Do repente ao rap, do coco ao sampler, RAPadura é vanguarda e resistência

Em entrevista exclusiva, o artista, que encontrou a convergência entre o Hip Hop e a música nordestina, fala sobre carreira, cultura de periferia e resistência às investidas da indústria cultural: "Consigo enxergar várias possibilidades fora dessa engrenagem industrial".

1701 0

Em entrevista exclusiva, o artista, que encontrou a convergência entre o Hip Hop e a música nordestina, fala sobre carreira, cultura de periferia e resistência às investidas da indústria cultural: “Consigo enxergar várias possibilidades fora dessa engrenagem industrial”

Por Ivan Longo 

O rap, ritmo que se consagrou na região sudeste, principalmente em São Paulo, pode não ser brasileiro. Mas o repente, técnica de “música falada” que muito se assemelha às canções de Hip Hop, sim. Não só é brasileiro, como é nordestino, assim como RAPadura Xique Chico, artista que conseguiu encontrar a convergência entre os dois ritmos e que vem despontando como vanguarda na mistura de gêneros, na experimentação e, ao mesmo tempo, no resgate da cultura popular.

Nascido em Fortaleza, no Ceará, Francisco Igor Almeida dos Santos ganhou seu apelido ainda quando criança em referência ao seu doce preferido. Na infância, teve muito contato com a música popular nordestina e, aos treze anos, migrou com a família para o Distrito Federal, onde conheceu o Hip-Hop. A saudade de sua terra, somada à vontade de aprender e ao seu novo gosto – o rap –, fizeram RAPadura investir num ritmo inovador, fazendo do coco, do maracatu, da capoeira, do forró e do baião as bases perfeitas para trazer aos beats do Hip Hop a identidade de uma outra periferia; esta, não a das grandes cidades, mas do Brasil: o Nordeste.

“O rapper é aquele que faz apenas rap. Não me defino como rapper porque não faço rap, faço ‘rapente'”, brinca o artista, que de maneira totalmente independente, conseguiu produzir e lançar um disco [Fita Embolada do Engenho – Rapadura na boca do povo] e um videoclipe [Norte Nordeste me Veste], além de ter a agenda de shows lotada, sem contar com qualquer tipo de apoio midiático ou da indústria cultural.

“Até hoje sou considerado um artista independente! Sinto-me feliz em ter total autonomia sobre o trabalho que faço, tenho pessoas ao meu lado que entendem o que canto, o que quero reproduzir e que me apoiam em tudo que decido fazer. Consigo enxergar várias possibilidades fora dessa engrenagem industrial”, revela.

Em entrevista exclusiva à Fórum, o artista falou sobre a carreira, sua relação com cultura de periferia e a resistência em relação às investidas do mercado. Confira:

Foto: Divulgação/RAPadura
(Foto: Divulgação/RAPadura)

Fórum – Primeiro, gostaria que falasse como começou a carreira e como se deu seu envolvimento com o rap e com os ritmos nordestinos, ressaltando as semelhanças e diferenças entre os dois estilos musicais. 

RAPadura – Quando criança, sempre acompanhei meu pai (seu Luiz), que já cantava pela cidade. Desde muito novo fui influenciado pelo forró, pelo brega, pela música popular em geral. Cheguei a ganhar concursos de dança também com minha prima, Catarina. Eu gostava muito de música e dança e estava, desde o início, embalado pela ciranda cantada nos braços de minha  mãe (Dona Lourdes). Em 1997, migramos para o Distrito Federal e tive o meu o primeiro contato com o Hip Hop através de um amigo que dançava break. Começamos a treinar ao som de Thaide & Dj Hum e, depois de um tempo, vi que minha identificação maior era com o canto. Eu queria falar e rimar tudo aquilo que sentia. Com treze anos, ganhei meu primeiro concurso de rap e daí por diante nunca mais parei. Anos depois consegui montar meu primeiro computador e em 2004 comecei a mexer com  samplers e batidas no meu quarto. Ouvindo os discos que meu pai tinha passei a perceber as semelhanças do rap com a cultura nordestina, na maneira de fazer críticas agressivas ou  irônicas, no raciocínio rápido do  improviso, na criatividade e capacidade de transformar tempo e espaço com algumas palavras. Uma grande diferença entre o rap e o repente está  na escrita: no rap você tem total liberdade para conduzir as palavras e formar as rimas como bem quiser; no repente existem regras de sílabas e a sonoridade tem que ser perfeita. Por exemplo, “alma” e “trauma” não rimam, por que alma é com “L” e trauma é com “U”.

Fórum – Como é a sua relação com o “mercado”? É possível resistir às investidas da indústria cultural, tendo a internet como opção?

RAPadura – Até hoje sou considerado um artista independente! Sinto-me feliz em ter total autonomia sobre o trabalho que faço, tenho pessoas ao meu lado que entendem o que canto, o que quero reproduzir e que me apoiam em tudo que decido fazer. Consigo enxergar várias possibilidades fora dessa engrenagem industrial. Em 2009 produzi meu primeiro registro (Fita Embolada do Engenho) e fiz praticamente tudo sozinho: produzi todas as batidas, escrevi todas as letras e ainda fiz todos os back vocals do disco (risadas).

O clipe “Norte Nordeste Me Veste” fiz em  parceria com um grande amigo (Vras 77) em 2012, e isso expandiu mais ainda nossa mensagem, tendo 100 mil visualizações na primeira semana e caminhando agora pra 2 milhões de acessos sem nenhum apoio midiático ou industrial. Em meio à boa repercussão, conseguimos ir duas vezes à Europa: em 2013 para representar a música brasileira em Portugal e em 2014 com uma turnê por Alemanha, Suíça e República Tcheca. Foi uma viajem bancada pelo próprio suor. Isso mostra que, se nos organizarmos e trabalharmos como profissionais que somos, podemos ocupar esse espaço que é nosso. Continuamos livres levando tudo isso no peito com muita dignidade e satisfação própria.

Fórum – Qual a sua relação com a internet?

RAPadura – Hoje posso dizer que nós nos damos muito bem (risos). Por um tempo tive resistência aos meios virtuais, sempre preferi os telefonemas e o contato olho a olho.  Meu Facebook foi  feito por  uma pessoa que me ajudava na produção na época, com muita insistência; meu Instagram foi feito há um mês e por enquanto ainda não tenho Whatsapp… Mas reconheço estar quase me rendendo a isso também. O melhor da internet é que ela está mais acessível à maioria das pessoas e todos podem fazer divulgação de conteúdo sem as limitações impostas pelo monopólio.

Fórum- Qual o papel da internet, na sua opinião, para os artistas da cultura popular e de periferia?

RAPadura – Difundir seus pensamentos e visões, permitir uma comunicação melhor entre pessoas de diferentes lugares e espalhar a mensagem na qual cada um acredita.

Fórum – Como você enxerga a adesão de culturas da periferia ao mercado e a indústria do entretenimento? É bom? É ruim? Acredita que isso possa fazer com que alguns valores da periferia se percam no caminho?

RAPadura – Só se perde quem ainda não se achou! Quando se tem caráter pode se adentrar em qualquer meio e sair da mesma maneira que entrou ou até melhor do que era, já lidei com muitos ambientes e oportunidades gigantescas e o pé tem que continuar no chão para que se possa caminhar. Acho que é válida uma aliança quando ambas as partes são favorecidas. O problema não está na proposta que vem, mas sim no que de nós se vai.

Fórum – Como você enxerga o preconceito seletivo em relação às culturas das periferias? Muitas vezes, ele é disseminado contra o funk e outros movimentos oriundos da periferia, mas passa incólume por estilos como axé e sertanejo universitário, que tem letras também com apelo sexual, ostentação etc.

RAPadura – O que é vendido nem é mais o produto, mas sim sua embalagem. Você pode estar abordando o mesmo assunto, mas vender ele bonitinho como se fosse outra coisa. É

Foto: Divulgação/RAPadura
(Foto: Divulgação/RAPadura)

exatamente isso o que tem acontecido. Até o próprio sertanejo teve que mudar para “sertanejo universitário” para alcançar um outro público. No meio do caminho, muito da essência se perdeu…

Fórum – Acredita que o rap venha ganhando penetração em outras camadas da sociedade, para além da periferia? Qual sua opinião em relação a isso? Acha que essa quebra de barreiras é boa ou ruim para o movimento?

RAPadura – O rap já extrapolou as barreiras que haviam sido impostas, no entanto poucos ainda conhecem o Hip Hop. Não acho que seja ruim ter nossa música em locais como rádios de maior alcance, programas de TV, novelas… Acho que podemos adentrar onde quisermos, desde que não nos esqueçamos de quem somos e saibamos para onde devemos ir.

Fórum – Acredita que a cultura popular nordestina possa ser considerada uma cultura de periferia, tendo em vista que o maior eixo da indústria cultural e de entretenimento está concentrado no Sudeste?

RAPadura – O Nordeste é hoje é uma enorme árvore periférica, seus galhos se estendem por bairros e favelas, mas suas raízes continuam no campo.

Fórum – A música da periferia, na sua opinião, só pode ser feita por músicos oriundos da periferia ou pode ser apropriada por alguém que não vem de lá? Como enxerga esse tipo de apropriação? 

RAPadura – Não consigo visualizar um samba falando de problemas sociais sem tê-los vivido ou sentido na pele, é mais uma questão de sinceridade consigo mesmo do que uma exclusão. Uma coisa é você relatar o que ver de longe ou ver na TV, outra coisa é sentir todo o peso da rotina e botar isso fora. Como vou descrever a alegria das crianças jogando bola nas ruas de terra se nunca vi isso na vida? Acho que todas as pessoas, sendo elas da periferia ou não, podem dar sua contribuição artística ou social para a melhoria, desde que tenham a consciência do espaço que ocupam e que mantenham o respeito em primeiro lugar.

Encerro com uma frase de Patativa do Assaré: “Pra ser poeta de vera tem que ter sofrimento”. Não que tenhamos que sofrer para fazer música, mas precisamos no mínimo sentir para que o manifesto da alma transcenda os limites do corpo.

(Foto de capa: Divulgação/RAPadura)



No artigo

x