Em posse de Tabaré, Mujica é protagonista

Antes de receber a faixa, o atual presidente uruguaio teve sua primeira reunião oficial, com a presidenta brasileira, Dilma Rousseff (PT). No encontro breve, de 20 minutos, a petista convidou o uruguaio a vir ao Brasil

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Antes de receber a faixa, o atual presidente uruguaio teve sua primeira reunião oficial, com a presidenta brasileira, Dilma Rousseff (PT). No encontro breve, de 20 minutos, a petista convidou o uruguaio a vir ao Brasil

Por Igor Carvalho e Vinicius Gomes, de Montevidéu* | Foto de Capa: Vinicius Gomes

Quando o simbólico fusca azul estacionou na frente da antiga sede da presidência do Uruguai, a euforia tomou conta dos milhares de uruguaios que ocuparam a avenida 18 de julho e a praça Independência. Era o agora ex-presidente Pepe Mujica, chegando para empossar o novo mandatário, Tabaré Vázquez. Nas tribunas de imprensa, todas as câmeras se viraram para o ex-guerrilheiro tupamaro e sua companheira, a senadora Lucía Topolansky.

Mujica, com seu fusca azul, chega à cerimônia de posse do novo presidente Tabaré Vázquez (Foto: Igor Carvalho)
Mujica, com seu fusca azul, chega à cerimônia de posse do novo presidente Tabaré Vázquez (Foto: Igor Carvalho)

Após passar a faixa para Vázquez, Mujica se retirou da cerimônia. Antes de sair em definitivo, contornou a praça Independência, saudando os uruguaios e seguindo na direção de seu Fusca. Enquanto isso, o atual presidente nomeava seu ministério no palco central. Mas isso parecia não comover a ninguém, diante da despedida de “Dom Pepe”.

Os gritos de “olê, olê, olê, olê, Pepe” tomaram de assalto a cerimônia, que seguia. “Te amo, Pepe”, gritava uma mulher com a bandeira dos Tupamaros. Ao todo, segundo o governo uruguaio, 40 mil pessoas compareceram ao evento.

Na última sexta-feira (27), durante a cerimônia de entrega da bandeira uruguaia ao presidente, já era possível prever que Vásquez acabaria se tornando coadjuvante em sua própria posse presidencial.

Na ocasião, após o emocionado discurso do então presidente, diante da Torre Executiva, ele pediu à multidão que se reunia na praça da Independência que se aproximasse mais, ignorando o cordão de segurança que os separavam. Com a invasão do espaço, ficou praticamente impossível retirar Mujica do espaço. A poucos metros de “Pepe”, um solitário Tabaré saía caminhando, com apenas dois seguranças, sem ser incomodado.

A cerimônia e o encontro com Dilma

Dilma teve encontro com Vázquez antes da posse (Foto: Instagram/Dilma Rousseff)
Dilma teve encontro com Vázquez antes da posse (Foto: Instagram/Dilma Rousseff)

Antes de chegar à Praça da Independência, onde recebeu a faixa de Mujica, Tabaré Vázquez seguiu o rito de transição imposto pelo cerimonial uruguaio. Às 9h30, no Palácio Legislativo, diante de senadores, deputados e chefes de Estado, o atual presidente discursou.

Em seu discurso, Tabaré celebrou os 30 anos de democracia no país e saudou o primeiro presidente eleito do país após a ditadura militar, Julio Maria Sanguinetti.

Tabaré falou ainda sobre o herói uruguaio José Artigas. Ao todo, o presidente gastou 18 dos 20 minutos, lembrando dos “valores artiguistas”. “Liberdade, igualdade, justiça, democracia, autodeterminação dos povos e fraternidade”, recordou.

Lembrando sua primeira posse, em 2005, Tabaré afirmou que algumas “coisas boas” e outras “horríveis” aconteceram no Uruguai e no mundo, nos últimos dez anos. O presidente alertou que “os virtuosos estão perdendo terreno” e pediu que se valorize os que lutam pela paz e pelo meio ambiente.

Após o juramento no Palácio Legislativo, Tabaré se reuniu por cerca de 20 minutos com a presidenta brasileira, Dilma Rousseff (PT). A petista convidou o presidente uruguaio a visitar o país, o que foi aceito. Porém, ainda não há data definida para o encontro.

A reunião com Dilma atrasou o cerimonial. A chegada de Tabaré estava prevista para 12h15, na Praça Independência, mas o presidente uruguaio só chegou ao local às 12h36.

Em pouco menos de 10 minutos, Tabaré foi recebido por Mujica, subiu ao palco montado de frente para a estátua de José Artigas, e recebeu a faixa presidencial das mãos de “Pepe”.

Além de Dilma, também estiveram presentes os presidentes do Peru, Ollanta Humala; do Equador, Rafael Correa; de Cuba, Raúl Castro; do Chile, Michelle Bachelet, e do Paraguai, Horácio Cartes. A ausência mais sentida foi de Cristina Kirchner, presidenta da Argentina. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, que confirmou presença, desistiu por motivos de saúde. Nicolás Maduro já havia anunciado que não poderia comparecer, por conta da situação política em seu país.

Assista abaixo à saída de Mujica após passar a presidência para Tabaré Vázquez.

Tradução: Hoje é um dia de festa para os uruguaios, e os uruguais têm de fazer todo o possível para ajudar um governo que se inicia, dar toda a força que puderem, porque se o governo vai bem, vai bem todo o país. É um dia de unidade nacional. Acima de tudo, de minha parte, muito obrigado pelo muito que me fez o povo uruguaio. Foi uma honra imensa de arriscar a sorte com ele. Algumas coisas fizemos e outras não, mas vai entrar [na presidência] outro que vai fazer melhor, e assim sucessivamente. Minha vida é um exemplo para que não se entreguem, não baixem a guarda, [porque] sempre há algum reconhecimento e alguma compensação.

*Esta matéria faz parte do projeto Bora para o Uruguai. Os repórteres Igor Carvalho e Vinicius Gomes estão no país vizinho para investigar e reportar o legado deixado por Pepe Mujica, principalmente em relação ao avanço das pautas progressistas. A viagem-reportagem está sendo financiada por leitores da Fórum, que podem interagir e participar das pautas, além de ganharem um ano de assinatura da revista eletrônica. Para colaborar, acesse aqui.



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