Filme “Depois da Chuva” aborda redemocratização com perspectiva libertária

Longa-metragem retrata transição da ditadura à democracia a partir da perspectiva de um jovem em formação que vive entre teses anarquistas em um dos períodos mais marcantes da história brasileira

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Longa-metragem retrata transição da ditadura à democracia a partir da perspectiva de um jovem em formação que vive entre teses anarquistas em um dos períodos mais marcantes da história brasileira

Por Marcelo Hailer

Estreou na última sexta-feira (16) o longa metragem Depois da Chuva, dirigido por Claudio Marques e Marília Hughes e que aborda a redemocratização do Brasil a partir da eclosão das Diretas Já. Momento pouco retratado no cinema, o longa trata da transição da ditadura à democracia a partir da perspectiva de Caio (Pedro Maia), jovem em formação que vive entre teses anarquistas em um momento de mudança no país.

Depois da Chuva se destaca por alguns motivos. Primeiro, porque retrata um tema pouco abordado no cinema brasileiro: o momento da transição à democracia, a campanha das “Diretas Já” e por meio do olhar de um jovem que, em um primeiro momento, rejeita as ideias de democracia representativa, pois, a identifica como uma farsa.

“No filme, Caio é um jovem em formação. Curioso, inteligente, ele se sente estimulado e à vontade no casarão de artistas anarquistas. Caio vai experimentar um pouco de tudo até finalizar a sua própria transição”, diz à Fórum o diretor do longa Cláudio Marques, que escreveu o roteiro inspirado em parte de sua juventude.

Apesar do filme retratar a transição política que se deu durante nos anos 1980, Depois da Chuva dialoga diretamente com temas que estão sendo debatidos na contemporaneidade política do Brasil, tais como crise da democracia representativa e a busca por novas formas de fazer política.

“Quando ainda escrevíamos o filme, refletíamos: ‘será que esse filme vai soar datado? Será que vão compreender que o que demandávamos nos anos 80 ainda está a ser alcançado plenamente?’. E em 2013, quando já tínhamos filmado, vieram as grandes manifestações de junho. Ali, percebemos que a insatisfação que sentíamos era algo partilhado por boa parte da nação”, observa o diretor Claudio Marques.

Fórum – A maioria dos filmes brasileiros aborda os Anos de Chumbo da ditadura. Em Depois da Chuva o centro da história é a redemocratização do país. Por que resolveram abordar este momento?

Cláudio Marques – O fato do cinema brasileiro de ficção não ter se debruçado sobre esse período de transição nos chamou bastante a atenção. Queríamos lançar um olhar crítico sobre um momento da história do país que é fundamental para que seja possível compreender o Brasil de hoje.

Fórum – O cenário político é abordado a partir da perspectiva juvenil de Caio. Por que esta opção?

Marques – Depois da Chuva é um filme de inspiração autobiográfica, que tem como ponto de partida as vivências de Cláudio Marques, co-diretor e roteirista, que viveu a sua adolescência nos anos 80. Ao tratarmos o cenário político a partir da jornada de um jovem buscamos evitar qualquer didatismo em relação àquele período. O que nos interessou foi trazer a atmosfera de mudança que tomou o país, capaz de potencializar as experiências de um jovem, que vivia a sua jornada particular, marcada por descobertas políticas e amorosas, naquele período.

Fórum – Outro fator muito interessante do filme é a abordagem e contraponto entre as teses anarquistas e comunistas. O filme nos conduz a uma transformação do personagem, na qual ele passa a crer no processo em curso no país, ou seja, de que a democracia eleitoral e representativa pode ser uma alternativa. Gostaria que você comentasse um pouco desse conflito existencial dos personagens.

Marques – No filme, Caio (Pedro Maia) é um jovem em formação. Curioso, inteligente, ele se sente estimulado e à vontade no casarão de artistas anarquistas. Caio vai experimentar um pouco de tudo até finalizar a sua própria transição. Ele não é como Tales (Talis Castro), um libertário convicto, romântico, que não vai negociar com ninguém. Tales irá até o final, sem medir as consequências. Devemos lembrar que os anos 80 representam o momento final das grandes ideologias, das grande utopias. Tales, e o destino dele no filme, representam esse instante derradeiro.

O momento em que Caio se vale de um argumento nitidamente marxista em contraposição ao anarquista Talis reforça a luta pelo poder entre os dois. A cena da arma, que é anterior ao embate entre os dois, sinaliza o desejo que Tales tinha que o mais jovem se transformasse em uma espécie de “sucessor”. Mas Caio mostra que ele quer e pode trilhar os próprios caminhos.

Fórum – Ainda que o longa se passe no início dos anos 1980, ele traz questões que estão aí: democracia representativa em crise e a busca por novas ideias no mundo da política. Essa era uma intenção do filme?

Marques – Quando ainda escrevíamos o filme, refletíamos: “será que esse filme vai soar datado? Será que vão compreender que o que demandávamos nos anos 80 ainda está a ser alcançado plenamente?” E em 2013, quando já tínhamos filmado, vieram as grandes manifestações de junho. Ali, percebemos que a insatisfação que sentíamos era algo partilhado por boa parte da nação. Não era um sentimento nosso, apenas. Ali, tivemos a convicção que Depois da Chuva poderia auxiliar no debate político, sobretudo por abordar a questão do ponto de vista de jovens.

Algo que eu gosto de enfatizar, também, é que Depois da Chuva é um filme político, mas no qual a política está a serviço do cinema e não o contrário. Não se trata de um filme didático ou repleto de teses. É um filme com um determinado ponto de vista, mas que possui muito espaço para interpretações do espectador.

Foto: Divulgação



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