Para as recalcadas, com amor

“Mulher é tudo invejosa”, “não dá pra confiar em mulher”, “mulher não é amiga de verdade”. A mensagem reforçada é sempre a mesma: mulheres são traiçoeiras, falsas e, acima de tudo, as piores inimigas umas das outras. O assunto pode parecer fútil, irrelevante ou...

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“Mulher é tudo invejosa”, “não dá pra confiar em mulher”, “mulher não é amiga de verdade”. A mensagem reforçada é sempre a mesma: mulheres são traiçoeiras, falsas e, acima de tudo, as piores inimigas umas das outras. O assunto pode parecer fútil, irrelevante ou até desprezível de um ponto de vista político, mas há quem discorde e chame atenção para os mecanismos de controle e opressão escondidos nesses discursos

Por Jarid Arraes

“Mulher é tudo invejosa”, “não dá pra confiar em mulher”, “mulher não é amiga de verdade”: estas são apenas algumas das centenas de colocações repetidas em nossa sociedade. A mensagem reforçada é sempre a mesma, de que as mulheres são traiçoeiras, falsas e, acima de tudo, as piores inimigas umas das outras

Nos últimos anos, houve grande proliferação de músicas e frases de efeito que falam sobre supostas “recalcadas”: mulheres que não aguentam o sucesso das outras e, por isso, fazem de tudo para destruir essas conquistas – ou copiá-las. Muitas se sentem pessoalmente prejudicadas por figuras assim, sem perceberem que podem, também, ser consideradas recalcadas por outras mulheres. A questão pode parecer fútil, irrelevante ou até desprezível de um ponto de vista político. Mas há quem discorde e chame atenção para os mecanismos de controle e opressão escondidos nesses discursos.

Tudo isso é extremamente pertinente em debates sobre gênero e violência.

O recalque passou perto

Brunna Miguez (Foto: Arquivo pessoal)
Brunna Miguez (Foto: Arquivo pessoal)

São muitas as garotas que relatam, desde cedo, que se sentem encorajadas a rivalizar com outras meninas. Esse é o caso da publicitária Brunna Miguez, que conta que cresceu sob estímulos para que competisse com outras garotas, principalmente com sua irmã, que se encaixava muito mais nos padrões sociais de feminilidade. “Cresci num ambiente de comparação, onde tudo que eu fazia era comparado à minha irmã, a típica menina magra e bonita que gostava de Chiquititas e Barbie. Eu era a moleca, que não usava vestidos e gostava de assistir Dragon Ball Z”, relata.A competição para mim sempre veio para conquistar aceitação, já que eu sentia que era extremamente difícil ser aceita tanto em casa quanto no colégio. Na minha cabeça, a concorrência era totalmente desleal; como competir com uma menina que era excelente aluna, fazia balé e ainda era magra e bonita? A minha irmã era o oposto de tudo que eu sempre fui, e no colégio era exatamente a mesma coisa, como competir com as meninas bonitas, magras e altas?”

O que poderia se limitar a uma sensação de inferioridade e baixa autoestima, para Miguez também gerou raiva. “Quando eu era pequena, o sentimento de inferioridade era claro, mas depois que cresci e as cobranças sobre o meu corpo e as minhas atitudes aumentaram, esse sentimento se misturava com raiva e constante frustração”, confessa. Isso é algo que só mudou a partir de seu contato com o feminismo, junto com sua compreensão de que aquelas situações faziam parte de um problema social muito maior.

No entanto, antes de tomar consciência sobre o problema do machismo, Brunna Miguez viveu relações de amizade repletas de insegurança e medo do famoso fantasma da falsidade feminina. “Eu não me lembro de ter experiências ruins com as minhas amizades femininas, mas com toda certeza a relação de confiança nunca foi completa, sempre acontecia o medo de ser julgada, até pelas coisas mais estúpidas”, relembra. “Parece muito clichê, mas antes do feminismo e do apoio das irmãs de luta, para cada passo ou palavra que eu dizia eu pensava: ‘como as pessoas vão receber isso? Elas vão falar mal? Comentar?’. Inclusive, esse sentimento aparecia quando eu estava perto das minhas amigas, eu morria de medo de falarem de mim porque sempre rolaram fofocas de ‘você viu o que fulana fez’ e eu não queria ser a próxima, eu não queria ser a mal falada, eu não queria ser menos que ninguém.”

Para a estudante de Psicologia Elisa Saran Bailone, a experiência na infância foi muito similar. “Me recordo que não confiava completamente nas meninas, não me sentia à vontade para falar sobre qualquer assunto com elas por causa disso. Inclusive, quando eu tinha uns 11 anos, me lembro de literalmente competir por um menino com a minha melhor amiga da época, nós duas gostávamos dele e ambas sabiamos disso, tínhamos um acordo de uma não ficar chateada se ele escolhesse a outra; no final das contas ele nunca deu bola pra nenhuma de nós e continuamos a amizade”, conta. Bailone também compartilha que chegou a contar um segredo para uma colega, mas se decepcionou ao descobrir que seu segredo já era conhecimento comum de todo o colégio, por causa da falsidade da amiga.

“Na escola acontecia uma competição, mas de um modo que passava despercebido por outras pessoas, principalmente no ensino médio, época em que comecei a engordar e já era possível ver a distinção que faziam de mim e outras meninas mais magras e dentro do padrão de beleza, isso me influenciou, nessa época eu tentava ser como elas e pra isso comecei a entrar em dietas malucas que nunca davam resultado”, relata Bailone.

A cineasta e escritora feminista Maynara Fanucci também compartilha uma história semelhante. “Cresci tendo muito mais amigos homens do que mulheres. Sentia que existia uma competição ou barreira sempre que eu tentava me aproximar de algum grupo de mulheres e sempre fui muito na minha, o que não contribuía em nada pra quebrar o gelo. Me sentia fechada demais pra me aproximar de outras mulheres, parecia que existia uma barreira gigantesca que não me permitia alcançá-las.”

As consequências de comportamentos que estimulam ou reproduzem a competição e desconfiança entre mulheres são severas, pois geram prejuízos na autoestima e autoimagem de meninas e faz com que cresçam cercadas pelo receio de serem expostas, ridicularizadas ou julgadas. A amizade, que deveria criar laços afetivos de bem estar, deixa de ser algo positivo e recompensador para se transformar numa constante tentativa de evitar a exclusão. De tão naturalizados, casos assim são muito impactantes para a personalidade e vivência das mulheres. E se tantas garotas “sabem”, desde tão pequenas, que não devem confiar umas nas outras, é porque estão aprendendo em algum lugar a pensar e agir desse modo.

Nesse sentido, as músicas e indiretas que falam sobre o “recalque” das invejosas estão apenas dizendo mais do mesmo e reafirmando os valores aprendidos desde cedo. “Elas reforçam algo que nos é ensinado desde pequenas: outras mulheres são inimigas”, afirma Miguez. “Acho que é ainda pior quando a disputa é por homens, somos criadas para acreditar que sem o amor romântico, no caso hétero, nunca seremos felizes. Em algum ponto, você terá que casar e ter filhos, caso o contrario nunca será feliz – e ninguém quer ser a solteirona. Isso faz a gente esquecer a felicidade que uma amizade verdadeira nos traz; o sentimento de confiança, de compreensão, que a gente pode achar em um namorado, mas que seria muito mais fácil de achar em uma mulher, se não víssemos umas as outras como competidoras, porque nós mulheres muitas vezes passamos pelas mesmas coisas”.

Maynara Fanucci adiciona um ponto importante quando diz que essas músicas se replicam rapidamente e transformam-se em bordões. “Ganham as mídias, os espaços públicos e privados, as escolas, estão na internet e na televisão e, quando você menos espera, se depara com uma criança de 4 anos falando essas coisas absurdas e internalizando esses conceitos horríveis e mentirosos”, conclui.

Às amigas, vida longa

Maynara Fanucci (Foto: Arquivo pessoal)
Maynara Fanucci (Foto: Arquivo pessoal)

Para muitas mulheres, a ideia da união feminina como meio para o empoderamento pode ser muito encorajadora. Afinal, todas as mulheres possuem pelo menos um denominador comum. Todas sofrem com as cobranças impostas pela sociedade, seja pelo corpo ou comportamento. “É por isso que temos que nos ajudar”, explica Brunna Miguez, que acredita que ao entender a história da outra mulher, torna-se mais fácil ter empatia. “Esse sentimento de raiva e inveja que nos ensinam desde crianças nos afasta e faz a gente ficar extremamente insegura, pois as únicas pessoas que entenderiam o que estamos passando – outras mulheres, que também sofrem como o machismo – são as competidoras”.

Maynara Fanucci explica que as disputas entre as mulheres são muito comuns – “para ver quem é mais bonita, quem tem o melhor corpo, o melhor cabelo, as melhores roupas, o melhor namorado. Isso quando mulheres não brigam entre si para disputar um homem”, argumenta. “Acho que esse paradigma só pode ter sido instaurado pelo lado que se beneficia com ele: o homem. Os homens e o patriarcado aplaudem quando veem mulheres brigando”. De fato, a cineasta lembra que as brigas entre mulheres são ovacionadas por homens e que não é difícil encontrar exemplos. “Em casos de infidelidade de um homem, a esposa ou companheira vai atrás da outra mulher, como se ela fosse a única culpada pelo ocorrido. Porque foi ‘aquelazinha’ que deu em cima do ‘meu homem’, ela que é a ‘sem vergonha’. Fazem barraco, ameaçam, xingam e expõem a outra, enquanto o homem tá bem no cantinho dele vendo mulheres disputarem sua atenção”.

Elisa Bailone explica que se todas as mulheres deixarem a rivalidade de lado, a consequência é que sintam-se mais seguras e sejam mais felizes; “Com isso acabamos escutando histórias de outras mulheres e como elas superaram seus problemas; a partir daí nos empoderamos, já que percebemos que não estamos sozinhas”. Maynara Fanucci reforça a importância da união feminina e lembra que nem sempre entendemos a gravidade de alimentar a rivalidade. “Nem sempre enxergamos o quão depreciativo isso é e o quanto isso nos afasta. Enquanto continuarmos reproduzindo isso e pensando que mulheres são inimigas, não vamos nos permitir aprender, crescer e nos fortalecer umas com as outras”.

“A união de mulheres é tão importante, quase que um princípio básico para adquirirmos força e lutarmos pelos nossos direitos”, diz Fanucci. “Inclusive, quando você empodera outra mulher, está dando poder à sua própria voz, vivência e vida. Somos ensinadas a nos fechar para outras mulheres, sendo que as nossas experiências devem ser compartilhadas, porque são semelhantes. Nenhuma outra pessoa vai te entender tanto quanto outra mulher. Mulheres passam por violências, depreciações, assédio. Não sou só eu que sofro com o assédio nas ruas, com o medo de ser estuprada, ou com a diminuição da minha pessoa só pelo fato de ser mulher”.

Para unir as mulheres contra o machismo, não existe movimento mais apropriado do que o Feminismo. São inúmeros os relatos de mulheres que encontraram libertação em suas vidas quando descobriram o Feminismo e puderam se aproximar de outras mulheres sem rivalidade. “A noção de ajuda e de irmandade veio depois que eu conheci o Feminismo, que, aliás, foi algo me mudou completamente”, compartilha Elisa Bailone. Para Brunna Miguez, a principal parte do feminismo é o empoderamento das mulheres. “No feminismo, sempre que me abri com as meninas, eu tinha certeza que se viessem falar de mim para elas eu seria defendida com unhas e dentes”, pontifica.

Elisa Bailone (Foto: Arquivo pessoal)
Elisa Bailone (Foto: Arquivo pessoal)

De fato, o enorme potencial para amizades entre mulheres libertas é incrível e faz com que o Feminismo seja a maior porta de entrada para uma sororidade feminina. “A relação de amizade que eu criei com as meninas dentro do feminismo foi algo que eu nunca senti na vida, quando você para de julgar a outra pessoa e começa a ajudá-la é uma sensação de confiança inexplicável, aquele sentimento incômodo de preocupação em ser julgada vai embora e com ele vai também um peso enorme que você percebe que carregava. Isso tudo fora a sensação de empoderamento, escutar a historia das outras meninas, ajudar e ver como elas superaram, te faz mais forte para enfrentar seus problemas e empoderar outras meninas”, conta Miguez.

Bailone adiciona que ter aprendido o conceito de sororidade foi muito importante pra que ela visse outras mulheres como irmãs e tivesse vontade de ajudá-las ao invés de vê-las como rivais. “A ajuda que as mulheres se dão dentro do feminismo é algo incrível, que vejo como uma das atitudes feministas mais importantes, pois ao ajudar ou ter empatia com alguma vivência de uma irmã, ela vai ter mais força para enfrentar toda a opressão que sofremos diariamente por causa do machismo”.

Segundo Maynara Fanucci, as mulheres feministas se reconhecem e se dão força. “É como costumamos dizer dentro do movimento: só mulheres libertam outras mulheres. E esses laços são fundamentais, de reconhecimento de vivência, de ouvir o lado da outra que passa por opressões semelhantes”, explica. Para ela, independente da pessoa se chamar de feminista ou não, ela acaba lutando pelas mesmas coisas.

“Costumo dizer que mulheres que dizem que não precisam do feminismo são como pessoas que fazem xixi dentro da piscina que estão nadando. Uma hora outra, elas vão engolir a água suja. É meio em tom de piada, mas não tem como uma mulher ainda acreditar que ela não precisa do feminismo”, exemplifica. “Querendo se identificar como feminista ou não, o foco é estabelecer laços de irmandade e quebrar a competição que nada nos beneficia como classe oprimida”, completa Maynara.

Fechando com o bonde

No entanto, mesmo no Feminismo o percurso rumo à desconstrução do machismo internalizado pode ser árduo. Tendo conhecimento disso e baseando-se na própria vivência, Maynara Fanucci lançou nas redes sociais um projeto que conquistou muita popularidade: o Empodere Duas Mulheres.

Fanucci explica que o projeto surgiu de questionamentos profundos, enquanto observava discordâncias, brigas e dificuldades internas no movimento feminista brasileiro. “Foi uma onda avassaladora de conflitos internos e pessoais muito fortes. Não que eu tenha deixado de ser feminista, longe disso. Mas eu fiquei me questionando muito sobre o movimento em si, algumas brigas internas entre vertentes e problematização de discursos, e pensei que o feminismo pra mim só seria palpável se eu pudesse atingir as mulheres periféricas o movimento, as que desconhecem, ignoram a sua existência ou têm resistência a ele”.

Por causa de seu desconforto, Fanucci escreveu um texto onde desabafava sobre os atritos entre feministas que defendiam ou discordavam sobre a participação masculina no movimento social. “Nos focamos às vezes em discutir sobre o papel do homem cis nisso tudo, e esquecemos das outras urgências que nos dizem respeito e nos afetam. Nesse texto que eu escrevi, eu desabafava sobre o movimento feminista, mas principalmente sobre a inclusão de homem cis dentro dele”, explica. “Sou a pessoa que acredita piamente que é muito mais importante nós repassarmos esse conteúdo de empoderamento e feminismo para outras mulheres cis, e também mulheres e homens trans, binários ou não-binários. São as partes que realmente importam nisso tudo, e que merecem atenção”, afirma.

Campanha "Empodere Duas Mulheres" (Foto: Divulgação)
Projeto “Empodere Duas Mulheres” (Foto: Divulgação)

A feminista identifica situações como essas como outras reproduções de uma mesma ideologia machista, que tem como objetivo separar as mulheres para que, evitando sua união e articulação política, todas as pautas urgentes que visam acabar com a misoginia na sociedade fiquem em segundo plano e nunca sejam concretizadas. Empoderar duas mulheres, sob essa ótica, seria uma forma de redirecionar os esforços e focar nas conquistas femininas, no oferecimento de suporte que outras mulheres precisam e na transformação social que pode vir por consequência. Com mulheres fortes, empoderadas e empáticas umas com as outras, a reivindicações sociais avançam e a pressão pela mudança social é feita com efetividade.

“O objetivo é disseminar o conteúdo do feminismo entre as que precisam dele, quebrar barreiras, falar sobre ele e empoderar mulheres, quebrando a ideia de que elas precisam competir entre si ou serem inimigas, simplesmente porque a sociedade patriarcal e machista definiu assim. Quem se beneficia com isso tudo não somos nós, pelo contrário. Um dos objetivos também é levar isso tudo pro físico, seja em ações em comunidades ou locais que estejam dispostos a abrigar esse tipo de debate”, explica Fanucci.

A página do projeto Empodere Duas Mulheres tem mais de 14 mil curtidas orgânicas e atraiu muita atenção quando virou matéria na Capricho, uma revista voltada para o público feminino adolescente e que, em muitos dos seus textos, estimula o que o próprio Empodere Duas Mulheres deseja destruir: a inimizade e falta de cooperação entre meninas, garotas e mulheres. Apesar disso, a matéria trouxe até a página um grande número de garotas jovens e suas mães. “Já vi senhoras de 70 anos curtindo e comentando, assim como meninas de 13. Tem todas as idades e classes sociais. A internet é uma ferramenta muito potente de disseminação de conteúdo e eu nem esperava que fosse se tornar isso tudo em pouco mais de duas semanas de campanha”.

Como a própria Maynara Fanucci explica, o Feminismo é libertador. “Quando exercitamos a união, a sororidade e a empatia, fortalecemos a nossa causa e aumentamos a chance de conseguirmos conquistar a equidade”, argumenta. “E acho que todo mundo deveria se abrir mais pra ele. Ouvir mais, ler mais, se deixar tocar por essa causa. Eu tenho certeza que quem fizer isso, não vai se arrepender”.



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