Netanyahu, presidente da direita estadunidense?

Efetivamente o senhor Netanyahu e suas ideias se impõem sem resistência e sem o menor esforço no cenário parlamentar de Washington. E encontram mais oposição... no parlamento israelense

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Efetivamente, Netanyahu e suas ideias se impõem sem resistência e sem o menor esforço no cenário parlamentar de Washington. E encontram mais oposição… no parlamento israelense

Por Serge Halimi, original no Le Monde Diplomatique e traduzido livremente a partir de Rebelión

Há vinte anos um candidato republicano às eleições presidenciais dos Estados Unidos comparou o Congresso dos EUA com um “território israelense ocupado”. Em 2015, é inimaginável que um dirigente republicano fale com tanta deslealdade. Efetivamente o senhor Netanyahu e suas ideias se impõem sem resistência e sem o menor esforço no cenário parlamentar de Washington. E encontram mais oposição… no parlamento israelense!

A situação não se explica só porque existe uma maioria republicana nas duas câmaras do Congresso, porque os democratas – e mesmo Barack Obama – quase nunca negam nada à direita israelense e a seu poderoso lobby do Aipac. Samantha Powers, embaixadora dos Estados Unidos na ONU, acaba de recordar aos lobistas que durante os seis últimos anos o presidente Obama dedicou 20 bilhões de dólares à segurança de Israel.

Talvez em parte por razões religiosas vinculadas ao predomínio dos evangélicos, os mais conservadores das difusas teorias do Apocalipse ou em parte porque o Partido Republicano, como o atual primeiro-ministro de Israel, adora descrever um Ocidente rodeado de inimigos (especialmente muçulmanos) com o objetivo de justificar as inúmeras intervenções armadas e os enormes gastos militares, o senhor Netanyahu se converteu em herói da direita dos EUA, seu Winston Churchill, aquele que lhes gostaria ter como chefe de Estado mais do que o atual ocupante da Casa Branca, um homem ao qual aborrecem ao ponto de duvidar permanentemente de seu patriotismo e até da nacionalidade que figura em seu passaporte.

Depois da última incursão assassina de Israel em Gaza, entusiasmada pelos meios empregados nessa oportunidade, uma das estrelas da Fox News, Ann Coulter, expressou: “Gostaria que Netanyahu fosse nosso presidente. E sim, é certo que às vezes se matam crianças palestinas, mas porque são parte de uma organização terrorista que ataca Israel. E Netanyahu faz bem em zombar do que dizem chorando os responsáveis religiosos sobre as crianças palestinas. Zomba também do que diz a Nações Unidas, do que diz a mídia. Somos um país, temos nossas fronteiras. Netanyahu faz com que respeitem as suas. Por que nós não podemos fazer o mesmo?”.

John Boehmer, presidente republicano da Câmara dos Representantes, o convidou de súbito, sem avisar Obama, com a intenção de que explicasse a parlamentares estadunidenses que a política levada a cabo pela Casa Branca com o Irã ameaça a existência de Israel. Especialista em comunicação e com uma larga experiência nos EUA por ter sido embaixador de seu país na ONU (período em que concedeu muitas entrevistas à mídia), o primeiro-ministro de Israel não deixou de ir ao Muro das Lamentações (frente às câmeras) antes de voar para Washington. E de comparar tranquilamente o regime iraquiano com o Terceiro Reich.

Diante do caráter grosseiro – para não dizer grosseria simples – dessa situação, Obama se mostrou mais audaz que de costume e fez saber que não receberia o primeiro-ministro israelense. E que tampouco seu vice-presidente Joseph Biden, nem seu secretário de Estado John Kerry foram ouvir o discurso do chefe do Likud, destinado a confrontar a política externa de sua administração ante uma chuva de aplausos parlamentares. Há três anos, para explicar o pouco habitual compromisso de Netanyahu com a campanha presidencial de Mitt Romney contra Obama, o diário israelense Haaretz sublinhava que o primeiro-ministro não fala inglês ou “americano”, mas que normalmente fala “republicano”.

Foto: Cherie Cullen/Departamento de Defesa dos EUA



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