Alexis Tsipras: quem é o homem que promete abalar a Europa?

Um perfil do jovem Alex Tsipras, primeiro-ministro da Grécia que terá de enfrentar velhas raposas da política europeia, além dos interesses do FMI e da elite grega para conseguir tirar seu país do pesadelo social que vive há anos

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Um perfil do jovem primeiro-ministro da Grécia que terá de enfrentar velhas raposas da política europeia, além dos interesses do FMI e da elite grega para conseguir tirar seu país do pesadelo social que vive há anos

Por Vinicius Gomes

alexisEle é um engenheiro civil, líder estudantil e ex-militante do partido comunista que deu o nome a seu filho mais novo de Ernesto – em homenagem a seu herói, Che Guevera. Este é o homem que se recusa a usar gravata e lidera o partido que promete ser o primeiro a bater de frente com as principais lideranças da União Europeia.

Essa era sua descrição até o último domingo (25), pois, a partir de agora, Alexis Tsipras é oficialmente o novo primeiro-ministro da Grécia, após uma avassaladora vitória nas eleições de 2015. O Syriza (Coalizão da Esquerda Radical) está agora na direção do país que mais sofreu os efeitos colaterais da crise econômica mundial de 2008. Mas, mesmo se tornando um chefe de Estado, a gravata continuará fora de seu vestuário. “Afinal de contas, não usei uma nem quando me encontrei com o papa”, brincou Tsipras.

O primeiro-ministro mais jovem que a Grécia já conheceu, que esteve com os olhos da imprensa internacional sobre si na última semana, é hoje, e será pelos próximos meses, o político europeu mais comentado no mundo. Sua determinação em chacoalhar as estruturas não apenas em seu país, mas também do continente, foi o que chamou a atenção do mundo; com o “não-conformismo” sendo a palavra de ordem em sua campanha, o governo em Atenas sob o Syriza promete desafiar os políticos da austeridade econômica e a forma como as coisas estão sendo feitas no bloco europeu. Tudo isso com um alvo: aquilo que Tsipras chama de “Merkelismo”.

Não sem surpresa, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, foi uma das últimas líderes europeias a congratular o Syriza de Tsipras pela espetacular vitória no domingo. Por sua vez, Tsipras pareceu não dar muita importância ao fato, pois em seu discurso no final da noite de ontem, ele pediu – ao contrário do que muitos de seus detratores disseram que ele faria – mais união dentro da União Europeia. “Nosso futuro comum na Europa não é a austeridade, é o futuro da democracia, solidariedade e cooperação”, disse, mas com um adendo: “Hoje nós estamos decidindo se a Troika irá retornar à Grécia, ou se, através de duras negociações, o país irá exigir o retorno de sua dignidade”.

A “Troika” a que ele se referia se trata daqueles que forçaram goela abaixo da Grécia as medidas de austeridade, com Berlim na ponta da lança, e que causaram a tragédia social na qual os cidadãos gregos estão vivendo nos últimos anos: a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ou seja, como o The Guardian resumiu, “os credores de Atenas, aqueles impulsionaram sua falência econômica, podem esperar apertos de mão, mas se, necessário, alguns socos também”.

(Reprodução)
(Reprodução)

O nascimento do Syriza e a ascensão de Tsipras

Alexis Tsipras nasceu em 28 de julho de 1974, cinco dias depois da queda da junta militar que governou a Grécia por sete anos. Vindo de uma família abastada, ele cresceu no bairro de Ampelokipi, bem de frente ao estádio do Panathinaikos, seu time de futebol do coração, e foi atraído para a política desde sua adolescência.

Tornou-se membro da ala jovem do partido comunista (KNE, sigla em grego) e sempre foi muito ativo. Durante as ocupações de colégios, em protesto contra as impopulares reformas educacionais em 1990-91, foi um dos líderes colegiais na organização das manifestações. Nessa época conheceu Peristera Baziana, mais conhecida como Betty, que se tornaria sua companheira, com quem está até hoje. Eles nunca realizaram uma cerimônia religiosa para celebrar sua união e não batizaram seus dois filhos na igreja, como a tradição grega exige, pois Tsipras se proclama publicamente um ateu.

Após o colegial, Tsipras foi estudar engenharia civil na Universidade Nacional Técnica de Atenas, onde também se envolveu com política, tornando-se um membro da união estudantil e depois se entrando para o partido Synaspismos, um pequeno bloco de esquerdista e partidários “verdes”.

Nas eleições municipais de 2006, o presidente do partido, Alekos Alavanos, propôs a um Tsipras de 32 anos que concorresse à prefeitura de Atenas – fato que o tornou conhecido nacionalmente. No início de 2008, Alavanos renunciou à liderança do partido, que já havia mudado o nome para Syriza, e foi substituído por Tsipras, que passou então a se dedicar integralmente ao partido e à política nacional. Isso aconteceu exatamente no momento em que a Grécia entrou em seu pesadelo atual, com o caos político, econômico e, por fim, social, se instaurando de vez na vida do país.

Quando em dezembro de 2008 a polícia ateniense assassinou um estudante, seguiram-se três violentas semanas de protestos em massa e repressão do Estado, com o Syriza ativamente organizando as mobilizações de rua. Mas mesmo com muitos jovens passando a se identificar com o partido, seu apoio eleitoral permaneceu baixo nas eleições seguintes, em 2009. As coisas mudariam apenas quando o novo governo, supostamente socialista de George Papandreou, do Pasok, foi forçado em 2010 a pedir o resgate econômico da Grécia, em troca das severas medidas de austeridade. Foi então que um expressivo número de eleitores do Pasok e muitos de seus parlamentares migraram para o Syriza, que desde o início foi extremamente contrário à implantação da austeridade. Com o partido finalmente tendo sua voz ecoada em um enorme setor da sociedade composto por uma classe média dizimada e uma vasta população jovem desempregada, aliado ao papel de Tsipras em unir os grupos que permaneceram fratricidas durante o processo – como a esquerda tende a ser em qualquer lugar no mundo –, eles então passaram a ser reconhecidos como aqueles que atormentariam a vida dos “grandões” na União Europeia.

Protesto anti-Troka na Grécia (Roar Magazine)
Protesto anti-Troka na Grécia (Roar Magazine)

Desafios no caminho

Depois de cino anos, quando o Syriza teve apenas 4,9% dos votos em 2009, o povo grego escolheu Tsipras para por um fim à severa austeridade, com seus cortes de salários, de benefícios sociais e com uma taxa de desemprego alarmante. Porém, inúmeros obstáculos estarão presentes no caminho de Tsipras e de seu Syriza. Como disse um partidário da sigla, “vencer as eleições será apenas uma das batalhas de uma longa e difícil guerra”.

Existe a extrema-direita grega. Ela está combalida com a “decapitação legal” de muitos de seus líderes, mas está também sempre pronta para se aproveitar de qualquer decepção popular com uma administração Syriza, mas mais imediata está a infame Troika: a francesa Christine Lagarde, chefe do FMI em Washington, disse que “existem regras internas na zona do Euro que precisam ser respeitadas”, e que a Grécia não pode exigir “tratamento especial” apenas por conta da vitória de uma sigla anti-austeridade nas eleições. O também francês Benoit Coeure, membro do conselho que dirige o BCE em Bruxelas, já disse que o banco europeu não participará de nenhuma movimentação que desobrigue a Grécia de pagar os compromissos assumidos no pacote de resgate econômico.

A responsabilidade que vem como chefe de um governo exigirá, inevitavelmente, que Tsipras realize concessões – nas últimas semanas ele suavizou sua fala de maneira visível. Talvez quem tenha melhor resumido os dias  vindouros de Tsipras foi Denis MacShane, ex-ministro britânico na UE. “O desafio de Tsipras é tornar uma insurgência em um partido governante.” Todavia, se depender da solidariedade da esquerda europeia e da população grega, ansiosa em acordar do pesadelo nacional, Tsipras terá importantes aliados.

Fotos: Greek Reporter



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