“Minha vida acabou”, afirma ex-contadora de Alberto Youssef

Em entrevista exclusiva à Fórum, Meire Poza fala sobre os bastidores do esquema, diz se sentir sozinha, com dificuldades financeiras, além de sofrer pressão de empreiteiras e políticos após ter se tornado testemunha-chave da operação Lava Jato

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Em entrevista exclusiva à Fórum, Meire Poza fala sobre os bastidores do esquema, diz se sentir sozinha, com dificuldades financeiras, além de sofrer pressão de empreiteiras e políticos após ter se tornado testemunha-chave da operação Lava Jato; segundo ela, o doleiro e seus comparsas tinham certeza de que ficariam impunes: “eles agiam muito à vontade”

Por Maíra Streit

BRASÍLIA – Ela se expressa de forma articulada, com voz firme e sem muita hesitação. Tudo o que Meire Poza diz passou a ser ouvido com atenção especial desde o início da operação Lava Jato, coordenada pela Polícia Federal, quando se tornou testemunha-chave de um intrincado esquema de corrupção que mobiliza o noticiário de norte a sul do país.

Durante quase quatro anos, seu escritório de contabilidade teve como um dos principais clientes ninguém menos do que Alberto Youssef, o doleiro responsável por comandar desvios de recursos públicos em conluio com o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa. De acordo com as investigações, o grupo era formado ainda por outros funcionários, além de políticos e executivos de empreiteiras, que pagavam propina para terem contratos fechados com a estatal.

Em depoimento à CPI Mista da Petrobras, em outubro do ano passado, Meire admitiu ter emitido R$ 7 milhões em notas frias em serviços prestados a empresas de seu ex-cliente e afirmou ter consciência de que deve responder por isso. Porém, não sozinha. A partir do momento em que resolveu contar tudo o que sabe sobre os bastidores das negociatas de Youssef, foram muitos os nomes que passaram a surgir nesses relatos. Alguns, inclusive, bem conhecidos.

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O escritório de Meire prestou serviços para Youssef entre 2010 e 2014 (Foto: EBC)

Segundo a contadora, o ex-deputado Luiz Argôlo (SD-BA) era amigo e sócio de Youssef na empresa Malga Engenharia, com sede em São Paulo. O parlamentar, carinhosamente chamado pelo doleiro de “bebê Johnson”, teria recebido vultosas transações bancárias, em nomes de terceiros, e um helicóptero de presente avaliado em R$ 800 mil.

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), conforme declarações de Meire, foi procurado por Alberto Youssef para acertar investimentos do Postalis (fundo de pensão dos Correios) em uma de suas empresas, a Marsans Brasil. A reunião teria acontecido em 12 de março, pouco antes da prisão do doleiro.

Por último, foi a vez do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ser mencionado por ela. Segundo contou à imprensa, um dos operadores de Youssef, Ari Ariza, constantemente se vangloriava de ter boas relações com Cunha e de resolver com ele “qualquer problema de notas fiscais”. André Vargas (sem partido-PR), Mário Negromonte (PP-BA) e Fernando Collor (PTB-AL) foram alguns dos outros políticos citados por um suposto envolvimento com as operações ilegais efetuadas por Alberto Youssef.

Em entrevista exclusiva à Fórum, Meire Poza relata que sofreu tentativas de intimidação por parte de empreiteiras e alguns parlamentares, conta que está com dificuldades financeiras após ter perdido credibilidade no mercado e que o doleiro Youssef agia com a certeza da impunidade: “o Alberto, talvez pelo nível de conhecimento de políticos que tinha, achava que tudo isso jamais seria descoberto. Tinha total segurança naquilo que fazia”, enfatizou.

Meire afirma não ser “ligada em política” e que, por isso, muitas figuras públicas podem ter passado despercebidas por ela nos serviços contábeis que realizava todos os dias. Quem são e que tipo de relações essas pessoas mantinham com o doleiro somente as próximas etapas da operação Lava Jato poderão confirmar.

Confira abaixo, na íntegra, essas e outras declarações da entrevista com a contadora Meire Poza.

Fórum – Há uma expectativa em torno da operação Lava Jato para a divulgação dos nomes de políticos envolvidos em negociações ilegais com Alberto Youssef. Sabe-se que muito ainda não foi revelado. Pelo que a senhora acompanhava, o que se pode esperar dessa etapa de investigações? Quais outras pessoas a senhora teria contatado quando prestava serviços para o Youssef, que por ventura ainda não tenham vindo a público?

Meire Poza – Tenho um escritório de contabilidade, que já existia antes de conhecer Alberto Youssef. Trabalho na área desde 2005. Sendo assim, eu não ficava diariamente no escritório do Alberto. Num primeiro momento, o escritório dele ficava em endereço distinto da GFD [apontada pela Polícia Federal como uma das empresas de fachada do doleiro]. Ele só se mudou para o escritório onde ficava a GFD em 2013 e eu só conheci o Alberto em setembro de 2012.

Diante disso, não sou capaz de dizer quais políticos serão diretamente atingidos. Nunca fui ligada em política, portanto alguns nomes e até pessoas devem ter fugido do meu conhecimento por pura ignorância. Entretanto, não acredito que surjam grandes nomes nessa etapa. Não me recordo de outras pessoas que tenham importância e que não tenham sido citadas até o momento. Inclusive, é importante dizer que eu não tinha conhecimento do envolvimento da Petrobras. Só soube no decorrer da operação Lava Jato.

Fórum – Entre os parlamentares citados, alguns agiram na tentativa de desqualificar os seus depoimentos. O ex-deputado Luiz Argôlo a acusou de extorsão e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, quis tirá-la da condição de testemunha e enquadrá-la como integrante do esquema de corrupção. Como a senhora avalia essas reações? Teme ser responsabilizada?

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Segundo a contadora, Luiz Argôlo era amigo e sócio do doleiro (Foto: Gustavo Lima / Câmara dos Deputados)

Meire – Em relação ao ex-deputado Luiz Argôlo, infelizmente ele tomou a atitude mais infeliz que poderia ter tomado. Agiu na tentativa de se preservar, tentando me desqualificar. Porém, além da Polícia Federal ter provas sobre o envolvimento dele, também tenho a gravação do encontro que tive com o advogado Aluisio Lundgren [que representa o parlamentar], onde resta mais do que provado que jamais o extorqui [em setembro, ela apresentou à Câmara dos Deputados a gravação de uma conversa em que Aluisio teria feito uma proposta financeira em troca de silêncio sobre o caso]. A atitude dele vem de encontro à participação no esquema do Alberto Youssef: faltou integridade, coragem e transparência.

Já em relação ao deputado Eduardo Cunha, não sei avaliar o motivo pelo qual ele tentou me intimidar na CPI. Vale ressaltar que, no momento em que estive na CPI, senti que foi deixado de lado o principal assunto, que deveria ser a corrupção na Petrobras, e foi tratado como se eu fosse a peça principal do esquema. Não tenho medo de ser responsabilizada pelo que fiz. Quando decidi procurar a Polícia Federal, sabia que seria responsabilizada. Só não quero ser responsabilizada pelo que não fiz.

Fórum – E como era a dinâmica com as empreiteiras? Como funcionava o esquema de notas frias e contratos fictícios que essas empresas utilizavam?

Meire – Eu sabia que o Alberto mantinha contato muito próximo de algumas empreiteiras, em especial a UTC, OAS e Camargo Correa, pois eram essas as quais eu mais escutava ele falar e tratar. Sobre as outras empreiteiras, como é o caso da Engevix e Mendes Junior, sabia que ele tinha relacionamento, mas não tão próximo quanto as outras.

Outras empresas, como é o caso da Sanko Sider, eu também sabia que havia grande proximidade. Soube mais a respeito dessas empreiteiras quando tive contato com a documentação das empresas do senhor Waldomiro [de Oliveira, funcionário de Youssef] – RCI Software, Empreiteira Rigidez e MO Consultoria, que eram empresas de fachada que emitiam milhões em notas para as empreiteiras.

Pude observar que essas empresas emitiam notas respaldadas por contratos. Os pagamentos eram realizados através de TEDs nas devidas contas correntes e, posteriormente, a maior parte desses valores era sacada na boca do caixa. Pelas conversas que eu escutava na GFD, pude concluir que esse dinheiro era utilizado para pagamentos a políticos, mas nunca soube qual a finalidade.

Em um primeiro momento, acreditei que o Alberto conseguisse favores políticos, mas depois essa minha tese caiu, posto que, quando foi criado o FIP Viaja Brasil com a intenção de captar recursos para a Marsans Viagens e Turismo, o Alberto não conseguiu captar sequer um centavo. A partir daí, deixei de tentar entender o que ele fazia.

Fórum – A senhora afirmou, uma vez, que Alberto Youssef a teria subestimado ao deixá-la por dentro de todas essas irregularidades…

Meire – Por três vezes, solicitei a substituição do meu escritório de contabilidade por outro. A primeira vez ocorreu no início de 2012, logo após ter tomado conhecimento de algumas operações realizadas junto ao Igeprev Tocantins. A pedido do senhor João Procópio e do senhor Enivaldo Quadrado, continuei, mesmo porque achei que minha atitude de sair seria demasiada prematura, posto que meu contrato com a empresa GFD datava do segundo semestre de 2011.

Posteriormente, em março de 2013, mais uma vez comuniquei meu desejo de ser substituída. Foi acatado, e eles me pediram um prazo de seis meses para contratar outro escritório. Achei razoável e dei continuidade aos meus trabalhos. Em setembro de 2013, finalizado o prazo, reiterei minha decisão de desligamento, e inclusive parei a auditoria em curso, quando informei que não tinha confiança nos números apresentados. Como criei um grande problema com essa atitude, mais uma vez eles me pediram outros seis meses para que me desligasse. O prazo final seria o mês de março de 2014. Antes que esse prazo se finalizasse, foi deflagrada a operação Lava Jato. Tenho os e-mails trocados, solicitando meu desligamento.

Fórum – Ele acreditava que ficaria impune e que, de alguma forma, o esquema não seria descoberto?

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Meire Poza se tornou figura de peso na operação Lava Jato, da Polícia Federal      (Foto: Arquivo/Agência Brasil)

Meire – O Alberto tinha grande segurança sobre a impunidade. Pelo que vi, acredito que todos os envolvidos tinham essa certeza. Agiam muito à vontade, ao ponto de tratar alguns assuntos na frente de qualquer pessoa, inclusive eu. Em alguns momentos, desconhecendo o tamanho do esquema, emiti algumas notas da minha empresa, embora não tenham sido emitidas para nenhuma empreiteira, e sim para empresas privadas, especialmente na área de alimentos, como foi o caso das empresas Grande Moinho Cearense e Moinho Dias Branco. Também emiti uma nota para a empresa IT7 Sistemas.

Soube que eram valores de serviços que o Alberto havia prestado e não tinha como receber, exceto pela emissão de notas. Como era outro tipo de empresas, não aceitavam notas das empresas do senhor Waldomiro, posto que essas não existiam. E, diante disso, pelo fato de a minha empresa existir de direito e de fato, possuir atividade lícita e empregados registrados, o Alberto me pediu para que emitisse tais notas, o que fiz. Sabia que não era correto, mas não imaginava o tamanho do problema.

De qualquer forma, o Alberto, talvez pelo nível de conhecimento de políticos que tinha, achava que tudo isso jamais seria descoberto. Tinha total segurança naquilo que fazia, tanto que não se preocupava com as empresas que tinham atividades lícitas, como era o caso dos hotéis e da Marsans. Ele delegava essa responsabilidade para outros e tratava tão somente daquilo que julgava mais rentável.

Eu soube que, na carceragem, depois que meus depoimentos foram publicados, ele chegou a questionar como é que eu sabia dessas coisas. Mas esqueceu que era ele mesmo quem contava as histórias.

Fórum – A senhora sofreu ameaças após essas declarações?

Meire – Aconteceram alguns fatos que eu não considerei como ameaças, mas sim uma forma sutil de intimidação. Após a deflagração da operação, fiquei completamente sozinha. Não tive nenhum apoio de ninguém. As pessoas que eu conhecia estavam presas. E aqueles que saíram, sumiram. Fiquei assustada, sim.

Quando decidi procurar a Polícia Federal, não o fiz como moeda de troca, mas era a única forma segura de continuar a minha vida. A [empreiteira] UTC me ofereceu um advogado em troca do meu silêncio em relação à operação do precatório do Maranhão. Isso me assustou bastante. Nunca, em nenhum momento, fiz qualquer acordo com a Polícia Federal ou com o Ministério Público, como vem sendo divulgado por alguns advogados. Simplesmente falei sobre o que vi e ouvi, e falei sobre documentos que conhecia.

Fórum – Em algum momento, se arrependeu de trazer o assunto à tona?

Meire – Eu me arrependi, e muito, de virar testemunha. Minha vida acabou. Fechei meu escritório, o Bradesco encerrou minha conta corrente e a conta da minha empresa. Não tive opção de negociar valores que devia no banco. Portanto, tenho meu nome sujo. Não tenho mais condições de honrar dívidas contraídas e isso se transformou numa bola de neve. Tudo isso porque sou testemunha.

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“A [empreiteira] UTC ofereceu um advogado em troca do meu silêncio”, afirmou (Foto: EBC)
Pude observar que, na CPI, pessoas envolvidas diretamente no esquema tiveram um tratamento muito melhor do que aquele que recebi, em especial do deputado Eduardo Cunha. Fui punida pelos meus clientes, pela sociedade e pela imprensa. Ninguém reparou que, antes da operação Lava Jato, eu era conhecida pela imprensa brasileira pelo serviço que prestava relacionado ao imposto de renda das pessoas físicas, especialmente investidores do mercado de capitais. Tudo isso caiu por terra.

Depois das declarações do ex-deputado Luiz Argôlo, minha filha sofreu na escola com brincadeiras descabidas. Ninguém lembrou que antes do Alberto Youssef na minha vida, eu sempre fui uma profissional. Trabalhei no mercado de capitais em algumas corretoras de valores renomadas, onde meu trabalho sempre foi valorizado. Além disso, perdi minha identidade. Deixei de ser mulher, de ser profissional, mãe, esposa, e sou conhecida apenas como a “ex-contadora do doleiro”.

Eu me arrependo porque concluí que, no Brasil, não se deve testemunhar sobre um crime sem ser punido por isso. Tive a oportunidade de negociar com as empreiteiras. Poderia ter exposto o que sabia e ter pedido dinheiro em troca, mas não fiz. Poderia ter negociado com outras pessoas, mas não o fiz. Nunca quis fazer isso. Pensei que, fazendo a coisa certa, estaria livre para continuar a minha vida. Eu me enganei. Existem outras pessoas que poderiam ser testemunhas nessa operação com o mesmo peso que eu ou até um peso maior. Essas pessoas se omitiram e não as condeno.

Foto de capa: Geraldo Magela/Agência Senado



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