Grécia: dois dias para o Syriza e o pânico da elite

Nesse domingo (25), os gregos irão às urnas para decidir o futuro de seu país. Com todos os sinais apontando para a vitória do partido de esquerda Syriza, quais serão os grandes desafios à frente do partido que pode se tornar um símbolo na...

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Nesse domingo (25), os gregos irão às urnas para decidir o futuro de seu país. Com todos os sinais apontando para a vitória do partido de esquerda Syriza, quais serão os grandes desafios à frente do partido que pode se tornar um símbolo na Europa devastada socialmente pelas medidas de austeridade pós-crise de 2008?

Por Dick Nicholes, em Green Left Weekly | Tradução: Vinicius Gomes

ATENAS – Durante os dias precedendo as eleições gerais na Grécia, nesse domingo (25), todos os sinais apontam para a vitória da Coalizão Radical da Esquerda, ou apenas Syriza, liderada por Alexis Tsipras. A maior pergunta feita é se o partido irá conquistar uma maioria absoluta dos 300 assentos no parlamento grego – o livrando de ter que negociar com os partidos minoritários e acabando de vez com as chances de uma futura eleição nacional, caso as negociações fracassem.

Todos os atores políticos na Grécia estão se comportando como se o Syriza irá, de fato, vencer. A campanha do partido de situação, o Nova Democracia (ND), do primeiro-ministro Antonis Samaras, tem sido fraca, com quase nenhuma propaganda da legenda pelas ruas. Em 16 de janeiro, o jornal Ta Nea, o mais próximo ao governo Samaras, finalmente concedeu uma entrevista de duas páginas à Tsipras – uma admissão que o Syriza pode realmente ter um papel importante a desempenhar na política grega.

O Syriza conquistará a maioria dos assentos parlamentares se tiver de 35% a 39% dos votos, com a exata porcentagem dependendo da distribuição dos votos remanescentes entre os partidos menores e o ND. Se o Syriza realizar esse feito, ele conseguirá governar o país sozinho, uma vez que o sistema político grego concede 50 assentos extras ao partido que conquistar essa quantidade de votos.

Com diversos partidos pequenos – incluindo o moribundo social-democrata PASOK e a esquerda-democrata DIMAR (uma dissidência à direita do Syriza) – encarando reais possibilidades de extinção se tiverem menos que os 3% mínimos para uma representação parlamentar, um possível surto de apoio ao Syriza vindo dos “votos úteis” pode acontecer.

Os esforços das elites na Grécia e no resto da Europa estão sendo direcionados a bloquear esse resultado. Um governo do Syriza sem “rabo preso” seria mais difícil de ser assediado pela Comissão Europeia e o Banco Central Europeu (BCE); eles estariam livres para serem um símbolo que pode inspirar as pessoas em outros países sofrendo com a austeridade econômica, começando com a Espanha e Portugal.

A campanha do medo fracassando

Os últimos dias da campanha midiática do ND trouxe novos traços da histeria anti-Syriza. O objetivo era de causar pânico nos eleitores de direita, inclinados a se abster de votar a fim de salvar a Grécia, não apenas de uma mítica saída grega da zona do euro, mas também da “bolchevização” ou “sovietização” do país (o correspondente europeu ao temido “bolivarianismo” no Brasil).

A propaganda do ND não apenas tentou resgatar os pesadelos da guerra civil grega (1946-49), como tentou também explorar os recentes ataques em Paris, além de alegarem que a política imigratória do Syriza iria deixar o país “sem defesas”. Nem mesmo a pressão vinda de Bruxelas (sede da União Europeia) ou de Berlim foi sutil; o governo alemão recuou de suas declarações iniciais de que uma Grécia liderada pelo Syriza forçaria o país a deixar a zona do euro. Porém, em 21 de janeiro, o BCE concordou com um pedido dos bancos privados gregos para uma linha de fundo de emergência para evitar qualquer dano após 25 de janeiro, mas apenas por 15 dias. A resposta do BCE – um dos integrantes da “Troika”, junto da União Europeia e do FMI, que impôs a infame austeridade à Grécia – foi simples: “Não espere que nós o ajudemos por muito tempo se um governo Syriza se comportar mal”.

Nada disso terá qualquer impacto naqueles que já decidiram votar no Syriza, o que inclui muitos antigos eleitores do ND, PASOK e até mesmo do partido neonazista Aurora Dourada. Após dois anos e meio da implantação das medidas de austeridade do governo de coalização ND-PASOK, que criou uma catástrofe social, eles estão vacinados contra os disseminadores de medo da direita. Ao invés disso, o perigo para os partidos de direita e seus patrocinadores é que de 8% a 10% dos indecisos serão capturados no último momento pelo Syriza, com sua mensagem de “a esperança está a caminho”.

Para se ver o quão contagiosa pode ser a mensagem do Syriza, basta observar o último comício do partido em Atenas, ontem à noite.

A campanha do Syriza

No cenário político da Grécia, a campanha do Syriza foi um fenômeno. Primeiramente, porque o programa do Syriza é concreto, modesto e imediato; em termos econômicos é bem exequível – apesar das alegações do Samaras e do primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy afirmarem que suas promessas são impossíveis. Seu ponto de partida é um plano emergencial de apoio para a maioria das pessoas afetadas pela crise econômica de 2008.

Em segundo lugar, ela dá respostas às raízes da situação econômica da Grécia: sua impagável montanha de dívidas e o nível de colapso nos investimentos público e privado – e propõe soluções que já funcionaram no passado. Isso inclui a renegociação da dívida, como aconteceu com a Alemanha pós-Segunda Guerra, em 1953, e maiores investimentos públicos, seguindo a linha do New Deal nos Estados Unidos, na década de 1930, e que foi financiada por aqueles que podiam pagar.

Quando Tsipras explica esse plano para tirar a Grécia do desastre econômico e desesperança social em que ela se encontra, que pessoa razoável iria discordar? Quando ele explica que o programa pode ser financiado pelos grandes proprietários de navios e de meios de comunicação, com eles pagando seus impostos pela primeira vez – quem, exceto um pequeno grupo de hiper-ricos, poderia discordar de maneira racional?

Na realidade, ao invés de prometer o mundo e não entregar nada – a la ND e PASOK -, o Syriza enfatiza que atingir seus objetivos é impossível sem uma participação ativa de sua base de apoio, as contínuas intervenções dos movimentos sociais e uma democratização radical das estruturas estatais da Grécia. Dessa maneira, o Syriza tem conseguido construir seu apoio além das fileiras tradicionais da esquerda que lhes deu apenas 4% dos votos antes da crise explodir em 2008.

Agora, de acordo com o comentarista Yiannis Mavris, na esteira das grandes conquistas eleitorais em 2012 e no 2014, “o Syriza está sendo bem sucedido em conquistar e absorver um segmento significativo dos votos daqueles, que em 2012, foram para outros partidos de direita”.

“Ao mesmo tempo”, Mavris diz, “os eleitores que até as eleições europeias continuaram com suas reservas sobre a capacidade do principal partido de oposição em governar, parecem estar convencidos do contrário”. Também, “devido a enorme crise e dissidências dos partidos de centro-esquerda (PASOK, DIMAR), uma porção significativa da base eleitoral dos dois partidos está recorrendo ao Syriza”.

Nikos Xydakis, outro comentarista político que defende o Syriza, argumenta que um grande número de pessoas com ideias conservadoras votarão no Syriza por conta da dignidade. “É uma questão de dignidade e orgulho nacional”. Xydakis afirma que “eles acreditam que o país virou uma colônia da dívida, eles acreditam que o Estado age como um tirano e coletor de impostos e não oferece nada em troca”, por isso que o comentarista diz que até mesmo os conservadores irão se arriscar por uma mudança e votarão no Syriza”.

A campanha também é marcada pela personalidade engajada do Tsipras. Ele não possui um estilo político tradicional dos clássicos patriarcas gregos, e sim o de um “jovem rapaz agradável”, que está sempre preparado para explicar pacientemente e responder qualquer dúvida: alguém que muitas pessoas sentem à vontade para convidá-lo a um jantar.

Desafios

É difícil subestimar os desafios que o Syriza terá de encarar governando a Grécia, até mesmo com uma maioria absoluta. Como disse um partidário da sigla, “vencer as eleições será apenas uma das batalhas de uma longa e dificil guerra”. Os inimigos espreitam por todos os lados.

Existem rumores de que os cabeças do aparato estatal, uma amálgama de indicações da ND e PASOK, já estão preparando suas operações sombrias. Existe também a expectativa de que muitos eleitores, ansiosos por um retorno à qualidade de vida pré-2008, possam ficar contra, uma vez que a corrupção dos velhos partidos seja extirpada.

Ainda assim, todos os economistas pró-Syriza estão avisando que reconstruir uma economia que crie empregos e um futuro para os jovens gregos levará anos de confrontos e obstáculos contra os vastos interesses das “máfias” econômicas.

Existe também a extrema-direita grega. Ela está combalida com a “decapitação legal” de muitos de seus líderes, mas está também sempre pronta para se aproveitar de qualquer decepção popular com uma administração Syriza.

Existe a necessidade também do Syriza para, cada vez mais, fortalecer sua capacidade de ajudar na construção de mobilização de massas e intervenções sociais e, assim, consolidar políticas alternativas sociais e econômicas “pró-povo”.

Mais imediata está a União Europeia, que, quando frente a um imediato corte do Syriza aos acordos gregos com a Troika, irá oferecer “concessões razoáveis” que mal afetam a economia grega escravizada pela dívida. A rejeição aos termos da União Europeia será a primeira batalha de uma guerra aberta entre o governo Syriza e Bruxlelas.

Contra esses inimigos, o Syriza terá a solidariedade e apoio do próprio povo grego e seus amigos na Europa. Os sinais vindo de Atenas, onde praticamente todos os partidos da esquerda europeia se reuniram, são que uma vitória do Syriza será a fagulha que incendiará a esperança de milhões de pessoas.

Construindo solidariedade, para que outros governos pró-austeridades na Europa não consigam apoiar ou ignorar os ataques contra um governo Syriza, sem que paguem um preço político em seus países, será um componente vital para o povo grego e um fim ao pesadelo da austeridade por toda a Europa.

Foto de Capa: Left Flank



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