Homens trans lançam campanha contra padrões de beleza

Após a viralização de uma foto do modelo Aydian Dowling, militantes do movimento de homens trans no Brasil lançam campanha #vaibrotardochão, questionando padrões de beleza masculinos Por Jarid Arraes...

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Após a viralização de uma foto do modelo Aydian Dowling, militantes do movimento de homens trans no Brasil lançam campanha #vaibrotardochão, questionando padrões de beleza masculinos

Por Jarid Arraes

Aydian Dowling à esquerda

Os homens trans brasileiros vêm utilizando as redes sociais para disseminar a campanha #vaibrotardochão, um protesto contra os padrões de beleza impostos aos homens trans, que são pressionados a atingir um ideal de aparência masculina para serem aceitos.

Os debates foram potencializados após a viralização de uma foto do modelo Aydian Dowling, um homem transexual, na revista FTM Magazine. Na imagem, Dowling aparece nu recriando uma icônica foto do cantor Adam Levine. Apesar do grande número de compartilhamentos e elogios direcionados a Aydian Dowling, o movimento de homens trans no Brasil se posiciona de forma crítica e questiona o fato de que os homens trans brancos e “sarados” conquistam muito mais visibilidade.

Luciano Palhano, coordenador nacional do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT), foi o primeiro a convocar a campanha, publicando fotos suas e estimulando a participação de outros homens trans. Em entrevista exclusiva, Palhano falou à Fórum sobre a iniciativa:

Revista Fórum – O que motivou a publicação das fotos nas redes sociais?

Luciano Palhano –   Já há bastante tempo tenho observado como as mídias reproduzem a imagem do homem trans: como o cara branco, sarado e padrão de virilidade e beleza cis. Vários grupos, comunidades virtuais e fanpages reproduzem a imagem do que seria o homem trans “ideal”, que seria aquele mais próximo do homem cis padrão. Para a nossa própria comunidade, isso tem efeitos graves que ficam invisíveis nessas campanhas: nossa hormonoterapia é extremamente burocrática e nossos hormônios rigidamente controlados pela Anvisa. Não à toa, visto que existe uma série de efeitos colaterais indesejados e que podem comprometer gravemente a saúde de uma pessoa. Mas para atingir o padrão de homem alimentado pelas mídias, o hormônio é o principal aliado e torna-se objeto de maior desejo para os homens trans, a ponto de burlarem a burocracia médica e farmacêutica, envolvendo-se, inclusive, em contrabando internacional desse medicamento. Sem qualquer orientação médica, muitos de nós sentimos que apenas teremos nossa identidade de gênero legitimada se atingirmos esse padrão.

Poucos de nós nos envolvemos na luta para efetivar um direito que é nosso pela portaria do SUS, que garante o processo transexualizador, e ajudamos a alimentar um mercado mercenário de cirurgiões que tem ganhado muita grana às custas dos sonhos dos homens aprisionados em seus próprios corpos. Existe cirurgião que faz até promoção: “tire o peito e ganhe pomo de adão!”, aí o cara leva um gogó de “graça”. Tudo isso sem nenhum acompanhamento médico ou psicoterapêutico responsável. E vidas vão sendo tratadas assim, como se precisassem apenas de uma aprovação social e nada mais. Ano passado, um homem trans tentou suicídio por ser “gordo demais” e um outro cara trans disse pra ele que ele jamais conseguiria ter o corpo “masculino”. Na época, fizemos uma campanha exibindo nossos corpos com a frase #somostodosdiferentes escrita na pele. É lamentável ver homens trans e outras pessoas trans e cis endeusando apenas um padrão de beleza, como se fosse o único, e dando margem para que homens trans fiquem deprimidos, alimentem a tal disforia e coloquem gravemente suas vidas em risco. Pessoas trans frustram as expectativas sociais de gênero, transformando sua própria existência em revolução. Não podemos aceitar que sejam nutridos em nós os mesmos estereótipos que são reproduzidos por muita gente alienada por aí, que não é capaz de identificar as várias belezas nos mais diversos corpos.

 Fórum – Você percebe muitos padrões de beleza impostos aos homens trans? São padrões diferentes dos que homens cis encaram?

Luciano Palhano e Fred Sóter para a campanha #vaibrotardochão
Luciano Palhano e Fred Sóter para a campanha #vaibrotardochão

Palhano – Vejo muitos homens trans achando que só serão respeitados e legitimados se corresponderem ao padrão de beleza do homem cis. Às vezes sinto até uma cobrança maior. Existe a ilusão ou sensação de que você pode moldar sua imagem a seu desejo, diferente do que acontece com a maioria dos homens cis. Mas pouco tempo depois de estar na hormonoterapia, a realidade da genética aparece e cada corpo se revela diferente.

Fórum – De que forma é possível desconstruir esses padrões e qual a importância dessa desconstrução para os homens trans?

Palhano – Desconstruir esses padrões é para nós uma questão de saúde e empoderamento. Ressignificar os nossos corpos que foram designados ao feminino para reivindicar neles uma masculinidade já é uma grande desconstrução de várias normatividades impostas. Significa, no mínimo, desafiar o machismo, o falocentrismo e o binarismo de gênero. É importante que saibamos respeitar, valorizar e legitimar a diversidade meio a essa grande revolução que fazem as pessoas trans. Senão, deixa de fazer sentido lutar pelo respeito e reconhecimento de nossas identidades.

Como uma liderança neste movimento de homens trans no Brasil, espero sinceramente que o nosso movimento siga uma direção bem diferente de tudo o que temos visto até hoje no meio LGBT. Queremos ser parte integrante deste dessa sopa de letrinhas, para somar, questionar, quebrar regras se for preciso, mas também sermos uma seta reluzente que ajude a redirecionar o olhar desse movimento. No movimento nacional de homens trans haverá várias transmasculinidades, desde as transexuais às agênero e não-binárias, teremos diversidade de corpos, geracionais, culturais, ideológicas e provaremos que é possível negociar as nossas diferenças pelo bem comum! E se reclamar, a gente #vaibrotardochão!

*Cis – termo usado para se referir a uma pessoa que não é trans.

Foto de capa: Reprodução / Facebook



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