“É preciso entender o poder simbólico do funk”, diz Ivana Bentes

Secretária da Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, Ivana Bentes, participa de sabatina com funkeiros e propõe construção de iniciativas voltadas ao movimento que já reúne cerca de 20 milhões de jovens em todo o país

1456 1

Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC participa de sabatina com funkeiros e propõe construção de iniciativas voltadas ao movimento que já reúne cerca de 20 milhões de jovens em todo o país

Por Ivan Longo 

A secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Ivana Bentes,  foi a convidada do “Cadeira Elétrica”,  desta terça-feira (10), evento semanal da Liga do Funk em que jovens MC’s sabatinam alguma personalidade com assuntos relacionados ao movimento e à temática da periferia. A participação de Ivana fez parte do percurso da Caravana Cultura Viva do MinC, que busca dialogar com a sociedade as formas de incentivo à produção cultural por meio da Lei Cultura Viva, que vai desburocratizar a prestação de contas dos Pontos de Cultura e dos agentes culturais. 

Antes do evento a secretária passou pelo Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, onde conversou com coletivos de cultura da região e, na sequência, participou da sabatina com os funkeiros, na Ação Educativa, região central da capital. Na “Cadeira Elétrica”, Ivana, que é doutora em Comunicação e ex-diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi extremamente aplaudida. “Acompanho toda a historia do movimento no Brasil. Em 2010, fizemos uma aula inaugural na UFRJ com a Deize Tigrona. Foi um choque cultural! Sou fã do funk feminino. As meninas estão fazendo uma revolução sexual que vem da periferia”, disse.

Lei Cultura Viva e funk, uma construção conjunta 

Ivana Bentes é sabatinada pelos funkeiros (Foto: Cobertura Colaborativa/Fora do Eixo)
Foto: Divulgação

Ivana falou da importância do movimento e de articular políticas públicas voltadas para esse público através da Lei Cultura Viva. “É decisivo a gente começar a pensar e dar visibilidade a esse arranjo. O funk produz linguagem, produz moda, produz comportamento. Boa parte da cultura brasileira hoje bebe do funk. A classe média branca imita os funkeiros. Isso não tem visibilidade até como um empreendimento econômico. A gente precisa mapear e entender o poder simbólico do funk. Temos que mapear o atual tamanho desse movimento: quem são, quantos são, por onde estão? Esse mapa é decisivo para pensar em políticas públicas”, afirmou.

Ainda de acordo com a secretária do MinC, os grupos de funk poderão se cadastrar como ponto de cultura. Com a regulamentação da Lei Cultura Viva, a prestação de contas será simplificada, o que é uma demanda histórica dos coletivos culturais. “Estamos lançando uma campanha de declaração. Você vai declarar para o Estado que você é um ponto de cultura, a partir daí vamos começar a criar com você uma política para o próprio funk. Ocupem o cultura viva!”, completou.

Ivana ponderou que é preciso mudar a lógica demanda X resposta tendo em vista que os agitadores culturais da periferia são os próprios criadores e multiplicadores de sua produção. “A gente está no momento de começar uma gestão que pode ter essa pegada de trabalhar junto. Sair desse lugar só da demanda, em que vocês demandam e o Estado responde. Esse tipo de encontro pode ser multiplicado. Vocês têm que exigir isso. Quem não gosta de política acaba sendo dirigido por quem gosta”, analisou, completando a convocação que já havia feito aos funkeiros poucos minutos antes: “Vocês já estão convocados como co-gestores de uma possível política pública para o funk”.

Ivana defendeu ainda que o Estado deixe de financiar o produto final e passe a dar apoio à todo o processo de produção cultural. “O financiamento tem que ser do processo todo. É muito mais inteligente e gera ainda mais produtos”, afirmou, e foi prontamente respondida por um dos funkeiros: “Valorizar a caminhada e não só a chegada”.

Funk e mulher – uma revolução 

Questionada se o movimento funkeiro seria machista, Ivana disse acreditar que o fato das mulheres funkeiras poderem expressar livremente a sua sexualidade é uma “revolução”, ainda que contestada por alguns segmentos do movimento feminista.

Foto: Cobertura Colaborativa/Fora do Eixo
Foto: Divulgação

“Há um preconceito contra mulheres funkeiras. Pela primeira vez na história a gente vê mulher brasileira falando de sexo explicitamente. Antes, elas não tinham esse direito, principalmente no espaço público. Já tomei muita porrada de feminista dizendo que defendo a ‘mulher objeto’. Eu discordo radicalmente. Se tem um lugar na cultura brasileira em que a mulher pode se expressar publicamente sobre a sua sexualidade, esse lugar é o funk”, analisou, aproveitando ainda para fazer a crítica àqueles que acreditam que o funk deva ser mais “politizado”.

“Para mim, o fato de a mulher abrir a boca para falar de sexo em praça pública é extremamente político. É uma revolução feminista brasileira que vem da periferia”, finalizou.

Foto de capa: Divulgação 



No artigo

1 comment

  1. Edgar Responder

    Pobre periferia, os pobres já sofrem com tantos problemas, vejo as famílias das periferias antigamente, os valores os mantinham vivos, hoje sem isso a mortandade lá é absurda, todas elas ouvindo funk. Outro detalhe conversar sobre sexo é uma coisa, crianças em colos de criminosos é pedofilia, grande revolução, qualquer musico mesmo que simples entende que o ritmo do funk é horrível, precisamos de uma educação musical no Brasil urgente é triste ver esse tipo de ritmo ser considerado musica.


x