Para sindicalistas, decepção do mercado com Bendine é bom sinal para o Brasil

Na avaliação de presidentes do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e da Contraf-CUT, novo homem forte da Petrobras fez boa gestão à frente do Banco do Brasil, apesar de "embates duros" com movimento sindical.

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Na avaliação de presidentes do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e da Contraf-CUT, novo homem forte da Petrobras fez boa gestão à frente do Banco do Brasil, apesar de “embates duros” com movimento sindical

Por Anna Beatriz Anjos

Há uma semana, Aldemir Bendine era confirmado pelo Palácio do Planalto como o novo presidente da Petrobras. Ele chegou para substituir a engenheira química Graça Foster, que comandou a estatal por três anos, o último deles marcado pela pior crise política de sua história.

O nome do sucessor de Foster era ansiosamente aguardado. Ele teria a missão, como dizia a mídia tradicional, de “ressuscitar a empresa”, já há meses na mira da Polícia Federal, Ministério Público e da própria imprensa tradicional, que a cada dia dispara novas denúncias e vazamentos da Operação Lava Jato. A presidente Dilma Rousseff (PT) acabou decidindo por Bendine, que, a princípio, não aparecia entre os nomes mais cotados.

Para ocupar o posto mais alto da Petrobras, o executivo, administrador de empresas por formação, deixou outro cargo correspondente no Banco do Brasil, que comandava desde 2009. Quando o assumiu, tinha missão semelhante à atual: gerenciar o cenário de instabilidade vivido pelo seu antecessor, Antônio Francisco Lima Neto – criticado pelo então presidente Lula pelas altas taxas de juros praticadas pela instituição em sua gestão – e retomar a credibilidade do BB. Tinha, ainda, outra desafio: elevar o crédito ao consumo, obedecendo à política do governo, sem deixar de garantir o lucro dos acionistas.

Anos depois do início da empreitada, considera-se que ele atingiu os objetivos. Sob sua direção, a carteira de crédito do Banco do Brasil deu um salto considerável: saiu de R$ 300 bilhões em 2009 para R$ 520 bilhões no final de 2012. No mesmo espaço de tempo, os ativos da instituição, que somavam R$ 700 bilhões, passaram a valer mais de R$ 1 trilhão.

O bom trabalho à frente do BB o credenciou para presidir a maior estatal do Brasil neste momento de tormenta. É o que indicam Carlos Alberto Cordeiro e Juvandia Leite, presidentes da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, respectivamente. Ambos tiveram contato com Bendine – ou Dida, como é mais conhecido – nos tempos em que ainda presidia o maior banco brasileiro. Em lados opostos da mesa, debatiam os direitos dos trabalhadores do setor.

“A sua gestão fortaleceu o diálogo com o movimento sindical, a presença do Banco em uma mesa nacional de negociação”, destaca Cordeiro. “Ele recebeu pauta com a gente, coisa que nos anos 90 era impossível, os presidentes do Banco do Brasil nem recebiam a nossa pauta, imagina sentar em uma mesa de negociação”, reitera Leite.

Ainda que Bendine tenha se mostrado mais disposto e aberto a receber os trabalhadores e ouvir suas demandas, o período em que esteve no comando do Banco do Brasil envolveu tensões com o movimento sindical. “Tivemos momentos duros, como a mudança unilateral no plano de cargos e funções. Fizemos os embates, faz parte da nossa função. Não foi uma gestão tão fácil nesse sentido”, relembra a presidenta do Sindicato dos Bancários.

Para Carlos Cordeiro, um dos marcos da administração de Bendine no BB foi a visão do papel de empresa pública que a instituição passou a adotar, sobretudo nos momentos de crise. “Através da figura do ex-presidente Lula, ele entendeu a importância do Banco do Brasil na ampliação do crédito para a sociedade. No momento em que o Brasil vivenciava uma crise e precisava de crédito, era uma figura contrária aos bancos privados. Como administrador de um banco público, na hora em que o país precisou do BB para fomentar crédito, ele não teve dúvida, e o banco cumpriu com esse papel”, explica.

O perfil de administrador público do novo presidente da Petrobras foi um dos fatores que mais provocou a insatisfação do mercado financeiro – as ações da estatal chegaram a cair 6% logo após o anúncio de seu nome. Alguns especialistas disseram, ainda, que ele gerava desconfiança por não ter experiência no setor de óleo e gás.

Na avaliação dos sindicalistas entrevistados pela Fórum, a rejeição do mercado é, na verdade, um sinal positivo, pois seus agentes defendem tão somente as políticas em consonância com seus interesses. “Se a imprensa e o mercado ficaram decepcionados com a indicação do ‘Dida’, significa que é uma coisa boa”, considera Leite. “Para mim, isso está diretamente relacionado à recente disputa entre os bancos públicos e privados, quando o mercado queria reduzir crédito, e nós tivemos no Banco do Brasil e na Caixa um contraponto a essa política”, finaliza Cordeiro.

(Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)



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