Série norte-americana aborda homossexualidade no MMA

A relação entre iguais segue sendo um tabu no mundo esportivo, principalmente nas modalidades tidas como “mais viris”, tais como futebol, basquete e arte marciais

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A relação entre iguais segue sendo um tabu no mundo esportivo, principalmente nas modalidades tidas como “mais viris”, tais como futebol, basquete e arte marciais

Por Marcelo Hailer

Exibida no canal Audience Network (EUA) entre os meses de outubro e novembro de 2014, a série Kingdom chamou a atenção, inicialmente, por ter em seu elenco o cantor Nick Jonas, no papel de Nate. A produção foi ganhando audiência no famoso boca a boca e também pelos boatos em torno do personagem Nate, que seria gay, o que começou a gerar forte curiosidade, visto que na trama ele é uma promessa do MMA (Mixed Martial Arts).

A trama

A trama de Kingdom não tem nada de especial: no plano geral, trata-se da história de Alvey Kulinna (Frank Grillo) que no passado foi um grande lutador e conquistou vários títulos, porém, tornou-se dependente de drogas e viu a sua vida afundar. No presente, ele tenta se reerguer dirigindo uma academia que treina novos lutadores e é na abordagem com os personagens que circundam Alvey que a história se desenvolve.

Alvey é pai de dois filhos: Jay (Jonathan Tucker), que é o mais velho, no passado, obteve importantes vitórias, porém, se envolveu com drogas e entrou em decadência. Agora, tenta se recuperar, porém, é desacreditado entre os patrocinadores. Nate (Nick Jonas) é o filho mais novo e a grande aposta do pai e de empresários como lutador de MMA.

Completam a galeria Prince (Kiele Sanchez), companheira de Alvey e personagem central da história, visto que ela gerencia a academia e sempre intervém nos momentos de tensão familiar. E, por fim, Christina, ex-companheira de Alvey, tenta largar o vício em heroína e restabelecer a relação com os seus filhos.

Nota-se que, mesmo retratando o universo do MMA, Kingdom se destaca pela abordagem nada convencional do assunto, ao invés de exibir na tela “machos saudáveis”, o que temos são personagens destruídos pelo passado que tentam no presente se reerguer. O mesmo vale para Jay e Nate que, mesmo sendo jovens lidam com dramas. O primogênito busca se endireitar e o mais novo não sabe lidar com a sua homossexualidade, pois entende que seria uma grande “decepção” e que nenhum empresário investiria nele.

A homossexualidade no esporte

Além das micro-histórias de viés dramático denso, quando o produtor executivo e criador da série Kingdom Byron Balasco confirmou em coletiva que o personagem Nate era homossexual e que pretendia aprofundar o debate nas temporadas seguintes, abriu-se um debate: a questão da homossexualidade no MMA e entre outros esportes tidos como “virais”, tais como futebol, basquete e lutas marciais no geral. O cantor e ator Nick Jonas, conhecido pelas canções românticas e por ser de uma família religiosa, se declarou “orgulhoso” por fazer o papel por conta do seu potencial de propiciar tal debate.

No Brasil, o responsável por trazer a questão da homossexualidade dentro do MMA foi o lutador Anderson Silva que, durante entrevista ao site norte-americano Fightland, declarou que no futuro poderia se descobrir gay. “Olha, não que eu saiba. Mas eu ainda sou jovem, pode ser que no futuro eu descubra que sou gay. Cuido bem das minhas coisas. Coloco tudo numa mala, uso sabonete, boto um creme após o treinamento”. Posteriormente, ironizou o fato de se cuidar esteticamente. “As pessoas pensam que é frescura. Cada um na sua: não significa que é mais homem ou menos homem, mais ou menos gay”, criticou.

Posteriormente, Silva disse que no mundo das artes marciais os lutadores permanecem no armário. “Hoje em dia é tão bobo não expressar seus sentimentos. Contanto que você respeite os espaços das pessoas e respeite os seus limites. Você tem que viver a sua vida em paz e ninguém tem nada a ver com isso. É importante que os lutadores falem sobre a questão para que o preconceito diminua”, disse.

A jornalista Laura Gaelx Montero, do La Marea, fez um artigo onde aborda a questão de desportistas que saíram do armário e o preço que pagaram. Por exemplo, o caso de Justin Fashau, primeiro jogador a assumir a sua orientação sexual ainda em atividade no clube Premier League. À época, o seu passe valia 1 milhão de libras e a sua assunção da homossexualidade foi capa do tabloide The Sun. Montero atenta para o fato de que, depois de 15 anos apenas um jogador da primeira liga europeia saiu do armário: Thomas Hitzlsperger, meio campista alemão.

O machismo e a homofobia no mundo esportivo não são novidade e atingem até mesmo aqueles que apoiam a realização do debate, que é o caso do goleiro Manuel Neur, que joga no Bayern e atuou na seleção alemã em 2009. Ao apoiar a o debate sobre a homossexualidade, foi vítima de insultos e campanhas homofóbicas. No Brasil, há dois casos emblemáticos. O jogador Richarlyson que, mesmo sem nunca ter assumido ser homossexual, foi vítima de campanhas torpes e homofóbicas; e o selinho que o jogador Sheik, à época no Corinthians, deu em um amigo e foi, também, vítima de campanha de ódio e teve que pedir desculpas públicas.

Recentemente, as arenas do vôlei e do basquete também conheceram jogadores, ainda na atividade, que assumiram a homossexualidade. Em 2011, o jogador Michael dos Santos, do time Vôlei Futuro, saiu do armário e foi alvo de torcidas e campanhas difamatórias. Dos Santos não se intimidou e enfrentou o debate, posteriormente, até torcidas adversárias prestaram solidariedade e apoio ao jogador. Jason Collins, pivô do Washington Wizards e uma das estrelas da NBA, assumiu sua homossexualidade no ano passado e sentenciou: “Quero outros jogadores façam o mesmo”, chamando a atenção para o fato de que muitos colegas dissimulam a sua orientação sexual.

[A partir daqui, contém spoiller]

O destino de Nate

Como se vê, o mundo esportivo é ainda uma seara mergulhada no machismo e na homofobia e é justamente por isso que a série Kingdom, que chegou na televisão meio que ignorada e depois ganhou a opinião pública e audiência, ganha importância no cenário atual ao tratar do esporte que, não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil ganha cada vez mais adeptos e público.

A sexualidade de Nate, durante toda primeira temporada, é uma incógnita, apenas acompanhamos um jovem lutador que tem momentos de explosões violentas, que só será explicado no último episódio da primeira temporada quando, após beber vai para uma balada gay na região de Venice (Califónia), onde a série é situada. O episódio que fecha a temporada de estreia com o personagem tendo relações com outro garoto e fica por aí.

É a partir da segunda temporada que o assunto será aprofundado, mas o produtor Bryan Balasco já avisou: Nate não vai sair do armário e terá de lidar com os seus conflitos e viver uma vida dupla. Portanto, a série vai trilhar um caminho calcado na realidade, na qual muitos jogadores gays não assumem a sua homossexualidade por que 1) medo de perder patrocínios e 2) medo da homofobia dos amigos e parentes. Pelo visto, a série ainda promover intensos debates a respeito da homossexualidade no MMA e em outros esportes.

Kingdom segue inédita no Brasil. A segunda temporada vai estrear no segundo semestre de 2015, nos EUA. A terceira estreia em 2016.



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