Gladiadores do Altar: “Práticas como essa contribuem para o recrudescimento do fundamentalismo”

Grupo criado pela Igreja Universal gera controvérsia nas redes sociais; para especialista, há limites nas comparações entre o movimento e os jihadistas do Estado Islâmico.

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Grupo criado pela Igreja Universal gera controvérsia nas redes sociais; para especialista, há limites nas comparações entre o movimento e os jihadistas do Estado Islâmico

Por Anna Beatriz Anjos

Nos últimos dias, tem repercutido na internet um vídeo postado pela página da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) do Ceará, protagonizado por um exército de jovens fiéis, todos fardados, marchando e gritando palavras de ordem em um culto. As imagens geraram controvérsia nas redes e acarretaram diversas manifestações contrárias – uma delas, do deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ). “O fundamentalismo cristão no Brasil tem ameaçado as liberdades individuais, a diversidade sexual e as manifestações culturais laicas. Agora ele está formando uma milícia”, escreveu o parlamentar em sua fanpage.

De acordo com a Universal, o movimento em questão, batizado de “Gladiadores do Altar”, faz parte de “um projeto de orientação e formação de jovens vocacionados para a propagação da Fé Cristã, que funciona desde janeiro de 2015”. Grande parte dos comentários direcionados ao vídeo compara as práticas dos fieis às ações do grupo jihadista Estado Islâmico (EI).

“Não se pode confundir o fundamentalismo islâmico com aquele que nasceu no interior do neopentecostalismo brasileiro”, afirma o professor e historiador Leandro Seawright, especialista em história política e religiosa. “Com esforço, podemos comparar os nominados ‘Gladiadores do Altar’ ao Estado Islâmico apenas em alguns aspectos, porque até aqui é preciso reconhecer que se tratam de movimentos distintos não apenas em relação aos núcleos de suas crenças, mas em relação às suas práticas.”

Seawright explica porque a comparação direta entre os dois coletivos é simplista. “O Estado Islâmico é uma intrincada organização terrorista que atua evidentemente militarizada, mas os rapazes que compõem os ‘Gladiares do Altar’ estão em um processo diferenciado de assimilação da  ‘imagética militarizada'”, argumenta. “Isto é, o Estado Islâmico visa à conquista sincera da conversão das pessoas subjugadas ao islamismo principalmente sunita e, para tanto, utiliza-se de violência, pois perpetram pessoas com torturas, mutilações e condenam à morte. Sob outra perspectiva, o ‘marketing neopentecostal jihadista’ [praticado pela IURD] até o presente momento busca a ‘conversão’, a ‘adesão’ ou a ‘conquista’ de ‘almas pecadoras e decadentes’ por meio da expansão neoliberal do moderno ‘mercado dos bens de salvação'”. Ainda segundo o historiador,  “os “Gladiadores do Altar” substituíram, pois, a violência física e terrorista perpetradas aos crédulos de outras religiões pela violência simbólica da ‘militarização ideária’ de jovens fiéis ao rentável ‘mercado de salvação'”.

Para o professor, EI e “Gladiadores do Altar” têm um ponto em comum: o marketing. “Os dois movimentos utilizam-se de estratégias de propaganda midiática para atrair pessoas e demonstrar os poderes dos fundamentalismos religiosos, mesmo que sejam divergentes nos mais variados aspectos, tais como os teológicos, os culturais, os políticos e os ritualísticos”, considera.

De acordo com Seawright, Jean Wyllys está correto quando relaciona o grupo de fieis evangélicos a práticas fundamentalistas”  “É possível que ele esteja certo em relação à intolerância do fundamentalismo religioso de quaisquer orientações, culturas e textos sagrados, pois os temas são partilhados e as discriminações são mantidas mesmo em tempos fluidos como os contemporâneos. Por isso, concordo que práticas como essas contribuem para com o recrudescimento do fundamentalismo religioso e da falta de convívio religioso”, finaliza.

A reportagem entrou em contato com a Igreja Universal do Reino de Deus, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

(Foto: Reprodução/Facebook)



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