“Birdman”, o homem célebre que ainda queremos ser

“O alferes eliminou o homem” Machado de Assis, em O espelho O roteiro de Birdman – ou a inesperada virtude da ignorância, filme ganhador do Oscar de melhor filme na...

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“O alferes eliminou o homem”

Machado de Assis, em espelho

O roteiro de Birdman – ou a inesperada virtude da ignorância, filme ganhador do Oscar de melhor filme na noite passada, foi baseado no conto Do que falamos quando falamos de amor, do escritor americano Ray Carver, mas traz questões já levantadas por Machado de Assis em dois contos do fim do séc. XIX: Um homem célebre e O espelho.

Riggan Thomson, interpretado por Michael Keaton, enfrenta o mesmo dilema do compositor de Um homem célebre: ceder à fama fácil (polcas/filmes de super-herói) ou perseguir a grandiosidade artística (música clássica/teatro). O (falso) dilema é herança de um idealismo estético que ainda crê na Arte com “a” maiúsculo: pura, absoluta, transcendental, que existiria além e independente da vontade humana, esperando desde a eternidade e por toda a eternidade, em algum lugar desconhecido, que o artista eleito a possa encontrar e revelar ao mundo.

Além dessa cobrança interior do artista que deseja ser “grande”, há a necessidade de validação externa: tal qual no conto O espelho, o traje ameaça substituir o homem em Birdman. No texto machadiano, o alferes precisa olhar-se no espelho com a farda para lembrar que “existe”. Na trama de Iñarritu, o traje da fama – a fantasia do super-herói – é personificado em uma aparição esquizofrênica que sopra aos ouvidos de Thomson as memórias dos tempos de celebridade. O espelho de Thomson, mesmo contra a sua vontade, é a internet, esse desconhecido espectro virtual que reúne a opinião de milhões de críticos que tanto podem alimentar seu ego quanto lançá-lo na mais completa obscuridade.

Birdman é, assim, um filme extremamente atual, justamente porque nos mostra que não nos livramos dos ideais românticos que enformam nossa cultura ocidental há trezentos anos. O artista é o vate inspirado – o porta-voz eleito da Beleza? A ganância, a vaidade e a sede de poder e fama corrompem a “verdadeira” arte?

Entretanto, se no séc. XVIII e ao longo do séc. XIX estas questões eram próprias de uma classe específica que “representava” todos os dilemas humanos, a dos artistas, nesse início de séc. XXI cada um de nós é o grande sujeito protagonista de seu próprio filme. Some-se a essa “democratização” das dúvidas existencialistas a internet, e temos um boom de almas ansiosas por expressar sua individualidade, afirmar sua personalidade, terem seus medos e anseios assistidos e aplaudidos.

Aí está, para mim, o grande subtexto desse filme: Birdman não é só sobre a classe artística, hollywood e o show business. Birdman é sobre todo ser humano que deseja tornar a sua existência relevante – sobre todos que tentam deixar ao mundo algum legado. A internet e as redes sociais nos transformaram em astros e estrelas de menor grandeza, todos temos nossas pequenas comunidades de “seguidores”, nosso feed particular de fofoca, nossos críticos e “inimigos” públicos.

A força do cinema e de Hollywood na cultura ocidental hoje é tão grande que reproduzimos nos nossos contextos privados as dinâmicas e narrativas que vemos no e sobre o tal “mundo das celebridades”. A internet é a voz esquizofrênica que nos lembra que somos grandes, que somos bons, poderosos e que deixaremos nosso nome gravado na história da humanidade – ou ao menos na do nosso clubinho particular. Por isso criamos blogs e escrevemos textões no facebook, por isso associamos ao nosso nome um rosto e chamamos-lhe “carreira”, por isso criamos contas e mais contas em redes sociais e tentamos expressar o que “verdadeiramente” somos a todo o momento.

Cada um de nós que temos tempo e condições materiais de pensar nas chamadas questões “humanas” não é mais vaidoso do que nossos antepassados. Mas hoje somos muito mais numerosos, e a nossa voz – e imagem – tem um alcance muito maior. Não somos mais megalomaníacos e egoístas hoje do que há trezentos anos: somos numericamente mais pessoas egoístas e megalomaníacas. Precisaremos criar uma outra humanidade só para validar o nosso ego.

Birdman trata ainda de um grande impasse no confronto travado entre alcance e qualidade da obra de arte: no sistema capitalista democratizar é mercantilizar. Se, por um lado, o conceito de pureza da arte é aristocrático e elitista, por outro lado, a democratização da arte por meio do mercado nivela a sua qualidade por baixo, pelo mais barato e pelo mais fácil de ser digerido. Ainda não achamos um equilíbrio, se é que ele existe, entre celebridade e relevância.

Com a sua câmera intrusa e bisbilhoteira de reality show, e seus diálogos impactantes e cenários minimalistas de teatro, Inãrritu nos lembra também que é impossível, hoje, criticar o sistema «de fora» do sistema. Iñarritu está completamente envolvido na sociedade que critica, tudo em Birdman é metaficção e discurso autorreflexivo, tudo é encenação: desde a peça baseada em Carter, passando pelo filme em si e a grande encenação do Oscar ontem à noite – um discurso dentro de um discurso dentro de um discurso – não como uma boneca russa, mas como uma teia em que tudo está interligado. A “vida real” na esfera pública nada mais é do que uma colossal montagem. Não há linha que diga onde termina o espetáculo. Talvez isso a que chamamos de vida real exista cada vez menos – tudo o que acontece no nível virtual da linguagem é ficção.

Pela popularidade do filme, que crescerá depois da premiação de ontem, mais pessoas verão essa “crítica ao sistema”. Mas o seu efeito “soco no estômago” diminui e é neutralizado com a validação do próprio sistema. As questões ali postas são então diluídas e suavizadas, e esse é o real dilema da arte dentro do capitalismo: devemos fazer arte revolucionária exclusiva para cinco pessoas que não precisam do sistema ou vale a pena perder um pouco do impacto transgressor para poder alcançar milhões de consciências?

Por fim, a leitura do filme indica ainda que a proposta de Iñarritu não é cínica – como a de Machado e a do personagem de Edward Norton -, ele não se coloca como superior a “tudo isso que está aí”, e, portanto, com poder e isenção para criticar o sistema.

Sua tentativa é, antes, de questionar como e por quem queremos ser validados, que farda – ou traje de super-herói – ainda vestimos todos os dias, quem elegemos como espelho, quem infla e quem destrói nosso sonho de grandeza, o que é, afinal, ser célebre e relevante.

Não importa a fama, e o quão longe nosso nome chegue, ou quantos milhões de visualizações e likes temos na internet: ainda morreremos sozinhos e seremos esquecidos mais cedo ou mais tarde. A solidão e a morte é o que encontramos no fim de tudo, invariavelmente. Fazer algo de significativo para a nossa família – corpos e existências concretas que podemos tocar e amar ao longo da vida – e não para uma posteridade abstrata, para críticos elitistas, ou para ganhar likes indiferentes na internet parece, segundo os realizadores de Birdman, ser uma boa forma de alcançarmos uma existência menos angustiada e inútil.



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