Pequenos fiéis: quando a intolerância religiosa atinge as crianças

Pesquisadores apontam que os adeptos de religiões de matriz africana acabam sendo mais afetados; depressão, isolamento e baixo rendimento escolar são algumas das consequências da discriminação entre os mais jovens.

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Pesquisadores apontam que os adeptos de religiões de matriz africana acabam sendo mais afetados; depressão, isolamento e baixo rendimento escolar são algumas das consequências da discriminação entre os mais jovens

Por Maíra Streit

Em setembro do ano passado, um aluno da Escola Municipal Francisco Campos, no Grajaú, Zona Norte do Rio, foi barrado pela diretora por usar guias de candomblé por baixo do uniforme, além de bermuda e boné brancos, que faziam parte de um processo de iniciação à fé. Depois de relatar casos de humilhação diante dos colegas, ele ficou um tempo afastado e decidiu mudar de colégio.

Na cidade de Porto Velho, capital de Rondônia, uma estudante de oito anos contou ter sido vítima de preconceito religioso. O caso foi parar na delegacia e, de acordo com o boletim de ocorrência registrado pela família, a menina era chamada de “preta do diabo”, “endemoniada”, “satanás” e outros xingamentos pela professora, que pertence à Igreja Universal do Reino de Deus. Em uma ocasião, ela teria reunido os alunos e pedido que colocassem a mão na cabeça da garota para expulsar um suposto “demônio” que existia em seu corpo.

Casos assim são mais comuns do que se imagina e mostram que, embora o Brasil seja conhecido pela multiplicidade de crenças e culturas, a questão religiosa ainda é tabu para boa parte das pessoas. Especialistas alertam que durante a fase escolar – em que o jovem consolida sua formação educacional e também social – é preciso garantir que haja valorização e respeito às diferenças para que essa lição seja levada adiante, em outras fases da vida.

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De acordo com SDH, 35,39% das vítimas de intolerância religiosa eram negros ou pardos (Foto: Roniel Felipe)

Em pesquisa realizada entre 2010 e 2011 pela Relatoria Nacional para o Direito Humano à Educação, da Plataforma DHESCA, a jornalista Denise Carreira visitou escolas de vários estados e constatou que a intolerância religiosa nas instituições de ensino é um problema grave e ainda invisível para as autoridades e a sociedade como um todo. Ela destaca o despreparo dos profissionais para lidar com a questão e afirma que as principais vítimas de preconceito são os adeptos das religiões de matriz africana, como candomblé e umbanda.

Para ela, a questão está intimamente ligada ao enfrentamento do racismo no país e é um dos principais obstáculos para a aplicação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira em toda a educação básica. Segundo Denise, embora esteja previsto na legislação, esse conteúdo, na prática, é pouco discutido com os alunos em sala de aula.

O resultado disso seria a disseminação do preconceito, que acaba afetando o desenvolvimento dos jovens. “O que a gente observa são situações de humilhação, isolamento social, quadros de depressão, problemas de desempenho, baixo rendimento, medo e vergonha”, ressalta. A pesquisa aponta ainda para casos de violência física – como socos e apedrejamento – contra estudantes e a demissão de profissionais de educação adeptos de religiões de matriz africana.

De acordo com a pesquisadora, o aumento expressivo de grupos conservadores e fundamentalistas no Brasil acaba se manifestando desde a formação do Congresso Nacional até em pequenos núcleos da comunidade, como as escolas. “Esse deveria ser um espaço de todos e não pode ser dominado pela doutrinação ou o proselitismo de algumas religiões”, enfatiza.

Na opinião do presidente da Comissão de Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB/SP), Jader Freire de Macedo Júnior, esse tipo de violência simbólica não deve ser negligenciado. “Existe intolerância religiosa no Brasil e é séria. Não é explícita, é simbólica. A pessoa não declara, mas se manifesta dessa forma, causando danos psicológicos. A maioria [das vítimas] sente a dor na alma e se cala”, afirma.

Ele lembra um processo judicial que se encontra em andamento, em que um estudante de São Bernardo do Campo, em São Paulo, relata ter sido obrigado a fazer orações evangélicas por uma professora que insistia em ler a bíblia antes do início das aulas. Além disso, o garoto dizia sofrer perseguição por parte dos colegas, que o chamavam de “adorador do diabo” por ter o pai sacerdote de candomblé.

Dados do Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), registraram 149 denúncias de discriminação por motivos religiosos no ano passado; a maioria do Rio de Janeiro (26,17%) e de São Paulo (19,46%). Em 2013, foram 228 denúncias. O mesmo levantamento mostra que 35,39% das vítimas de discriminação por motivação religiosa eram negros ou pardos, enquanto 21,35% eram brancos e, 0,56%, indígenas, o que reforçaria a relação entre intolerância religiosa e preconceito racial.

Procurada, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) da Presidência afirmou que ainda não possui um mapeamento completo desses dados, mas que deve lançar ainda neste semestre o Disque Igualdade Racial, um serviço que pretende estimular as denúncias de discriminação em todo o país.

Para a professora Eliane Gouveia, do Núcleo de Pesquisa Religião e Sociedade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), é preciso avançar para que o Brasil se reconheça, de fato, como um país multirreligioso. “A gente tem assistido a uma disputa por poder e isso se reflete na escola. Vemos animosidades entre colegas de classe que têm dificultado a atuação dos docentes. É importante trabalharmos de uma forma a conviver com a diversidade, a ampliação dos saberes, sem reforçar condutas discriminatórias que reforçam a exclusão social”, observa.

Uma data para não esquecer

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Busto de Mãe Gilda, em Salvador (Foto: Correio Nagô)

Como exemplo das consequências geradas pelo desrespeito às crenças de matriz africana, desde 2007 é comemorado, em 21 de janeiro, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Criada no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a partir de uma reivindicação do movimento negro, a data homenageia a mãe de santo Gildásia dos Santos, conhecida como Mãe Gilda.

Ela morreu no ano 2000, após sofrer um enfarto e ter uma série de complicações de saúde ao ver sua imagem no jornal Folha Universal, cujo título da matéria era: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. A casa de Mãe Gilda foi invadida, seu marido sofreu agressões físicas e verbais e o terreiro em que atuavam foi depredado.

Foto de capa: Roniel Felipe



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