As séries da TV fechada estão devorando as novelas da Globo

Nos últimos anos, mesmo contando com um cast de excelentes atores, a Globo reduziu sua escola de interpretação a tipos folclóricos, tirados do baú da TV brasileira e, antes dela, dos programas radiofônicos humorísticos. As moças falam com ar desafiador, os adultos tem aqueles...

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Nos últimos anos, mesmo contando com um cast de excelentes atores, a Globo reduziu sua escola de interpretação a tipos folclóricos, tirados do baú da TV brasileira e, antes dela, dos programas radiofônicos humorísticos. As moças falam com ar desafiador, os adultos tem aqueles sotaques indecifráveis, os personagens de periferia são todos caricatos

Por Luis Nassif, no Jornal GGN

Assistindo a série “Good Wife” pude entender melhor o fascínio que essas séries da TV a cabo provocam nas minhas caçulas e nos seus coleguinhas. Tempos atrás, essas séries eram o tema único nas reuniões do grupo.

A série, no caso, é sobre a esposa de um Procurador Geral que é temporariamente preso com uma falsa acusação de crime em cima de uma acusação verdadeira de escândalo sexual.

Injuriada, com o caso do marido correndo todas as TVs e redes sociais, a esposa vai à luta. Formada em direito, sem nunca ter advogado, acaba no escritório de um ex-namorado, por quem volta a se apaixonar.

A série é semanal. Assisti a temporada 2009 de uma golfada só no Netflix.

Antes do comentário, uma ressalva: um dos produtores executivos é Riddley Scott, figura maior da indústria de entretenimento dos EUA.

O primeiro ponto a chamar a atenção é a maneira como as tramas se entrelaçam.

No caso das novelas brasileiras, há uma trama central e tramas menores que vão sendo esticadas sem muita disciplina.

No caso de “Good Wife” há a trama maior – a vida de Alicia Florrick, a personagem principal vivida pela atriz Juliana Marguilles – e tramas menores – em geral, tramas políticas e do Judiciário e ações propriamente ditas – que fazem com que cada capítulo tenha vida própria, sem perder o fio da meada principal. O telespectador não se vê obrigado a seguir toda a novela para entender o capítulo.

O segundo ponto destacado é a criação dos personagens e a direção dos atores. Alicia ganha uma densidade fantástica, com seus olhares misteriosos, sua integridade, permanentemente exposta aos jogos de interesse do escritório e da política. Duvido que, em outro papel, a atriz mantivesse o carisma que explode na série.

Os demais atores crescem do mesmo modo, do marido Chris Nott (o antigo canastrão da série “Sex in the Cities”), o namorado Josh Charles, a investigadora e bissexual Archie Panjabi, a sócia do escritório a grande Christine Branski, o lobista Allan Cumming e o jovem advogado Matt Czuchry.

Todos eles compõem personagens intensos. Fora da série, a sensualíssima Archie Panjabi é uma mocinha sem graça; o ousado Josh Charles, “um dos dez partidos mais cobiçados de Chicago”, um jovem norte-americano comum.

As interpretações não recorrem às jogadas caricaturescas – como nas novelas da Globo. Os tipos mais histriônicos, como Allan Cumming, e suas mil caretas, são figuras encontráveis em qualquer ambiente corporativo. Algumas “marcas” dos personagens são pequenos detalhes do dia a dia – como a maneira pressurosa com que Czuchry fala ou toma café e como muda o perfil quando as circunstâncias o fazem deixar de ser contido.

Ao contrário, nos últimos anos, mesmo contando com um cast de excelentes atores, a Globo reduziu sua escola de interpretação a tipos folclóricos, tirados do baú da TV brasileira e, antes dela, dos programas radiofônicos humorísticos. As moças falam com ar desafiador, os adultos tem aqueles sotaques indecifráveis, os personagens de periferia são todos caricatos.

O terceiro ponto é a capacidade da série em explorar aspectos relevantes da sociedade norte-americana, como a lógica e o jogo de interesses dos grandes escritórios de advocacia, as jogadas políticas da promotoria, as idiossincrasias de juízes

Por aqui, quando ousam entrar no terreno da economia e da política, as novelas não conseguem sair do maniqueísmo tolo e folclórico.

O quarto ponto é as falta total de maniqueísmo. Os sócios do escritório – Josh e Baransky – emocionam-se com os casos em que atuam “pro bono” (sem cobrar) e, ao mesmo tempo, esfalfam para conseguir a conta do maior traficante da cidade. Juliana é a mulher que não sai da linha mas que, de repente, entra na guerra por clientes valendo-se de todas as armas.

Esse anti-maniqueísmo se revela na forma como a série trata o triângulo amoroso. Os dois personagens homens são capazes de grandes gestos e grandes mesquinharias. O marido arrependido torna-se o companheiro que toda mulher sonhou, mas a certinha Juliana não resiste ao terremoto da relação proibida com o amante. Não é mocinho contra bandido. São dois casos absolutamente compreensíveis – dela com o marido e dela com o amante – sem uma conclusão.

O quinto ponto é a dramaturgia propriamente dita, a criação de pontos de tensão. Às vezes há situações exageradas, provavelmente ao sabor das pesquisas de audiência. Mas a exploração dos sentimentos humanos é extraordinária.

Estou assistindo a temporada de 2009. Em determinado momento, parece que tudo vai se acalmando, o marido retoma o cargo de Procurador e passa a respeitar todas as decisões da esposa, inclusive as escapadas; a esposa e o amante decidem se afastar para se poupar mutuamente

De repente, o elemento tragédia entra com tudo. Juliana decide sair do escritório e montar o seu, para se afastar do chamado amor proibido. Tem início a disputa com o amante, em cimas de um conjunto de mal entendidos, que vai ganhando um crescendo. O marido (agora eleito governador do Estado) utiliza os poderes do cargo para ajudar a esposa. Ela, por sua vez, entra de cabeça na guerra valendo-se de recursos que, antes, abominava. Tudo explodindo na tragédia maior.

Vai ser cada vez mais duro a Globo competir com a Netflix e com as séries norte-americanas.

Foto: Divulgação The Good Wife



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