E viva a burocracia!

Uma crônica que, apesar de relacionada ao transporte público em São Paulo, se refere mesmo é à burocracia, às vezes excessiva no Brasil

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Uma crônica que, apesar de relacionada ao transporte público em São Paulo, se refere mesmo é à burocracia, às vezes excessiva no Brasil

Por Mouzar Benedito

Empresas de ônibus urbanos de São Paulo estão ganhando mais do que deviam, diz um estudo encomendado pela prefeitura, que prepara novas licitações prevendo ganho menor.

Esta é uma questão que interessa a todo mundo que mora na cidade, mesmo quem não usa ônibus. Basta lembrar as manifestações de junho de 2013, que tiveram como causa inicial o aumento do preço da passagem. Interferiram na vida de todo mundo.

Mas antes mesmo dessa nova licitação a passagem já teve seu preço aumentado de R$ 3,00 para R$ 3,50 e novos protestos vêm acontecendo, sem as proporções de 2013.

Tenho flashes de memória que me fazem lembrar de coisas, às vezes “coisinhas”, de muito “antigamente”. E um desses flashes me levam a um tempo de molecão de 16 anos, quando cheguei para morar em São Paulo, em 1963, e o preço da passagem de ônibus era dez cruzeiros. Tinha também o bonde, que era mais barato: sete cruzeiros. O salário mínimo na época tinha ido para 21 mil cruzeiros. Façam as contas: um salário mínimo equivalia a 2.100 passagens de ônibus ou três mil de bonde.

É certo que os ônibus eram muito mais precários, quase sempre velhos, o combustível era muito mais barato e talvez os gastos com salários de motoristas e de cobradores, incluindo os custos de previdência e outros, também fossem menores. Mas, caramba! Vamos supor que os custos do transporte público tenham aumentado tanto que justificassem um preço maior e hoje o salário mínimo “comprasse” apenas quinhentas passagens de ônibus. Teria que ser um salário mínimo de R$ 1.750,00.

Se hoje está assim, já foi pior: houve época em que um salário mínimo não dava para pagar nem cem passagens de ônibus. Aí criaram o vale-transporte, pois não dava para um assalariado desses ir trabalhar pegando dois ônibus para ir e dois para voltar. Aliás, o achatamento do salário mínimo fez surgir também o vale-refeição, pois o trabalhador não ganhava o suficiente para almoçar num boteco. Cheguei a ver marmita de operário que tinha só sopa de fubá. Uma solução boa para os patrões: quem paga a maior parte desses vales é o governo. E quando o trabalhador se aposenta perde esses penduricalhos, seu salário, além do maldito fator previdenciário (que os tucanos se esquecem que foi criado por eles, e os petistas mantêm a maldição), tem essa perda e também o plano de saúde.

Bem, independente do poder de compra do salário mínimo, a passagem de ônibus é cara. Os donos de empresas de ônibus urbanos de São Paulo sempre reclamaram que seus lucros são baixos, mas eles são cada vez mais ricos. Um deles até criou uma empresa de aviação, a Gol. Haja grana!

Mas isso tudo me faz lembrar de uma história que, apesar de relacionada ao transporte público em São Paulo, refere-se mesmo é à burocracia, que é demais no Brasil. Produzimos uma papelada imensa que muitas vezes não serve para nada.

Há décadas, no milênio passado (já podemos dizer isso, hein?!) trabalhei como técnico em contabilidade na Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo, que, entre outras coisas, indicava ao prefeito o custo real das passagens de ônibus, levando em conta todas as despesas, incluindo desgaste dos veículos. Só que na hora dos reajustes valiam mais os interesses do prefeito e seus amigos empresários.

Poderia ter ficado lá até me aposentar como funcionário público, mas comecei a pensar seriamente em pular fora depois que foi transferido para a minha seção um funcionário com quase trinta anos de carreira.

Coitado! Nunca vi tantos tipos de neurose e tantas manias num sujeito só. Uma das suas manias era que colegas não gostavam dele. Se alguém o cumprimentava sorrindo, pensava que era algum tipo de gozação. Se o cumprimentavam sério ou não o cumprimentavam, interpretava como rixa. E ele era ligado demais à questão da burocracia. Era meticuloso em relação a papéis, à coisa de achar que para tudo tinha que ter um papel escrito e carimbado. Carimbos são outra marca desses cargos.

Eu via o sujeito todo complicado e pensava: “Não quero ficar assim”. Arrumei outros defeitos, talvez outras neuroses, mas escapei dessas ligadas a um cargo que exige comportamento de burocrata.

Minha função era analisar a contabilidade de empresas de ônibus, fazer um relatório detalhado e arquivar nas pastas das respectivas empresas, para que – se fosse o caso – a prefeitura aprovasse a conta das empresas ou lhe multasse ou tomasse atitudes mais drásticas por motivo de sonegação de impostos, sonegação de receita ou seja lá o que fosse.

A sede da Secretaria era na avenida Prestes Maia, perto da Estação da Luz, num prédio de uns vinte andares que depois foi todo desocupado, não sei porquê, e mais tarde ocupado por sem-tetos. Um sem-teto, por sinal, tornou-se célebre: era um carroceiro que começou a juntar e ler livros jogados fora e catados por ele, e acabou criando uma biblioteca de milhares de volumes no prédio, acessível a todos os moradores dele e até da vizinhança. Pena que esses moradores acabaram despejados.

A cada dia, saíamos – era uma equipe com mais de dez técnicos em contabilidade – em direção aos escritórios de algumas das 75 empresas de ônibus urbanos que existiam na cidade, fora a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos.

Um parêntese aqui: a CMTC era uma empresa vinculada à Secretaria Municipal de Transportes, então o secretário era um “superior” do presidente da empresa. Mas quando Maluf tornou-se prefeito nomeado pela ditadura, colocou como secretário dos transportes um coronel do Exército, e como presidente da CMTC um general, então a coisa embolou, pois o general não aceitava ordens do secretário, que era um oficial menos graduado.

Voltando ao meu trabalho, uma das empresas que ficaram sob a minha responsabilidade foi a Viação São Benedito Ltda., que nem sei se ainda existe.

Quando completava três anos e meio no emprego, pedi demissão. No penúltimo dia de trabalho, fui à Viação São Benedito. Não havia nenhum problema na contabilidade, mas tive que fazer o relatório extenso assim mesmo, no dia seguinte. Datilografei e, quando ia entregar para a secretária arquivar, vi que tinha escrito no lugar destinado ao nome da empresa “Viação São Benedito da Silva”. Troquei o “Ltda.” pelo “da Silva”. É que, nas poucas vezes escrevia o nome Benedito, quase sempre era quando escrevia meu próprio nome, Mouzar Benedito da Silva. Daí o ato falho.

Corrigi meu erro, rindo, e fui eu mesmo colocar o relatório na pasta da empresa. Aí vi que todos os relatórios dos meus anos de trabalho ali tinham como nome da empresa “Viação São Benedito da Silva”. Pasmo, perguntei a mim mesmo: pra que escrevi isso tudo? Ninguém leu. Nem sequer abriram a pasta, pois teriam visto o “da Silva”.

Pra não dizer que foi um trabalho inútil, serviu pra eu escrever esta crônica, não é? Obrigado, burocracia.

(Foto Pixabay)



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