“Poemas aos homens do nosso tempo”, de Hilda Hilst

Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão foi publicado por Hilda Hilst em 1974, sob a Ditadura Militar, e marca a volta da autora à poesia depois de um intenso período de teatro...

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Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão foi publicado por Hilda Hilst em 1974, sob a Ditadura Militar, e marca a volta da autora à poesia depois de um intenso período de teatro político de conscientização e resistência ao regime.

O conjunto de poemas entitulado Poemas aos Homens do nosso Tempo fecha esse volume, que traz também uma escrita ao mesmo tempo anacrônica, ou arcaica, e revolucionária: se, por um lado, as suas odes, cantigas e sonetos remetem às formas poéticas consagradas por Camões, Petrarca, pelos cancioneiros ibéricos e poetas neoclássicos; por outro, subvertem essas formas ao revelar a mulher em uma posição que sempre foi ocupada por um homem: a do poeta lírico.

A figura feminina, frequentemente inspiração, objeto ou leitora ideal na tradição lírica, em Hilst se torna voz ativa e criadora, capaz de expressar seu amor físico e ideal, a falta do amante e a memória do amor – mas, sobretudo, a sua ligação íntima com a Poesia como finalidade última do canto:

Porque tu sabes que é de poesia/Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,/Que a teu lado te amando,/Antes de ser mulher sou inteira poeta./E que o teu corpo existe porque o meu/Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,/É que move o grande corpo teu/Ainda que tu me vejas extrema e suplicante/Quando amanhece e me dizes adeus.

(Ode descontínua e remota para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio – II)

Se a mistificação do poeta eleito pode soar alienante – como se Hilst se refugiasse em um Parnaso próprio para não se envolver com problemas atuais, Poemas aos Homens do nosso Tempo revela uma consciência aguda do quadro social e político de um país em que a arte estava sob censura.

Infelizmente, “os homens do nosso tempo” de 74 ainda se parecem muito com os do nosso tempo quarenta anos depois.

Poemas aos Homens do nosso Tempo

de Hilda Hilst

O canto começa por questionar quais as verdadeiras possibilidades de intervenção política do poeta em um mundo guiado pela ganância e violência:

II

Amada vida, minha morte demora.

Dizer que coisa ao homem,

Propor que viagem? Reis, ministros

E todos vós, políticos,

Que palavra além de ouro e treva

Fica em vossos ouvidos?

Além de vossa RAPACIDADE

O que sabeis

Da alma dos homens?

Ouro, conquista, lucro, logro

E os nossos ossos

E o sangue das gentes

E a vida dos homens

Entre os vossos dentes.

 

Sem cair na melancolia niilista, o canto de Hilst vê esperança na união dos “poucos lúcidos” e no poder da palavra:

 

VIII

Lobos? São muitos.

Mas tu podes ainda

A palavra na língua

 

Aquietá-los.

 

Mortos? O mundo.

Mas podes acordá-lo

Sortilégio de vida

Na palavra escrita.

 

Lúcidos? São poucos.

Mas se farão milhares

Se à lucidez dos poucos

Te juntares.

 

Raros? Teus preclaros amigos.

E tu mesmo, raro.

Se nas coisas que digo

Acreditares.

 

Mulher solitária entre as mulheres, Hilst as desafia a abrir mão da superficialidade do consumo daquilo que vem “pronto” e fácil para investir em uma criação própria – ainda que difícil – de si mesmas:

 

XIII

Ávidos de ter, homens e mulheres caminham pelas ruas.

As amigas sonâmbulas, invadidas de um novo a mais querer,

Se debruçam banais, sobre as vitrines curvas.

Uma pergunta brusca, enquanto tu caminhas pelas ruas.

Te pergunto: E a entranha?

De ti mesma, de um poder que te foi dado

Alguma coisa clara se fez? Ou porque tudo se perdeu

É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,

Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,

Tua aventura de ser, tão esquecida?

Por que não tentas esse poço de dentro

O incomensurável, um passeio veemente pela vida?

 

Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada

De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada.

Por fim, num dos últimos cantos de Júbilo, Hilst se dirige diretamente a um “irmão do seu tempo”, e reafirma o valor de dedicar a vida a um ofício não-alienante como o de ser poeta, em oposição ao desenfreado e mesquinho desejo burguês de ter “mais ouro”.

XVI

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.

Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.

Dirás que sangue é o não teres teu ouro

E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta

O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.

Enquanto faço o verso, tu que não me lês

Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:

“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.

Irmão do meu momento: quando eu morrer

Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:

MORRE O AMOR DE UM POETA.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,

E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto

 

Não cabe no meu canto.

 

***

Hilst merece ser mais lida, dentro e fora da Academia, como um exemplo da exploração criativa das tênues fronteiras entre vida e arte, palavra e ritmo, tradição e revolução, desejo e repulsa, erotismo e política. Sejamos raros: o amor da poeta sobrevive no seu canto.

 



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1 comment

  1. Proclik Responder

    Parabéns pela resenha instigante que, certamente, me fará procurar pelo livro completo. Como observado, a autora continua muito atual.


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