Lava Jato: Documentos da Câmara reforçam acusações sobre Eduardo Cunha

O jornal O Globo encontrou requerimentos da Câmara reiterando que o presidente da Casa teria pressionado empresa e executivo diante do corte do pagamento de propina

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O jornal O Globo encontrou requerimentos da Câmara reiterando que o presidente da Casa teria pressionado empresa e executivo diante do corte do pagamento de propina 

Do Jornal GGN

(Foto: Reprodução/Facebook)
Solange Almeida (PMDB-RJ) pede votos para Eduardo Cunha na campanha de 2014 (Foto: Reprodução/Facebook)

Nos pedidos de inquérito enviados pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal, a petição 5278, contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), traz o depoimento do doleiro Alberto Youssef denunciando o esquema de propina que o deputado montou para formar caixa 2 de sua campanha eleitoral, em 2010. O jornal O Globo encontrou documentos da Câmara que reforçam as acusações.

São dois requerimentos da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara que mostram que aliados de Cunha fizeram pressão pública sobre a Mitsui e sobre o executivo Júlio Camargo. O motivo seria uma interrupção pela Samsung, depois de fechar um contrato de aluguel de navio plataforma graças às negociatas do PMDB, no pagamento de propina. A Samsung pagava comissões a Júlio Camargo, o broker da negociação que viabilizou a licitação junto ao doleiro Fernando Baiano, então representante de Cunha dentro da Petrobras.

Depois de conseguir o contrato e já começar a prestar os serviços para a estatal, a Samsung parou com o pagamento da comissão de Camargo. O que teria interrompido todo o repasse de propina. Eduardo Cunha, que teria deixado de receber a quantia, como resposta abriu representação na Câmara, solicitando informações sobre as empresas de Julio (Mitsue e Toyo) na Petrobras. Diante da pressão, mesmo sem receber, o broker chegou a pagar um total R$ 6 milhões de reais, em espécie, por conta própria, a Baiano, durante os anos de 2012 e 2013.

Cunha teria pedido “a uma Comissão do Congresso para questionar tudo sobre a empresa Toyo, Mitsui e sobre Camargo, Samsung e suas relações com a Petrobras, cobrando contratos e outras questões”, por intermédio de dois deputados do PMDB, contou o doleiro Youssef.

O que o jornal O Globo encontrou foram as representações dentro da Câmara, que de fato, mostram a pressão feita, por intermédio da deputada Solange Almeida (PMDB-RJ), hoje prefeita de Rio Bonito, em julho de 2011, na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara, solicitando o mesmo que o doleiro Youssef contou em seu depoimento.

Um dos requerimentos é remetido ao Tribunal de Contas da União, pedindo “informações sobre auditorias feitas aos contratos do Grupo Mitsui com a Petrobras ou qualquer das suas subsidiárias no Brasil ou no Exterior”. O outro documento solicita “ao Ministro de Minas e Energia, senhor Edison Lobão, informações e cópia do todos os contratos, aditivos e respectivos processos licitatórios, envolvendo o Grupo Mitsui e a Petrobras e suas subsidiárias no Brasil ou no Exterior”.

A justificativa para os dois requerimentos é que “vários contratos envolvendo a construção, operação e financiamento de plataformas e sondas da Petrobras, celebrados com o Grupo Mitsui, contém especulações de denúncias de improbidade, superfaturamento, juros elevados, ausência de licitação e beneficiamento a esse grupo que tem como cotista o senhor Júlio Camargo, conhecido como intermediário”.

A então deputada ainda pressionou, no arquivo: “Requeiro que seja adotada providência necessária por esta douta Comissão, a fim de acompanharmos todo o andamento dos referidos contratos e verificarmos a procedência de tais denúncias”.

No período, o TCU respondeu questionando o caráter vago do pedido da deputada: “Nenhum número de contrato ou informações mais específicas quanto aos objetos contratados (especificações de plataformas ou sondas) foi anexado”. A atual prefeita, que apoiou Cunha nas últimas eleições, não enviou mais esclarecimentos ao órgão.

A pressão teria causado efeito. Júlio Camargo teria voltado a fornecer os pagamentos, depois da suposta pressão de Cunha.

Coautor do requerimento, o deputado Sérgio Brito negou ao O Globo relação com os documentos: “eu nem sei o que é isso… Se eu não estou enganado, acho que essa deputada não pertencia à comissão. Mas eu me lembro que me pediram uns requerimentos, e, geralmente para fortalecer, sendo membro ou não da comissão, o presidente podia fazer. Por isso eu fiz”, disse.

O presidente da Câmara também negou qualquer relação com os requerimentos de Solange Almeida: “Zero, zero, zero. Absolutamente nada. Eu não conheço, não sou obrigado a conhecer os requerimentos feitos por outros deputados. Eu não posso afirmar se houve ou não outros requerimentos de outros deputados. Eu só posso afirmar que eu não fiz”, disse. E jogou a batata-quente para a deputada que o apoiou: “Se a deputada Solange Almeida fez o requerimento, por que que não tem um inquérito contra ela? Não tenho conhecimento nenhum. Ela é autônoma, ela e qualquer outro parlamentar. Sou aliado dela, como sou aliado de todos, mas não sou responsável pelos atos dos outros”, afirmou ao O Globo.

(Foto de capa: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)



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