Pesquisas sobre popularidade e falta de transparência

A leitura dos jornais indica que a presidenta Dilma Rousseff é culpada pela situação da Petrobras e pelas dificuldades econômicas, e o governador de São Paulo é vítima das mudanças climáticas. Mas falta transparência a Dilma, a Alckmin e à própria mídia

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A leitura dos jornais indica que a presidenta Dilma Rousseff é culpada pela situação da Petrobras e pelas dificuldades econômicas, e o governador de São Paulo é vítima das mudanças climáticas. Mas falta transparência a Dilma, a Alckmin e à própria mídia

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa

A pesquisa Datafolha, publicada no domingo (8/2) por todos os jornais de circulação nacional e com grande repercussão nos outros meios de comunicação, revela como a imprensa trabalha com uma agenda central e um discurso homogêneo. O ponto central da consulta é a popularidade da presidente da República, Dilma Rousseff, embora também tenham sido avaliados o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito da capital paulista, Fernando Haddad.

Na segunda-feira (9), a imprensa analisa as consequências possíveis da queda na reputação da presidente e suas chances de reverter o processo de desgaste de sua imagem, claramente afetada pelo escândalo da Petrobras, mas também influenciada pelo noticiário negativo sobre a economia. Especialistas em comunicação dão suas opiniões, e, nos bastidores de Brasília, os jornalistas garimpam especulações que procuram mostrar um momento de indecisão e espanto nas hostes do governo petista.

Enquanto isso, as análises sobre a queda de popularidade do governador paulista se resumem a considerá-lo uma vítima do problema da falta de água na região metropolitana de São Paulo. A Folha de S. Paulo ajuda a empurrar a opinião no sentido de desvincular o governador da crise hídrica, com uma nova pesquisa segundo a qual 60% dos moradores da capital paulista aprovam o rodízio no fornecimento de água, enquanto outra consulta mostra que 65% dos brasileiros defendem o racionamento preventivo de energia elétrica.

A observação do conjunto noticioso e opinativo revela, mais uma vez, o que se tornou uma característica da mídia tradicional no Brasil: com base numa fonte supostamente objetiva, como uma pesquisa de opinião, formulam-se hipóteses que são claramente distorcidas pela manipulação dos editores. Assim, a perda de popularidade da presidente da República decorre de seus próprios erros, enquanto o governador paulista ganha a chance de corrigir os danos de sua omissão e incúria ao adotar tardiamente as medidas que deveria ter tomado muitos anos atrás.

Em suma, a leitura dos jornais indica que a presidente Dilma Rousseff é culpada pela situação da Petrobras e pelas dificuldades econômicas, e o governador de São Paulo é vítima das mudanças climáticas.

Mas falta transparência a Dilma, a Alckmin e à própria mídia.

Dilma no espelho

Como já se disse aqui em outras ocasiões, quando se analisa a imprensa não se está trabalhando necessariamente com a realidade, mas apenas com uma versão espelhada no ambiente midiático. No entanto, o reflexo desse espelho tende a influenciar a realidade, como se pode observar nas pesquisas de opinião que revelam o efeito do viés negativo sobre uma personagem e a condescendência com que outra figura é tratada pela imprensa.

No caso do governador paulista, há claramente um esforço para dar guarida a suas desculpas, enquanto a presidente da República é sitiada diariamente por manchetes negativas. No noticiário sobre o problema do abastecimento de água em São Paulo, a estratégia dos jornais foi, até aqui, evitar o debate sobre as causas da crise. Com exceção de um ou outro especialista, a maioria dos textos publicados deixa aberta a possibilidade de que tudo seja culpa de São Pedro. A imprensa evitou o debate sobre sustentabilidade, proposto por ativistas da questão ambiental, e restringiu o noticiário à diminuição das chuvas.

Na noite de quarta-feira (4/2), André Trigueiro, um dos mais premiados jornalistas brasileiros, apresentou no programa Cidades e Soluções (ver aqui), da GloboNews, uma reportagem na qual lembrava os alertas feitos em 2003 sobre as previsões de falta de água.

O programa alcançou apenas o público que acessa a TV a cabo perto da meia-noite. Por que não na emissora de maior audiência do grupo, a TV Globo? Por que não no horário nobre? Por outro lado, o noticiário que afeta diretamente a imagem da presidente da República está diariamente no Jornal Nacional e nas primeiras páginas dos jornais.

Representantes do governo federal citados pelos jornais se dizem chocados com a queda de popularidade da presidente e dão palpites sobre como melhorar suas relações com a imprensa. Na opinião de alguns consultores, a presidente da República estava certa ao conclamar seus ministros a entrar na “batalha da comunicação”, e o poder Executivo precisa aprender a lidar com os jornalistas.

Bobagem: os erros do governo têm que ser discutidos abertamente com a sociedade, com ampla transparência; a imprensa é um partido de oposição.

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil



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