Para um carnaval transgressor

O carnaval, as feiras e as procissões para santos eram festas populares da Idade Média, conforme nos conta Mikhail Bakhtin em sua tese de doutorado, posteriormente publicada...

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O carnaval, as feiras e as procissões para santos eram festas populares da Idade Média, conforme nos conta Mikhail Bakhtin em sua tese de doutorado, posteriormente publicada no livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Ecoando as saturnais romanas, o carnaval “autêntico” nos países europeus tinha um contexto político muito específico: era a festa da inversão da ordem em uma sociedade de hierarquias e estruturas de poder muito bem definidas e sem possibilidade de mobilidade. Os bobos tornam-se reis, os castos tornam-se luxuriosos, o poder é destronado pelo riso, a santa madre igreja é o palco das maiores “perversões”: o povo, enfim, tem vez e voz, satirizando as figuras da autoridade como só o poderia fazer no carnaval, esses dias em que “a ordem oficial” das coisas e a noção de pecado estavam suspensas.

O carnaval, como Bakhtin o entende no contexto de Rabelais, só existe em sua máxima força diante da máxima repressão: em regimes políticos e sociais não-autoritários, o esplendor do carnaval como expressão popular genuína e libertadora é impossível.

Como, então, recuperar o caráter transgressor do carnaval nos nossos dias? A nudez do carnaval não é tabu no resto do ano, está estampada diariamente em todos os meios de comunicação. Ninguém precisa usar o carnaval como desculpa pra se embebedar, ou para transar com recém-conhecidos. A caricatura e a sátira de políticos, do papa e de outros líderes religiosos também não é proibida (ao menos não no autoproclamado “ocidente livre”) em outros contextos ao longo do ano. Onde está a nossa ordem? Onde está a nossa verdadeira autoridade inviolável e protegida durante todo o ano?

Nada mais transgressor numa sociedade capitalista e consumista do que viver o carnaval sem pagar nada por ele. O carnaval transgressor, hoje, como na Idade Média, acontece na rua, no espaço público. Tomando as ruas nesses poucos dias, podemos nos perguntar:  imagina se as ruas fossem nossas o resto do ano? E se tivéssemos a liberdade de tomar as ruas sem competir com os carros, e se fizéssemos desse circuito de dez km o trajeto casa-trabalho todos os dias, e se pudéssemos brincar e pular nos centros históricos abandonados de nossas cidades todos os dias?

Nada mais transgressor numa sociedade machista do que vestir a verdadeira nudez feminina – a nudez que revela estrias, celulite, mamilos, pelos e dobras. A nudez que despe-se da academia e do crossfit, das “medidas certas” e da noção de “ser sexy sem ser vulgar”. E se pudéssemos expor nossos corpos como eles realmente são o resto do ano? E se conquistássemos a irreverência da nudez masculina, e se nos libertássemos do “nojo” ou da “repugnância” que a nossa nudez desperta quando não atende à nudez-do-comercial-de-cerveja?

Nada mais transgressor numa sociedade individualista e desconfiada do que celebrar a união (consensual!) dos corpos e a confiança na boa-fé dos desconhecidos. Celebrar o corpo com seus cheiros, formas e texturas, sua expressão na dança, e até mesmo suas excreções. Quebrar o tabu da higienização excessiva dos corpos – deixar pra lá o nojinho! – é um ato político. Ajudar, se aproximar, abraçar, beijar (se quiser!), não fazer distinção entre conhecidos e desconhecidos são atos de entrega e liberdade (imprudência, dirá a autoridade que culpabiliza as vítimas, e somos livres para concordar ou discordar dela) que restituem ao carnaval o seu caráter transgressor que a autoridade tenta neutralizar.

O nosso carnaval não precisa ser a anarquia total que pode ter sido há alguns séculos atrás, como nos conta Bakhtin, mas também não pode ser essa festa de plástico, músculos, silicone e neon, setorizada por classes e controlada pelo dinheiro, em que o sujo satiriza o mal-lavado – uma repetição do que vemos o ano inteiro.

Podemos achar que o carnaval perdeu a sua força porque hoje somos mais livres, mas essa tal liberdade não passa de maquiagem e propaganda. A ordem e a normalização estão aí, e, pior do que aconteceu na Idade Média, agora ditam até aquela que deveria ser a mais libertadora das festas populares. Recuperemos o caráter transgressor do carnaval, porque é nele que exercitamos a liberdade pela qual lutaremos nas passarelas políticas a partir da quarta de cinzas.

(Foto: A luta entre o Carnaval e a Quaresma, Pieter Bruegel, o Velho, 1559)



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1 comment

  1. Franco Responder

    Bom gosto e uma educação de qualidade acabam com qualquer carnaval.


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