Cozinhar é um ato político

Entre receitas culinárias e utensílios de cozinha, seis feministas dividem espaço com câmeras e luzes para gravar o programa “Uma Pitada de Feminismo”; enquanto cozinham, debatem políticas de gênero e sexualidade, entre outras questões sociais complexas e urgentes.

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Entre receitas culinárias e utensílios de cozinha, seis feministas dividem espaço com câmeras e luzes para gravar o programa “Uma Pitada de Feminismo”; enquanto cozinham, debatem políticas de gênero e sexualidade, entre outras questões sociais complexas e urgentes

Por Jarid Arraes

Entre receitas culinárias, panelas fumegantes e utensílios de cozinha, seis mulheres dividem espaço com câmeras e luzes para gravar o programa “Uma Pitada de Feminismo”, transmitido pelo canal do quadro no Youtube. Poderia até ser uma gravação comum ensinando o passo a passo de pratos deliciosos, mas a sacada das ativistas veio em forma de debate: enquanto cozinham, abordam assuntos relacionados às políticas de gênero e sexualidade, debatendo sobre questões sociais complexas e urgentes com as convidadas, que argumentam enquanto temperam.

Toda a equipe responsável pelos vídeos é formada por mulheres: duas sociólogas, Tica Moreno e Thandara Santos; a jornalista Bruna Provazi; a radialista Yasmin Thomaz; a estagiária de produção Li Fernandes e a engenheira química Ana Paula Farias. Juntas, elas pretendem questionar estereótipos e tornar o feminismo mais acessível para quem simplesmente procura vídeos de receitas culinárias. A entrevista com o grupo pode ser lida abaixo na íntegra:

(Foto: Reprodução/Facebook)
“Achamos que a internet é uma ferramenta muito poderosa de comunicação nesse sentido, para poder falar com as mulheres que não são especialistas no feminismo ou que ainda nem sabem o que é isso”, diz Bruna Provazi (Foto: Reprodução/Facebook)

Fórum – Como surgiu a ideia do canal?

Bruna Provazi – Todas nós somos militantes feministas da Marcha Mundial das Mulheres e sabemos o quanto os movimentos sociais enfrentam o desafio de falar apenas para si mesmos, o tal “pregar para convencidos/as“. Achamos que a internet é uma ferramenta muito poderosa de comunicação nesse sentido, para poder falar com as mulheres que não são especialistas no feminismo ou que ainda nem sabem o que é isso. Chegamos a experimentar alguns formatos de vídeos e transmissões feministas, como o Buteco das Mina, sempre com pouquíssimo equipamento, no estilo “faça você mesma“, mas com um impacto ainda muito tímido na rede.

Um dia, estávamos conversando sobre essas estratégias e eu comentei que, quando estava na faculdade, uma vez tive que produzir um vídeo para ilustrar uma matéria e fiz uma gravação caseira com a minha mãe ensinando uma receita vegetariana de tabule. Um tempo depois, entrei no link e tinham 1.500 acessos, depois já tinham 2.300… E eu jamais divulguei o vídeo pra ninguém, porque é bem tosco! Então pensamos: “Por que não experimentamos esse formato? “. É isso o que as pessoas “comuns“, não-engajadas, estão buscando na rede, mas ao invés de falar as baboseiras que passam nos programas de culinária da TV, vamos falar de feminismo de uma forma simples e direta, em pitadas.

Fórum – Por que fazer um canal que junta receitas, dicas de alimentação e discussões feministas?

Tica Moreno – Porque cozinhar e comer faz parte das nossas vidas, do nosso cotidiano. E o feminismo também. O feminismo não é uma coisa que a gente liga e desliga de acordo com o espaço em que estamos, mas faz parte do nosso cotidiano, das nossas opiniões sobre o que apareceu no jornal ou aconteceu na rua, no trabalho, das nossas angústias e também da nossa criatividade. Para nós, esse é mais um jeito de ser feminista e de espalhar o feminismo.

Fórum – O canal tem um público alvo específico? Como é a relação de quem assiste aos programas e com as pautas abordadas nos vídeos? São sempre pessoas que se identificam como feministas?

Provazi – Queremos falar com as mulheres que estão na internet procurando receitas, ou seja, com todo tipo de mulher, engajada ou não no feminismo, que vai parar 5 ou 10 minutos (às vezes mais porque a gente se empolga) para saber qual é o ponto do risoto e vai ter que ouvir que existem determinadas barreiras para que elas ascendam aos espaços de poder e de decisão. E queremos falar com os homens que estão procurando receitas que as mulheres não se dedicam ao trabalho doméstico por terem nascido com um “dom natural” para isso.

Como a gente convida pessoas de diferentes meios e espaços para compartilhar suas receitas e suas ideias no programa, essa participação ajuda também a diversificar o público que assiste.

Fórum – Como vocês encaram o fato de mulheres serem as principais envolvidas nos vídeos? Para além das câmeras e edição dos vídeos, as receitas são apresentadas por mulheres também. Como lidar com os papéis de gênero socialmente impostos que reservam o espaço da cozinha e o preparo dos alimentos para as mulheres? Vocês acham que há o risco de reforçar esse paradigma?

Provazi – Se você já tem esse olhar feminista e vê de fora, sem assistir a nenhum dos vídeos, com certeza o risco de parecer que estamos reforçando essa divisão existe; afinal, deixamos as mulheres na cozinha novamente. Mas se você assiste a qualquer dos programas, logo entende que o objetivo é exatamente desconstruir esse paradigma e, ao mesmo tempo, construir o protagonismo feminino, dando visibilidade ao trabalho de tantas mulheres incríveis que não têm espaço na mídia.

Discutir nossas práticas cotidianas trazendo-as ao próprio ambiente doméstico também é uma forma simbólica de demonstrar que “o pessoal é político”.

Uma das principais discussões que levantamos no Pitada é justamente sobre a divisão sexual do trabalho, ou seja, essa separação que existe entre o trabalho considerado produtivo (remunerado) e o trabalho reprodutivo, que representa as tarefas de cuidado com o bem-estar da família e com a casa, as quais ainda recaem sobre as mulheres.

Por isso, buscamos ressaltar nos programas não apenas a importância de termos mulheres ocupando toda a parte técnica, como você mesma citou (câmera, edição, produção, apresentação), mas reafirmamos, entre uma pitada e outra, que a divisão sexual do trabalho ainda existe e é uma das razões pelas quais as mulheres não estão presentes na mesma proporção que os homens em todas as áreas (política, cultura, técnica, espaço público, etc). E a outra coisa é que temos alguns amigos escalados para participar do pitada também.

Fórum – Socialmente, ainda temos uma realidade em que as mulheres preparam os alimentos, fazem as compras relacionadas à alimentação, servem os pratos e cuidam da limpeza pós-refeição. Já é possível observar mudanças nesse quadro ou ainda é um estereótipo de gênero difícil de derrubar? É desejável para o feminismo que os homens passem a assumir esses papéis no dia a dia?

Moreno – Para nós isso é mais do que um estereótipo. A divisão sexual do trabalho é uma das bases que mantêm a desigualdade no Brasil e em todo mundo. Aqui, as pesquisas mostram que as mulheres gastam pelo menos 10 horas semanais a mais que os homens com o trabalho doméstico. O trabalho doméstico do homem ainda é visto como “ajuda”, pois essa seria uma função “natural” das mulheres. Quando pensamos no trabalho de cuidados das crianças ou dos idosos então, nem se fala.

Se a gente olha para os dados, a gente vê que a média de tempo gasto pelas mulheres vem caindo (bem devagar), mas isso não significa que os homens estejam assumindo mais a parte deles. Pelo contrário, a média de tempo que eles gastam no trabalho doméstico e nos cuidados permanece a mesma. Isso tem a ver com um monte de questões, mas principalmente com a contratação de outras mulheres para fazer este trabalho. O emprego doméstico continua sendo uma das principais ocupações das mulheres, onde se concentram as mulheres negras, os salários mais baixos, sem garantia de direitos, etc. Então a gente vê que essa questão da divisão sexual do trabalho é super central pra gente conseguir realmente transformar as relações de gênero, ao mesmo tempo em que enfrentamos as desigualdades de classe e de raça.

Por isso que no feminismo a gente luta para que os homens compartilhem com as mulheres o trabalho doméstico e de cuidados, para que a maternidade não seja um destino obrigatório para as mulheres – e que, quando desejada, seja vista como responsabilidade de ambos – e para que possamos ter mais tempo para nos dedicar a outras atividades e ocupar o espaço público em condições de igualdade. É por isso que além de chamar a responsabilidade dos homens, a gente também precisa cobrar do Estado políticas públicas como creches, restaurantes públicos que avancem na construção de outro paradigma de compartilhamento deste trabalho.

(Foto: Reprodução/Facebook)
(Foto: Reprodução/Facebook)

Fórum – Muitas receitas que vocês apresentam são veganas, vegetarianas ou com uma proposta mais orgânica e natural. Qual a importância disso para o feminismo?

Moreno – Isso não foi exatamente planejado, mas foi acontecendo porque muitas mulheres que estão no feminismo (e no entorno do Pitada) são veganas, vegetarianas. A gente acha que além de uma postura individual, o tema da alimentação tem a ver com o modelo em que estamos inseridas, com o agronegócio que vai controlando as formas de produção, com a quantidade de agrotóxicos nos alimentos vendidos nas grandes redes de supermercado… Discutimos isso no movimento feminista e queremos discutir no Pitada: as práticas das mulheres na produção de alimento, de forma agroecológica, a recuperação dos saberes acumulados na relação com as plantas que nos ajudam a questionar a medicalização.

Fórum – Quais são os maiores desafios atuais na relação entre alimentação e gênero? Como, por exemplo, a falta de tempo para preparar alimentos de forma mais natural e saudável e a consequente responsabilização das mulheres por isso pode ser enfrentada?

Moreno – A gente já participou de várias ações que juntam mulheres do campo e da cidade, buscando ampliar o olhar sobre essa questão. Em uma delas, o eixo era: “Se o campo não planta, a cidade não janta”. É um desafio para o feminismo olhar para todos os elos deste tema e sair do âmbito individual, que muitas vezes acaba sobrecarregando as mulheres.

A defesa da soberania alimentar nos ajuda muito nesse sentido. Essa é uma luta protagonizada por movimentos camponeses de todo o mundo, com muita participação das mulheres. A soberania alimentar é o direito de decidir o que produzir, como produzir e como distribuir os alimentos. Tem a ver com a resistência à mercantilização da vida, com questionar o fato de que hoje tudo vem enlatado e embalado.

A falta de tempo também tem a ver com as lógicas do mundo do trabalho hoje, não adianta a gente querer sozinha fugir dessa lógica, porque é a lógica do sistema, da cidade controlada pelo tempo do capital. Hoje estamos todas sobrecarregadas com muito trabalho, muito tempo no trânsito, pouco tempo livre, até para imaginar o que queremos fazer.

Então é por isso também que para a gente é importante ter um espaço para falar sobre tudo isso e mostrar que todas essas reflexões são feministas e que o feminismo tem que pensar em propostas gerais de transformações, que alcancem o conjunto das mulheres.

(Foto de capa: Reprodução/Facebook)



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