O fim do jornalismo puro-sangue

Pode-se dizer que vivemos uma transição, na qual a mídia tradicional perde influência direta sobre a massa da sociedade, mas reforça seu poder sobre as instituições

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Pode-se dizer que vivemos uma transição, na qual a mídia tradicional perde influência direta sobre a massa da sociedade, mas reforça seu poder sobre as instituições

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa

jornalismo puro-sangue está em extinção no Brasil. O que os leitores, ouvintes e telespectadores dos sistemas de edição multiplataforma recebem é o resultado de uma equação que inclui, evidentemente, os fatos, mas agrega aditivos que refletem o interesse específico de determinada empresa de comunicação no tema. As célebres perguntas básicas do jornalismo – “quem, o que, quando, onde, como e por quê?” – são agora submetidas a uma simples questão: “quem ganha, quem perde?”

Essa formulação define como vai funcionar o filtro da mídia e é esse o padrão que determina o resultado do processo midiático. Portanto, importa cada vez menos o acontecimento em si, e cada vez se torna mais relevante o processo comunicacional. Em alguns casos, o movimento massivo e coordenado dos grandes meios pode alterar o significado de um evento e conduzir a sociedade a ações contrárias a seu interesse.

Por exemplo, quando um fato econômico favorece o mercado financeiro mas desfavorece a indústria, ou quando um aumento de preços tem potencial para estimular determinado setor da economia, mas pode também produzir inflação. O problema está no fato de que a notícia deixou de ser apenas uma notícia para se tornar elemento central nas decisões de negócio ou do Estado.

A complexidade da sociedade contemporânea não pode mais ser abarcada pela abordagem simplista proposta pelo jornalismo dos nossos dias, em especial do jornalismo praticado no Brasil, por uma imprensa homogênea interligada por laços de interesses comuns, na qual o compadrio substituiu a livre concorrência. Nesse contexto, argumentar que um processo comunicacional se completou porque foram ouvidos “os dois lados” equivale a dizer que a realidade tem apenas duas facetas – o que é puro maniqueísmo.

Contraditoriamente, esse fenômeno ocorre ao mesmo tempo em que o processo de mediação se desvanece diante do protagonismo crescente dos indivíduos nas redes de relacionamento digital.

Como se explica essa incongruência?

Pode-se dizer que vivemos uma transição, na qual a mídia tradicional perde influência direta sobre a massa da sociedade, mas reforça seu poder sobre as instituições.

Jornalismo pangaré

Em sociedades baseadas no conceito de segurança, o poder do Estado reflete sobre o cidadão a influência da mídia. Numa sociedade baseada no conceito da responsabilidade pessoal pelo destino comum, o poder do Estado se assenta no consenso sobre o que é melhor para todos.

Pesquisas recentes indicam que os cidadãos tendem a confiar mais em seus pares, com quem se comunicam nas redes sociais digitais ou físicas, do que nos sistemas organizados de distribuição de notícias e opiniões. No entanto, numa sociedade extremamente normatizada, como precisa se relacionar constantemente com instituições do Estado, o indivíduo se vê obrigado a viver duas realidades: nas redes abertas, pode ampliar sua autonomia pela vivência em um ambiente de ampla diversidade; na outra, é confinado pela interpretação restrita da realidade oferecida pela mídia.

As autonomias se ampliam no relacionamento digital e são restringidas quando as relações se baseiam em informações filtradas pelo sistema da imprensa.

O jornalismo puro-sangue, fundado no pressuposto da objetividade – que, embora seja difícil de alcançar, impõe a obrigatoriedade da investigação de todas as nuances de cada acontecimento –, exige muito trabalho e impõe um alto custo. O jornalismo de fachada, que se satisfaz, quando muito, em oferecer “os dois lados”, é muito mais barato. Mas pode custar muito caro, no longo prazo, ao sistema da mídia.

O mais grave, nesse processo de empobrecimento do jornalismo, é que a imprensa hegemônica não parece se dar conta do que está acontecendo. Exerce com naturalidade o poder de pressão sobre as instituições, usando como escudo o que se chama comumente de “opinião pública”.

Mas essa tal de “opinião pública” é apenas uma figura de retórica: o que caracteriza o público, numa sociedade moderna, é justamente a pluralidade de opiniões. No máximo, o que a imprensa representa é uma parcela da população, aquela que lê regularmente um jornal e assiste aos noticiários da televisão. Esse perfil de influência aparece claramente nas últimas campanhas eleitorais, quando se expressa mais escancaradamente o maniqueísmo da mídia.

O jornalismo que vê apenas dois lados é um jornalismo pangaré.

Foto: Domínio Público



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