Bárbara Sweet: “Todas as mulheres do rap têm histórias de machismo pra contar”

Admirada por muitas feministas brasileiras, a MC levanta a bandeira dos direitos das mulheres e assume a luta feminista dentro do rap, enfrentando ataques machistas recorrentes.

2399 0

Admirada por muitas feministas brasileiras, a MC levanta a bandeira dos direitos das mulheres e assume a luta feminista dentro do rap, enfrentando ataques machistas recorrentes

Por Jarid Arraes

A rapper Bárbara Sweet e a filha (Foto: Valter Araújo)
A MC Bárbara Sweet e a filha (Foto: Valter Araújo)

A MC Bárbara Sweet estourou nas redes sociais em um período de muitos debates sobre a participação feminina no Hip Hop; não por acaso, o vídeo que a fez  viralizar foi justamente um em que ela responde insultos machistas, na Batalha de Rap do Santa Cruz. Por causa dele, Sweet hoje é admirada e estimulada por muitas mulheres dos movimentos feministas brasileiros e não se intimida na hora de se declarar feminista. Pelo contrário, a MC tem levantado a bandeira dos direitos das mulheres com garra e entra na defesa de outras rappers e MCs que também enfrentam o machismo de frente.

Além do reconhecimento positivo que recebe como feminista, Bárbara Sweet também é referência e argumento em discussões que envolvem outras questões, como o debate sobre apropriação cultural e racismo. Muito perto do lançamento seu primeiro álbum, Sweet fala sobre tudo isso com bom humor e convicção. A entrevista concedida à Fórum pode ser lida, na íntegra abaixo:

Fórum – Como começou a sua trajetória no rap? O que despertou o seu interesse?

Bárbara Sweet – Tudo começou com uma festa de rap no falecido Estrela Night Club, eu tinha 13 anos e foi a primeira festa de rap a que fui. Ouvi Racionais, Wu Tang, Dina Di, Fugees, RZO, Rah Digga… A partir daquilo eu fui me interessando cada vez mais pela música e pela cultura. Fui buscando cada vez mais sons, mais informação sobre o Hip Hop.  Como eu já cantava, comecei com improvisos, porque eu nem sabia o que era freestyle, em rodinhas de violão pelas quebradas com a galera, só por diversão, e com 16 comecei a rimar mesmo.

Fórum – Inicialmente, como foi a sua experiência como mulher no rap? Você sempre denuncia e fala contra o machismo, mas a forma como você encarou o machismo no início de sua carreira difere da forma como encara hoje?

Sweet – Sim. Tem muita diferença. Acho que só aprendi a me posicionar mesmo recentemente. Hoje sou uma mulher adulta, mãe, bem mais segura e forte do que a menina de 16 anos que entrou nesse mundo. Isso fez toda a diferença pra mim. Hoje eu sinto que deixar pra lá, ou fingir que não é comigo (que é o que a maior parte das mulheres faz nessas situações) não vai modificar ninguém, nem transformar nada. Percebi que o que transformava era me posicionar, trazer esses tabus à tona, debater e ir em busca dos meus objetivos sem medo.  Todas as mulheres dentro do rap têm histórias de machismo pra contar, mesmo que elas não saibam que aquilo que sofreram é machismo. Quando comecei a ir ao rap, nenhuma mulher usava saias ou calças justas. Não era bem visto ser feminina. Muito menos ser livre sexualmente, profissionalmente… Enfim, ainda bem que vem mudando.

(Foto: Pablo Bernardo)
“Dentro das batalhas, aprendi que o que importa é rimar, atacar e responder. Não existe privilégio ou opressão que vá te salvar da humilhação se você não desempenhar bem sua função de MC” (Foto: Pablo Bernardo)

Fórum – Você é uma das MCs brasileiras que se identificam como feministas e falam abertamente sobre isso. Recentemente, soubemos pelas redes sociais que um poster com sua foto foi pichado com palavras que te chamavam de “feminazi de merda”. Como reagiu ao saber disso? Você observa esse tipo de reação contra outras MCs além de você?

Sweet – (Risos). Bom, esse poster foi de um projeto chamado Giganto, feito pela galera do Erro99, que ilustrou os pilares do viaduto de Santa Tereza, palco do duelo de MCs, com fotos de figuras que habitam o lugar. Eu fui a única mulher. Quando vi a foto lá, fiz uma aposta com duas amigas: “vão pixar minha foto em menos de um mês”. Perdi, durou quase três. Eu já esperava essa reação. Se posicionar traz isso. Na verdade isso só me mostra que estou no caminho certo e que tá incomodando quem precisa ser incomodado. Eu achei graça. Afinal, se a pessoa compra um spray e sai de madrugada de casa pra isso, é quase amor. Observo essa reação com todas as MCs/rappers, DJs, B-Girls e grafiteiras que se pronunciam a favor do feminismo ou das mulheres. Não é exclusividade minha, não. É algo que vem acontecendo em todos os estados brasileiros, em todos os patamares, do underground ao mainstream. Outras colegas sofreram e sofrem ataques, mas estamos bem articuladas e trabalhando sempre em conjunto para agir e reagir. A melhor reação é a nossa união.

Fórum – Dentro do contexto de mulheres no rap, como você avalia as discussões sobre feminismo, gênero e sexualidade? O feminismo é bem aceito?

Sweet – 2014 foi um ano lindo dentro dessa discussão na cultura. Houve muita articulação, muita mina se conectando, se empoderando e muito forninho caindo (risos). Teve rapper gay e também transexual botando a cara, falando bonito e fazendo som foda. Pra mim o que muda mesmo o jogo é representatividade. É ver seu semelhante onde você também quer ir. Foi por isso que fui batalhar. O feminismo não é bem aceito, mas geralmente nenhuma ideia que vá contra a maré é, né?

Fórum – Na grande mídia pop, acompanhamos constantemente as brigas entre as rappers Azalea Banks e Iggy Azalea, por exemplo. Um dos principais motivos é o fato de Iggy ser branca e rapper, o que é considerado por muitas correntes do movimento negro como uma apropriação cultural. Além disso, Iggy já fez letras com expressões racistas. Como você encara esse tipo de debate?

Sweet – Acho necessário todo tipo de debate e esse é um dos que uso da minha capacidade de escutar, absorver e reconhecer meu lugar de fala. Particularmente, eu acho a Ms. Banks bem mais original, mas gosto de algumas coisas da Iggy. Acho que o rap se tornou uma linguagem global, que se altera de acordo com as regiões, cores, gêneros e vivências de quem o faz. E as vezes o que é tido como apropriação para alguns pode ser referência, inspiração pra outros. Afinal, Bambaataa, um dos pioneiros do Hip Hop. se inspirou em Kraftwerk para dar luz ao que conhecemos hoje.

bárbara sweet 2
“Hoje eu sinto que deixar pra lá, ou fingir que não é comigo (que é o que a maior parte das mulheres faz nessas situações) não vai modificar ninguém”

Fórum – Alguém já te questionou a respeito do fato de você ser branca e MC? Qual seria a sua resposta para esse tipo de questionamento?

Sweet – Sim, quando era mais nova me questionavam mais, hoje não sinto isso tanto. Dentro das batalhas, aprendi que o que importa é rimar, atacar e responder. Não existe privilégio ou opressão que vá te salvar da humilhação se você não desempenhar bem sua função de MC. Acima de tudo, é isso que sou.

Fórum – O seu primeiro álbum se chama D.O.C.E. – Dose Ostensiva de Caligrafia Explícita. Quais são as suas expectativas para o lançamento? Qual é a sua proposta com ele e de que forma encara sua relevância política, especialmente com tantas feministas na expectativa, conhecendo mais a fundo teu trabalho?

Sweet – Sim! Estou muito empolgada com todo o processo de criação, montagem e gravação do meu primeiro álbum. Há tempos que venho planejando lançar um trabalho sólido que realmente represente a mim e as minhas ideias e ideais. Minha proposta é falar de forma explicita, na minha linguagem quase desbocada (risos). Estou me dedicando ao máximo para fazer um disco que embale nosso corpo, mente e coração. Que seja fiel ao que acredito que tem que ser dito e questionado e à nossa vontade de amar, viver, dançar, ser e existir livremente.

(Foto de capa: Pablo Bernardo)



No artigo

x