Che: morte, vida e revolução na Bolívia

"Valho mais vivo do que morto"; Em sua casa em Santa Cruz de La Sierra, o ex-general do Exército boliviano Gary Prado relata, em entrevista exclusiva, experiência de quando prendeu o guerrilheiro argentino em 1967; confira o vídeo

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“Valho mais vivo do que morto”: Em sua casa em Santa Cruz de La Sierra, o ex-general do Exército boliviano Gary Prado relata, em entrevista exclusiva, experiência de quando prendeu o guerrilheiro argentino em 1967; confira o vídeo

Por Rosana Pinheiro, na Agência PLANO

Esta é a primeira de três partes da reportagem que a Agência Plano fez a partir de uma entrevista com o homem que prendeu Che Guevara, Gary Prado, ex-general do exército boliviano que, numa tarde de julho de 2014, cedeu essa entrevista em sua casa, em Santa Cruz de La Sierra. Os links para as outras partes estão disponíveis abaixo. 

– Eu valho mais para vocês vivo do que morto

“Foi a frase completa que ele me disse”, relembra hoje, quase cinqüenta anos depois, o ex-general do exército boliviano Gary Prado. Na época, era comandante da companhia de forças especiais responsável pela operação que prendeu o guerrilheiro em outubro de 1967. A luta do argentino Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido como “Che”, estava acabada.

Essa guerrilha apareceu na Bolívia em um período que nós tínhamos um governo constitucional. O presidente [René] Barrientos havia sido eleito presidente com muito apoio, particularmente, dos camponeses. Aí aparece uma guerrilha cubana, argentina, peruana, e outros mais, a qual o partido comunista da Bolívia nega apoio.

No dia 3 de novembro de 1966, Che Guevara chegou a La Paz. O líder da triunfante revolução cubana de 1959, inspiração de militantes mundo afora, escapava da burocracia boliviana com a identidade de Adolfo Mena Gonzáles. Escondia-se pelas ruas de La Paz como um homem de negócios uruguaio em missão para a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Estava em missão para uma ideia de mundo. Para uma Latinoamérica independente dos dólares que assombravam o Palacio Quemado, de onde comandava o presidente Barrientos, mas que não chegavam ao povo. Assim como fez quando foi ao Congo, uma determinação inconsequente o levou à Bolívia sem ser chamado. Convencido de que, com sua presença, viria o apoio para que a luta armada triunfasse também em território boliviano.

Os impulsos guerrilheiros eram calculados em mapas e planos perfeitos que culminavam numa sociedade igualitária. A Bolívia era um local estratégico para abrigar uma base guerrilheira no continente americano – dali teriam apoio as revoluções que florecessem ao seu redor. Teria o apoio do Partido Comunista da Bolívia, além da China e da União Soviética.

Mas o mundo real era grande demais para caber na tecnologia rudimentar de um combatente latino-americano. Em janeiro de 1967, sem resposta positiva do Partido local, muito menos de parceiros estrangeiros, Che e os vinte e poucos combatentes do Exército de Libertação Nacional (ELN) se viram sozinhos. E seguiram mesmo assim para o interior da Bolívia.

Ficaram sozinhos por aí, em uma área assim como o interior do sertão do Brasil. Em uma zona inóspita onde não conheciam. E não tinham mapas, não sabiam onde estavam.

O acampamento vermelho foi erguido pelo ELN em Ñancahuazú, no Chaco, o semi-árido boliviano, e vagou, por vezes errante, pela inexplorada região. Com algum êxito nos dois primeiros meses – diante da morte, comemoravam um passo à frente sobre homens sacrificados do exército do governo. Quanto mais mortos fardados, maior a determinação da tropa oficial de capturar os terroristas. A pequena cidade de Vallegrande ficou alvoroçada ao receber a base de operações do exército.

Depois conseguimos montar uma estratégia e em seis meses terminar com o problema.

Gary Prado foi testemunha e algoz do inimigo derrotado, ferido, que outrora discursava no palanque da ONU. Certificou-se de que vivo permanecesse o prisioneiro e voltou à área de combate contra os sobreviventes. Os troncos das árvores do Chaco eram alvejados pelas rajadas trocadas, e os estalares dos tiros assustavam os animais.

Montamos uma operação com a qual conseguimos cercar o grupo guerrilheiro e praticamente exterminá-lo, sobrando apenas dois guerrilheiros, um deles Che Guevara.

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As mãos que seguraram os rifles subversivos e as canetas que escreviam diários agora estavam atadas. Não podiam fazer mais que agarrar o pequeno fiapo de vida que Che pronunciava a seus algozes: “Valho mais vivo que morto”. Não viveria, de qualquer forma, tempo suficiente para ver erguer-se o sonho pelo qual foi condenado.

– Sei que você veio para me matar. Atire, covarde, você só vai matar um homem.

Assim que capturado, o célebre prisioneiro foi levado ao povoado de La Higuera, onde passou a noite de 8 de outubro dentro da única escola da região. Nos derradeiros momentos agoniava estar preso em uma escola, encarcerado em uma sala onde crianças da região poderiam ler o primeiro alfabeto, talvez algum dia sua própria história que o sargento Mario Terán, severo mestre ao entrar na sala, se dispunha a por fim.

Não adiantavam mais quaisquer planos mirabolantes que parcos sobreviventes do ELN pudessem tramar para salvar o líder. Na manhã de 9 de outubro de 1969, ao encarar o prisioneiro de 39 anos, Terán tinha a autorização de seus superiores, bolivianos e norte-americanos, para fuzilá-lo.

Quando voltei a La Higuera, ao meio-dia, fui informado que Che havia sido executado por ordens do governo. Foi uma execução sumária. 

Foto: Agência PLANO 



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