O veto de Dilma e a hora dos cartolas assumirem responsabilidades

A queda da proposta generosa de refinanciamento das dívidas dos clubes traz a oportunidade de se fazer uma discussão mais ampla sobre o fortalecimento do futebol brasileiro. É hora dos dirigentes serem cobrados não somente pelo que fazem pelos times que dirigem, mas pelo...

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A queda da proposta generosa de refinanciamento das dívidas dos clubes traz a oportunidade de se fazer uma discussão mais ampla sobre o fortalecimento do futebol brasileiro. É hora dos dirigentes serem cobrados não somente pelo que fazem pelos times que dirigem, mas pelo que podem fazer pelo esporte

Por Glauco Faria

O veto da presidenta Dilma Rousseff à emenda incluída pelo deputado Jovair Arantes (PTB-GO) à Medida Provisória 256, que garantia aos clubes de futebol a possibilidade de pagar suas dívidas com a União em um prazo de 20 anos, sem contrapartidas, é um caso emblemático que diz muito a respeito de como se dão as relações do futebol com a política no Brasil. E também sobre como os cartolas dos times daqui lutam para fugir de suas responsabilidades.

Em 2014, muito em função das críticas em relação à realização da Copa do Mundo no país, Dilma buscou um movimento de aproximação e diálogo que acabou deixando à margem a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Realizou encontro com editores e jornalistas esportivos e também se reuniu com o Bom Senso FC, associação que congrega jogadores de futebol que buscam mudanças na modalidade. O governo também participou das discussões sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que pretende estabelecer uma solução financeira para a crise econômica vivida pelos clubes, contanto que eles se adaptem a determinadas normas de gestão financeira e de responsabilidade fiscal.

Como se trata de uma discussão difícil, que pode resultar em punições como o rebaixamento para clubes que não honram compromissos como o pagamento de atletas e funcionários, por exemplo, a chamada bancada da bola resolveu tentar dar um chapéu no processo de diálogo, empurrando goela abaixo um refinanciamento generoso, sem sanções. Para isso, o deputado Arantes, ex-presidente do Atlético-GO, incluiu a proposta em uma MP que, no Legislativo, se tornou um festival de isenções e benefícios tributários a diversos setores, graças a emendas parlamentares de todo tipo.

O veto é um alento para quem torce por um futebol mais forte no país, que ainda vive sob a sombra dos 7 a 1 da Copa, resultado que deixou à mostra as chagas da desorganização do esporte nacional. Também é positivo o fato de se formar um grupo interministerial que envolve as pastas do Esporte, da Fazenda, da Justiça, da Previdência Social e Casa Civil da Presidência da República, além de se ouvir representantes do Bom Senso Futebol Clube, dando à associação legitimidade para discutir o tema. Trata-se de uma diferença importante em relação ao que já foi feito na área.

Em 2007, o presidente Lula instituiu a Timemania, uma nova loteria que tinha como objetivo auxiliar os clubes no pagamento de suas dívidas com a União. Em troca do uso de sua imagem, os times passaram a receber 22% do valor das apostas para honrar pendências previdenciárias e tributárias. No entanto, com a arrecadação mais baixa do que o esperado e sem exigir contrapartidas mais efetivas em relação à governança, a Timemania teve pouco efeito prático. No início do ano passado, dos 55 clubes que haviam aderido à loteria, 20 estavam excluídos por inadimplência e atraso.

Um primeiro passo de muitos

Os 12 maiores clubes brasileiros de futebol devem, juntos, R$ 1,59 bilhão à União, o que não incluiu débitos de outra ordem com o poder público, como tributos estaduais e municipais. De acordo com estimativas do governo federal, o total devido por todos os clubes pode chegar a R$ 3,7 bilhões.

Mas, obviamente, não é a União a única credora dos times. Segundo dados da consultora BDO referentes ao ano de 2013, o total devido pelos 24 maiores clubes era de R$ 5,682 bilhões de reais. E se boa parte desse endividamento foi feito no passado, em função de gestões temerárias de dirigentes, outro número mostra que os atuais cartolas não são exemplo de bons gastos. De 2009 a 2013, os clubes aumentaram suas dívidas em R$ 2,8 bilhões, quase metade do montante apurado.

Ou seja, um refinanciamento sem qualquer tipo de compromisso por parte dos clubes não tende a melhorar a situação deles e do futebol de uma forma geral.

Sob o comando da CBF, o futebol brasileiro continua com competições quase sem visibilidade no exterior, com público abaixo de campeonatos nacionais como o dos EUA e de outros países com pouca tradição na modalidade. Também nesse cenário, os dirigentes de clubes têm responsabilidade direta.

Ainda que tenha havido aumento de receitas vindas de outras fontes, como licenciamento de produtos, utilização de estádios para outros fins que não o esportivo e programas de sócios e sócios-torcedores, à medida que as receitas têm aumentado, também crescem em maior grau as despesas. Práticas de gestão destinadas ao fracasso também persistem, como dirigentes emprestando dinheiro para seus próprios clubes, o que se torna um problema quando se troca o grupo que está no comando.

Os direitos de transmissão de televisão também aumentaram em valor nos últimos anos, mas menos do que poderiam. Com a dissolução do Clube dos Treze, movida pela ganância de alguns cartolas e também pela subserviência à Globo e à CBF, os times se enfraqueceram como coletivo, e a ideia de formação de uma liga, que poderia fortalecer o conjunto das equipes, não é algo que se vê no horizonte.

O que a visão limitada dos dirigentes não alcança é que o fortalecimento do futebol passa pelo empoderamento dos principais clubes, mas também dos médios, que hoje se distanciaram ainda mais dos grandes por conta da assimetria que se agravou com as negociações individuais. Sem que se leve em conta o mérito desportivo, no caso, a classificação de um time em uma competição como fator de aumento do recebimento dos direitos de TV, ainda que sejam bem sucedidos em competições, equipes de menor expressão estão fadadas a não repetir o desempenho, já que não haverá recursos para “segurar” seus principais atletas.

Ao mesmo tempo em que a fórmula fortalece as principais camisas do futebol brasileiro em relação às demais, ela não os favorece diante dos grandes ou mesmo médios da Europa. A associação com empresários e grupos econômicos que se tornam “parceiros” de clubes na aquisição de direitos federativos de atletas faz com que o lucro nas negociações de jogadores para o exterior diminua. E que não se culpe a Lei Pelé, resultado da adequação obrigatória da legislação brasileira ao fim da Lei do Passe, em função do caso Bosman. Como disse aqui o consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi, “a lei foi publicada em 1998 e entrou em vigor em março de 2001, ou seja, houve tempo para os clubes se prepararem, mas eles não o fizeram”.

É hora de os dirigentes de clubes assumirem suas responsabilidades. E de serem cobrados não somente pelo que fazem pelos times que dirigem, mas pelo que fazem – ou deixam de fazer – pelo futebol.

Foto:  Lucas Uebel/ Grêmio FBPA



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