“O Jogo da Imitação”: ética e ciência em tempos de guerra

(Divulgação) O cinema desempenha hoje o papel que um dia foi da literatura: o de revelar e reproduzir os...

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(Divulgação)

O cinema desempenha hoje o papel que um dia foi da literatura: o de revelar e reproduzir os valores vigentes na sociedade que o produz, educando a memória coletiva e sedimentando um sentimento de unidade cultural.

Comento hoje um dos indicados ao Oscar 2015: O Jogo da Imitação, cinebiografia de Alan Turing (se você não gosta de spoilers, não leia este texto antes de ver o filme).

O Jogo da Imitação não é um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, ou sobre os primórdios da computação, ou sobre a descoberta do amor homossexual entre homens, nem sobre o protagonismo das mulheres nas ciências. Todos esses temas são tocados, nenhum é desenvolvido: o filme é uma sucessão de quadros, todos muito bem feitos e acabados em si, mas sem uma linha narrativa que os conecte, a não ser o fato de serem coisas que aconteceram na vida do protagonista.

A falta de uma linha narrativa bem definida faz com que a seleção dos quadros pareça arbitrária (embora não o seja), porque o compromisso ideológico por trás de cada escolha não é assumido. Longe de querer esgotar as possibilidades de leitura do filme, levanto três pontos para discussão.

1) O filme é ambíguo – insuficiente – na forma como representa o pioneirismo de Joan Clarke: se tomarmos o filme como único referencial, ignorando a correspondência com os “fatos”, Joan é uma mocinha inglesa que por acaso é boa com palavras cruzadas e que consegue entrar e se manter no projeto Enigma graças à generosidade e à condescendência de Alan.

Vemos isso na primeira cena em que ela aparece, depois de trinta minutos de filme, em que nenhuma menção é feita ao fato de Joan já trabalhar com matemática em Cambridge. O conflito entre Joan e o caricato guarda que a confunde com uma secretária só é resolvido quando Alan interfere (interrompe a fala de Joan). Não fosse a intervenção (tutela) do grande matemático, Joan nunca entraria para a equipe de criptografia.

Somente quando Joan se revela melhor (não igual) que seus concorrentes homens ela passa a “merecer” a total atenção de Alan, que a enxerga como uma mente semelhante. Mas, para os efeitos “sociais”, a tutela continua: a negociação para que a cientista trabalhe em Bletchley Park é feita entre Alan e os pais dela, e o pedido de casamento dele é uma generosa oferta para que ela se torne respeitável aos olhos da sociedade.

Como essa jovem que (no filme) deixa seu futuro ser decidido pela boa vontade dos homens que a cercam, que aprendeu a ser simpática porque, por ser mulher, não tem plena liberdade para ser super-inteligente, ácida, levemente sociopata e excêntrica (tudo o que a cultura pop cultua nas mentes brilhantes) se transforma, de uma hora pra outra, em alguém capaz de enfrentar Alan e continuar no projeto contra a vontade dele?

Não sabemos. O processo de amadurecimento de Joan nos é negado, e por isso o seu discurso feminista diante de um Alan Turing que tenta tirá-la de Bletchley (para paternalmente protegê-la), mesmo sendo a melhor cena de Keira Knightley, é incoerente com o desenvolvimento da personagem até ali.

Ainda que possa ser um sinal de mudança nos discursos de representação da mulher no cinema – afinal, Joan é parceira e não amante de Alan –, a caracterização de Joan me soa como um prêmio de consolação para as feministas, que diz “somos tão legais que não apagamos completamente o seu gênero da história: reservamos para ele o honroso lugar de coadjuvante, não precisa agradecer”.

2) A questão ética sobre as decisões difíceis sobre quem morre e quem vive na guerra é resolvida com o insosso “eu não posso te julgar”, proferido pelo responsável pelo interrogatório de Alan Turing no pós-guerra. A cena em que Peter pede aos colegas que salvem seu irmão é uma das melhores e ilustra bem o conflito, ainda que não o desenvolva.

Graças à consequência positiva dos seus atos, a omissão dos cientistas é perdoada pela História e pela audiência. Está assim legitimada a exceção do julgamento moral e ético das ações individuais em tempos de guerra: tudo bem não impedir a morte real, evitável e próxima de uma meia dúzia de soldados que iriam morrer de qualquer jeito, se no fim das contas nós salvarmos não sei quantos milhões de vidas hipotéticas em um futuro desconhecido. Haverá sempre quem calcule o número de vidas hipotéticas salvas, e esse número sempre será muito maior do que o de vidas reais perdidas, para equilibrar a balança.

A guerra exige esse tipo de decisão difícil – e quem melhor para decidir do que um cientista racional que se orienta apenas pela lógica e não se deixa abater por rompantes de compaixão e empatia humana? Quem melhor para decidir isso do que uma máquina que se baseia em cálculos precisos e não sente remorso, essa falha que nos enfraquece?

Legitimar esse tipo de discurso é preparar a memória coletiva para os assassinatos que ainda virão em nome de “bens maiores”, entorpecer a sensibilidade de quem assiste, minimizar a crueldade das mortes que poderiam ter sido evitadas mas são contabilizadas como danos colaterais. Assim, vidas são perdidas por palpites baseados em probabilidade e estatística – mas, em contrapartida, a tecnologia avança a passos largos – e isso também contribui para essa não-discussão das implicações éticas dos atos de guerra.

3) As críticas feitas até aqui em nada tiram o mérito d’O Jogo da Imitação por relativizar o embate  “tirania versus liberdade” que a historiografia consagrou no registro da Segunda Guerra Mundial.

O que chocou o mundo ocidental no modus operandi nazista foi a eficiência e a proximidade do extermínio em massa e não a descriminação de origens étnicas e comportamentos sociais em si. Judeus, homossexuais e ciganos continuaram sendo perseguidos sob outros regimes “libertários” e “tolerantes”; o genocídio continuou acontecendo na Ásia e na África, sem que o “Ocidente livre” se mobilizasse efetivamente para impedi-lo.

Na Inglaterra pós-guerra ser homossexual era crime. Turing foi denunciado e condenado a se submeter a uma tratamento hormonal – a castração química (ainda hoje sugerida como uma pena alternativa à prisão de criminosos sexuais). Afinal o mundo livre não era tão livre assim.

Na última cena do filme, vemos o grande, vaidoso, brilhante Alan Turing reduzido a uma sombra – numa comovente interpretação de Benedict Cumberbatch. Turing está sozinho, e o que o mantém lúcido são suas duas paixões, ambas de nome Christopher.

O discurso motivacional de Joan é patético e um sinal dos valores questionáveis que cultuamos. A frase “Às vezes as pessoas que ninguém imagina que poderiam fazer algo são as que fazem coisas que ninguém poderia imaginar” é aqui repetida pela terceira vez, uma frase que nada teria de mal, não fosse ela deixar implícito que é perfeitamente normal que ainda existam pessoas no mundo de quem não se espera nada.

A julgar pelo discurso de Joan (com a vida estabilizada e dentro da “normalidade”, ela passa a ser a condescendente, ele agora é o marginal), Alan Turing não tem porque estar deprimido: deixará um legado para o mundo, salvou vidas, acabou com a guerra, garantiu a vitória aos Aliados, criou um campo de pesquisa, honrou seu país. Um dia ganhará o perdão da Rainha, um dia terá sua vida filmada, um dia será conhecido como o pai da computação moderna em todo o mundo. É uma pena que não viverá para ver isso, morrerá como um desajustado social e criminoso, sozinho, triste, esquecido: viva o Ocidente livre e a sua tradição de matar homens para transformá-los em heróis.



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