricas, destruindo infâncias, encurtando vidas.

Enquanto sentirmos os efeitos do latifúndio, essa herança colonial, o latifúndio existe, e é por isso que a defesa da reforma agrária não é anacrônica ou apenas “coisa de comunista”. Precisamos de um novo sistema produtivo porque com ele virá uma uma nova maneira de conceber o valor da terra e das riquezas que ela pode gerar.

Levantado do Chão termina no momento em que a utopia do direito à terra, da jornada justa e do salário digno parece virar realidade. A reforma agrária, contudo, não veio a se concretizar de forma duradoura, e a adesão de Portugal à Política Agrícola Comum da União Europeia na prática anulou os efeitos das lutas locais do passado.

Ainda assim, a história do caminho trilhado por pessoas que sonharam e lutaram por um futuro mais justo permanece viva e a inspirar aqueles que queiram seguir seus passos.

Cada conquista nossa é também conquista dos que lutaram antes de nós e não viveram para ver o dia em que a utopia se tornou realidade. Também nós não viveremos para ver todas as conquistas das gerações futuras. Mas que isso não nos impeça de levantá-las do chão hoje.

* Esta é a grafia em Portugal para a palavra “registrada”.

** Todas as citações são da 12a ed  de Levantado do Chão pela editora Caminho, páginas 14, 107, 328 e 361, por ordem de aparição no texto.



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