Acordo Haddad/Chalita – quando esperteza demais pode matar o esperto

Aconselhado por Lula, o prefeito de São Paulo moveu as peças no tabuleiro de sua própria sucessão e, com uma só jogada, nomeia Gabriel Chalita como secretário da Educação e futuro candidato a vice-prefeito...

299 0

Aconselhado por Lula, o prefeito de São Paulo moveu as peças no tabuleiro de sua própria sucessão e, com uma só jogada, nomeia Gabriel Chalita como secretário da Educação e futuro candidato a vice-prefeito em sua chapa, garantindo apoio do PMDB e impedindo que este partido servisse de abrigo para a mais que provável candidatura adversária de Marta Suplicy. De quebra, o movimento do prefeito ainda assegura um lance para 2018, quando poderá concorrer a governador de São Paulo, novamente com apoio do PMDB, que, em troca, ganhará a prefeitura da maior cidade do país. “Foi uma jogada de mestre!”, diriam alguns comentaristas políticos, destes que comentam política como se comenta futebol. Mas será?
Depois de amargar a pior avaliação entre os prefeitos de Capitais, bem como depois de ter “ateado” fogo nas mobilizações sociais (de São Paulo e de todo país), a partir da intransigência em revogar o aumento da tarifa do transporte público, em junho de 2013, o prefeito começara uma lenta recuperação de imagem. Assim como o projeto “Cidade Limpa” ajudou na imagem do ex-prefeito Kassab, as “Ciclovias”, bem como outras políticas de convivência urbana, também contribuíram para a melhora na imagem do atual. Ainda insuficientes para firmarem o desempenho de um governo, mas simpáticas e necessárias.
Ocorre que, para transformar positivamente a vida dos cidadãos em uma cidade com a dimensão de São Paulo, é necessário muito mais que discursos modernos ou intervenções pontuais. É necessário realizar mudanças estruturais em serviços e políticas públicas, bem como mudar a lógica de apropriação do Capital. E isto não se fez e, muito provavelmente (visto que os dias de gestão da prefeitura agora são contados em ordem decrescente), não se fará. O transporte público segue caro e de má qualidade, ainda organizado sob a lógica da maximização dos lucros das empresas e máfias do transporte. Os corredores de ônibus ainda não foram construídos e as faixas exclusivas, se agilizaram um pouco o tempo da viagem dentro dos veículos, não resultaram em ganho global de tempo para os passageiros, pois a espera em pontos de ônibus aumentou, uma vez que a quantidade de veículos continua a mesma, ou até caiu. O mesmo ocorre com a lógica da Limpeza Urbana, em que a reciclagem em colaboração com catadores segue em ritmo lento, exatamente para não prejudicar o lucro das empresas, que ganham por tonelagem de lixo recolhido. Tampouco houve grandes obras ou políticas de referência (um parque nas margens do rio Tietê, por exemplo) para mudar a lógica da cidade. Na Educação, porém, o desempenho da prefeitura era de razoável para bom, sendo que o secretário era bem considerado no meio.
Com a mudança na secretaria de educação e o acordo prévio e escancarado com o PMDB e Chalita, a “jogada” apontou um sentido inverso. Para quem vive alienado no “mundo da política” e no “jogo do poder”, talvez a iniciativa seja encarada com naturalidade, mas para quem defende e pratica os princípios do Cidadanismo e do Bem Comum, esta conduta jamais poderá ser aceita. É um despudor! Primeiro porque revela um total descompromisso com a Educação, e praticado por um ex-ministro da Educação. Afora os inúmeros processos por improbidade, o Sr. Chalita, quando tucano, no governo do estado, teve sua política criticada pelo próprio ex-ministro Haddad, em que os índices de desempenho educacional faziam (e ainda fazem) São Paulo figurar atrás do décimo lugar entre os estados brasileiros, além dos baixos salários dos professores. Segundo, porque caminha na contramão de qualquer discurso ou prática moderna, de nova cultura política; é um “toma lá dá cá” deslavado e só isso. Não há nenhum interesse público por trás desta medida, apenas o de se perpetuar no poder e galgar postos e mais postos para ter mais poder e mais nada.
De fato, o exercício do Poder, sobretudo nos tempos atuais, em que a apropriação do Estado por CASTAS partidárias e econômicas tem revelado práticas cada vez mais reles e mesquinhas, tem apequenado seus personagens, mesmo quando inicialmente bem formados e bem intencionados. É isto que revela mais esta “Jogada de mestre” na política paulistana, que em nada difere de outra “jogada” absolutamente igual, praticada pelos ex-prefeitos Serra e Kassab, quando o primeiro foi eleito para, com pouco mais de um ano no exercício do cargo, deixar a função ao vice e assim garantir apoio para que se tornasse governador. Tudo igual, só mudam os rostos. Triste. Mas há que ver se, desta vez, a esperteza demais não matará o esperto.



No artigo

x