“É assim desde o século XVI, não vejo nada de mais”

Consultado a respeito da mais recente polêmica carnavalesca que envolve o uso das fantasias chamadas de “nêgas malucas”, o diretor* do Bloco “Nêga é Maluca Mesmo” argumentou: “Nem sempre compreendem a homenagem que queremos...

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Consultado a respeito da mais recente polêmica carnavalesca que envolve o uso das fantasias chamadas de “nêgas malucas”, o diretor* do Bloco “Nêga é Maluca Mesmo” argumentou: “Nem sempre compreendem a homenagem que queremos fazer, né? Estamos aqui com bom humor e apoio de nossas empregadas domésticas, babás, faxineiras e até mesmo moradoras de rua curtem quando o bloco passa”, declarou enquanto pintava o rosto com tinta guache antialérgica.

Vários homens se aprontavam durante a reportagem, vestindo roupas que definiram como “de pobre” e botando na cabeça perucas que imitam cabelos crespos. “Aprendi com meu avô como montar essa fantasia. Primeiro você tem que comprar uma peruca boa, mas de cabelo ruim. Boa no sentido de que deve ficar firme na sua cabeça durante toda a festa”, deu a dica. “A tinta preta tem que ser da cor de carvão. Gente, gente mesmo, não tem essa cor”, acrescentou.

O clima de alegria era generalizado. Embora não participem do bloco usando fantasias de “nêgas malucas”, as mulheres dos foliões levam os filhos no colo e se dividem entre cuidar das crianças e comprar cervejas para os maridos. “O importante é a diversão. Às vezes consigo trazer nossa babá junto para cuidar do bebê, mas hoje ela não estava bem de saúde”, lamenta. Apesar disso, nada atrapalha a curtição: “Não tenho esse corpo da cor do pecado, então ajudo meu marido na fantasia. Depois ele volta pro normal”, confidencia aos risos.

O diretor do Bloco puxa marchinhas e canções que embalam o domingo de lazer, mas diz que não perde tempo discutindo com pessoas que só querem destruir o trabalho honesto que sua família organiza há muitos anos. “É assim desde o século XVI, não vejo nada de mais. Se machucasse alguém, minha empregada seria a primeira a falar. Ela é como se fosse da família”, afirma. Para ele, o bloco “Nêga é Maluca Mesmo” tenta resgatar um pouco do que seu tataravô vivia, cultivando a sensação de liberdade plena. “Precisamos ter liberdade para representar nossas empregadas como elas são. Olha aquela ali que linda!”, exclama o empresário enquanto dá um leve tapa na enorme bunda de espuma que um dos foliões ostenta.

* Texto fictício. Qualquer semelhança com pessoas ou blocos reais é mera coincidência.

Foto de capa: Reprodução / Facebook



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1 comment

  1. caroline Responder

    A empregada é como se fosse da família, mas duvido que a empregada consiga cuidar da sua própria família enquanto está cuidando do filho do patrão para ele curtir o carnaval. Absurdo, que absurdo. Como são hipócritas!!!


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