A Nova Universidade da Holanda, um movimento inspirador

O que está em curso, segundo o professor holandês Edwald Engelen, é uma reação ao processo de "financeirização" do ensino superior, onde universidades são transformadas em “parceiras” de manobras financeiras e do setor imobiliário

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O levante estudantil contra cortes no ensino superior encontrou rápido apoio de professores e funcionários no país. O que está em curso, segundo o professor holandês Edwald Engelen, é uma reação ao processo de financeirização do ensino superior, onde universidades são transformadas em “parceiras” de manobras financeiras e do setor imobiliário

Por Daniel Mandur Thomaz, de Amsterdã

“Esse deve ser o lugar mais inspirador da Europa hoje”, disse o professor de Geografia Econômica Ewald Engelen em conferência organizada na semana passada pelo movimento Nova Universidade (De Nieuwe Universiteit) que, desde o dia 13 de fevereiro, ocupa prédios da Universidade de Amsterdã (veja matéria).

Prédio da Universidade de Amsterdam (UvA) ocupado por alunos
Prédio da Universidade de Amsterdam (UvA) ocupado por alunos

O levante estudantil contra cortes no ensino superior encontrou rápido apoio de professores e funcionários e já possui comitês de ação em boa parte das instituições de ensino do país. Diariamente, uma agenda organizada pelo movimento – que inclui palestras, debates, concertos, apresentações de dança e teatro – se realiza no prédio ocupado, onde grupos de trabalho discutem propostas e aprovam resoluções para o processo de negociação com a administração. Na comunidade internacional, intelectuais importantes como Noam Chomsky e Judith Butler assinaram carta de apoio à Nova Universidade e observam com entusiasmo o que acontece por lá. O principal ponto de reivindicação é muito claro: democratização da universidade. A comunidade acadêmica holandesa exige que decisões que a afetem sejam tomadas coletivamente e não apenas por burocratas que aplicam ao ensino fórmulas de gestão consagradas pelo mercado financeiro.

Panfleto contra a “financeirização” da universidade
Panfleto contra a “financeirização” da universidade

O que está em curso, segundo o professor holandês Edwald Engelen, é uma reação ao processo de “financeirização” do ensino superior, onde universidades são transformadas em “parceiras” de manobras financeiras e do setor imobiliário. Um dos prédios históricos da Universidade de Amsterdã, chamado Bungenhuis, foi recentemente negociado com um grupo de empreendimentos imobiliários para ser transformado em um hotel, o que, junto com o programa de cortes de verbas para 2016, foi o estopim para o levante. “Os conselhos executivos das universidades há muito tempo se afastaram das demandas culturais e científicas dessas instituições e das necessidades de alunos, professores e funcionários”, afirma Engelen. A universidade é apenas mais um caso, entre muitos outros, do processo de financeirização que avança sobre o espaço público, privatizando bens e serviços que se constituíram historicamente como direitos, tais como educação, saúde e previdência.

Durante a reconstrução da Europa, depois do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), países do Norte como a Holanda, arrasados pela guerra, investiram em um modelo de desenvolvimento que contou com a participação maciça do Estado para distribuir riquezas e garantir bem-estar social. É justamente esse modelo que está sendo violentamente atacado. Reformas neoliberais implantandas a partir dos anos 1990 ganharam, depois da crise de 2008, uma justificativa para serem radicalizadas. Trata-se de uma distorção que beneficia as grandes corporações, já que, em vez de se enfrentar as raízes da crise – a desregulamentação do mercado financeiro –, implementam-se ações ainda mais radicais de desregulamentação, com privatizações e desmonte do Estado de bem-estar social.

Tal processo é sistematicamente naturalizado pela grande mídia e se cristaliza no senso comum, fazendo com que seja percebido frequentemente como algo natural, parte do horizonte. O público olha o mundo há tanto tempo pela mesma janela que, ao fim, acredita que a janela é parte integrante da paisagem. A ocupação e a reapropriação da universidade têm produzido possibilidades de uma reeducação do olhar, abrindo espaço para novas paisagens e, sobretudo, para maneiras diferentes de mirar o horizonte.  Os debates sobre a democratização do ensino, surgidos no âmbito da Nova Universidade, têm produzido uma prática profundamente didática de participação popular, de democracia direta, que pode servir de laboratório para experiências em outras instâncias do espaço público.

No dia 9 de março, iniciou-se um processo de reuniões semanais entre o reitor, parte do conselho executivo e organizações de alunos e professores para estudar propostas de democratização da universidade. As negociações, no entanto, ainda engatinham; estão longe de uma resolução. Afinal, a universidade é parte de um quadro social mais amplo e, portanto, o que ocorre no interior de seus muros reflete diretamente o que acontece fora deles. Para a pesquisadora da Universidade de Utrecht e militante do movimento antirracismo Patricia Schor, a universidade continua sendo um ambiente que reproduz relações de poder profundamente desiguais. Ela faz parte de um grupo de trabalho instalado na ocupação da Universidade de Amsterdã para discutir diversidade (ou a falta de diversidade) no ambiente acadêmico. “Para avançar, a Nova Universidade precisará estar cada vez mais ligada aos movimentos sociais, sobretudo àqueles que fazem crítica frontal às estruturas racistas, sexistas e xenófobas que permeiam a sociedade.

Fotos: Daniel Mandur Thomaz



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