“Convoque seu Buda”, manifesto místico de um poeta antropófago

“Só a antropofagia nos une” Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago Lançado em novembro do ano passado, Convoque seu Buda, terceiro álbum do rapper Criolo, foi celebrado e elogiado...

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“Só a antropofagia nos une”

Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago

Lançado em novembro do ano passado, Convoque seu Buda, terceiro álbum do rapper Criolo, foi celebrado e elogiado pela imprensa hypemaníaca. Na maior parte das resenhas, a excelente produção musical do álbum, a variedade de ritmos (rap, samba, afrobeat, reggae, disco, baião) e a atualidade das letras que traçam um perfil do Brasil urbano contemporâneo são consideradas os pontos altos deste lançamento.

Sem dúvida uma recepção tão ampla deu a Criolo ainda mais visibilidade. Contudo, esta recepção costuma resvalar sempre na mesma generalidade, algo sobre “crítica social”, “mistura de ritmos”, “pobreza e violência”, “agruras do favelado”, reduzindo a riqueza do texto a um punhado de expressões que de tão pisadas já não dizem nada.

Nesta resenha a minha intenção é ler o texto de Criolo e reforçar sua imagem como a de um modelo de intelectual e artista de que a sociedade brasileira precisará cada vez mais: capaz não só de cruzar referências da cultura erudita ocidental e da vivência cotidiana das ruas das nossas grandes cidades e suas periferias, mas também de criar algo inteiramente novo a partir desses cruzamentos.

1954
Crucifixion, 1954

Por isso a frase de Oswald de Andrade abre este texto: Criolo reaviva a utopia antropofágica e faz o que Oswald, burguês decadente, não pode fazer: dar voz à periferia da periferia, deglutindo, subvertendo e se apropriando do que as elites se acostumaram a chamar de “conhecimento” ou “cultura”.

A consciência de que a vida é luta e conflito é a primeira coisa que se aprende numa batalha de MCs. A escrita madura de Criolo reflete a capacidade de ligar ideias aparentemente sem nexo e condensar em imagens muito específicas um quadro social mais amplo. A habilidade com as palavras e o sentido de urgência das letras são certamente aprendizado de inúmeras batalhas em que a voz tinha que ser tão rápida quanto o pensamento: Criolo pensa em voz alta, e o seu pensamento é condensado, e, por isso, poético.

Ao pensar em voz alta, Criolo espera por uma resposta, e se afasta da imagem do intelectual que nos observa, distante ou moralista, da segurança de sua posição privilegiada. As suas letras prevêem e precisam de um interlocutor, de alguém que ouça a mensagem e responda, discorde, reaja – como nas batalhas. O interlocutor pode ser um “nós” ou um “vocês”: cada contexto poético identifica exatamente com quem Criolo está falando, e, mais importante, de onde ele fala. 

Convoque seu Buda, o poema que abre esse álbum-livro, é um manifesto místico que indica a espiritualidade e a transcendência como armas para resistir ao caos urbano. Em Cartão de visita está a ironia mais refinada de Criolo: uma letra afiada que só não alfineta quem não a entendeu. A crítica ao consumo aqui, como em Pegue pra ela, vale tanto para bens materiais quanto para o acúmulo irrefletido de capital cultural.

A versatilidade de Criolo nessa letra mostra ainda um artista capaz de usar uma  linguagem que não é sua para causar o efeito de estranhamento que faz com que a ironia funcione. Esse mundo de glamour e brilho não é o dele; louboutin, chandon, don perignon não fazem parte do seu vocabulário diário: o que ele faz é entrar no território cultural do outro, usando as palavras do outro para desnaturalizar o mundo do outro. E é quando essa desnaturalização acontece que o sorriso cínico da ostentação desaparece e alguma reação, mesmo conflituosa, se esboça.

Em Casa de Papelão, um canto de solidão, morte e desamparo, Criolo, o poeta que transita pelas ruas da cidade grande, conversa mano a mano, “olhos nos olhos” com o último morador de uma ocupação que dará lugar a um condomínio. Fermento pra Massa fala sobre a consciência de classe e a solidariedade entre os trabalhadores: “eu que odeio tumulto não acho um insulto manifestação”, e atualiza o “pão e circo” para o povo: “farinha e cachaça é fermento pra massa”.

Pé de Breque e Duas de Cinco são complementares: enquanto esta última fala de uma sociedade consumista, hipócrita e entorpecida, em que a lei não persegue o vício em si, mas o vício de uma classe específica; a primeira mostra seu respeito a uma prática que faz sentido em uma determinada cultura, ironizando quem “vivência não tem pra sentir real sabor”.

Verso mínimo, lírico, de um universo onírico
Cada maloqueiro tem um saber empírico

Criolo, Esquiva de Esgrima

Esquiva de Esgrima, Plano de Voo e Fio de Prumo resumem bem a ideia presente em todo o álbum, e por isso falarei desses textos com mais demora.

Esquiva é um autoretrato desse “filho de cearense” e uma declaração da sua ars poetica, ou seja, de como Criolo concebe o seu próprio fazer literário: construído com o “verso mínimo” a partir do “saber empírico” de “cada maloqueiro” da quebrada. Nessa canção Criolo fala como alguém cujos olhos já viram um outro mundo: “Antigamente resolvia na palavra/uma ideia que se trocava/o respeito que se bastava”, em oposição a “hoje”, um tempo em que “não tem boca pra se beijar/não tem alma pra se lavar/não tem vida pra se viver/mas tem dinheiro pra se contar”.

No entanto, essa ideia de um passado onde as coisas foram melhores é uma idealização romântica:  o passado é na verdade a utopia que ainda perseguimos, esse tempo nunca vivido em que o poder da palavra substituirá o poder do dinheiro.

Criolo segue elegendo o rap, ritmo “forte” como estilo e linguagem, declarando ídolos como Black Allien e Ferréz, e desenhando a própria trajetória como a de alguém que sempre escapou por um triz do perigo graças à bênção de uma oração ou à luz dada por um novo livro aberto, por um novo rap escutado. A letra também lembra que a má sina não começou com o poeta: há “milianos”, “cada cassetete é um chicote a mais no tronco”.

La Virgen de Guadalupe, 1959
La Virgen de Guadalupe, 1959

Plano de voo é um poema belo, plural e intenso, que retoma temas presentes nos anteriores e que mostra o poder da palavra no processo de autoconhecimento e expressão pessoal. O poeta, solitário, observa (é como se eu ficasse aqui nesse cantinho/vendo o mundo girar no erro abusivo) o contraste entre a ostentação individual (Golzin rebaixado, orbital 17” de tala larga) e a falta de infraestrutura coletiva (ambulância sem maca). A luta de classes emerge: “bicho-da-seda não é a praga, traça é quem quer a seda e ao bicho-da-seda maltrata”. Nesta imagem temos a síntese da exploração parasita de quem se alimenta da mesma classe trabalhadora que humilha.

O poema segue ainda chamando outras vozes para participar do processo de entendimento: “o melhor do inverno tio/é dar rolê sem passar frio” invoca a visão de um moleque que aqui também ganha vez; os versos de Neto, do Síntese, se juntam a esta tentativa de desvendar os mistérios não “da Ilíada”, mas da quebrada, em que “sem GPS pra vitória, cada um faz seu destino”.

Por fim, o poeta “desata o nó da trama”: “é nas crianças que o brilho tá”. A epifania da periferia é a necessidade da luta coletiva pela construção de um futuro melhor: “rumo ao amor/(…) sonho que se sonha junto é o maior louvor”.

Fio de prumo, décimo canto dessa odisseia brasileira, fecha este manifesto místico. Invocando Exu e a Paixão de Cristo, Criolo responde ao racionalismo iluminista que arroga à Razão o poder de tudo explicar. Um rolê pelas quebradas do Brasil, o absurdo musicado e versificado por Criolo nos poemas-faixas anteriores, basta para fazer com que este discurso caia por terra: “se o pensamento nasce livre/aqui ele não é não”.

O racionalismo falha em explicar como sobrevivemos, como toleramos essa desigualdade, como a quebrada resiste e de onde tiramos forças para continuar a lutar.

Para isso, Criolo aprendeu e nos ensina, há que transcender, há que se confiar em algum Buda, Ganesh, Osíris, Exu ou Padim Ciço, há que se rogar: “dobra a força dos braços, que eu vou só”. Em Fio de Prumo o verso mínimo do poeta se condensa ainda mais e se transforma em um jogo de palavra-imagem: “labirinto, fauna, sombra, luz da lua, aço, peito, flecha, caminho, magma, lava, inveja, vizinho”, cada uma delas polissêmica, um hiperlink para mil janelas da quebrada.

El Sagrado Corazón de Jesús, 1962
El Sagrado Corazón de Jesús, 1962

Celebrar Criolo como um novo nome da MPB é justo, mas não é suficiente. Há que se enxergar em sua expressão poética uma leitura precisa e criativa do país que construímos e sofremos. A transcendência mística do povo brasileiro (que tem “a estranha mania de ter fé na vida”, cantou Milton) não é sinal de insuficiência racional: buscar forças em um poder superior não é render-se à ignorância, nem se conformar passivamente com um destino pré-concebido, antes, é aceitar sem angústia o mistério daquilo que a razão não consegue explicar; é, com coragem, enfrentar mais um dia de uma luta que a lucidez dá como perdida.

*Espero que no Café Filosófico de D. Vilani possamos encontrar em breve um volume assinado por seu filho.

**As imagens que acompanham este texto são de quadros de Salvador Dalí, pintados depois de seu Manifesto Místico, publicado em 1945.



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1 comment

  1. Ramon Responder

    Agregou muuuito à minha vida. Muito grato por vc fazer oque faz Bruna.


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